3 de outubro de 2016

O vestido preto.

Encontrei o meu vestido preto em meio à minha montanha de roupas. Aquele vestido que usei no dia em que te conheci. Estava com cheiro de guardado, com cheiro de nostalgia também. Fazia tempo que eu não usava. Decidi não mais usá-lo, pois todas as linhas e as costuras daquele vestido, a estampa, o tecido fino, o caimento no corpo... Tudo isso me remetia a você. O vestido ficou escanteado, no fundo da gaveta, esquecido, ignorado a existência. No momento em que toquei naquele tecido, incríveis flashes de lembranças passaram pela minha mente, como num filme. Era um dia de verão e mesmo estando quente, eu escolhi aquele vestido preto para vestir. Tinha um tecido leve e não me fez calor, me deixava segura e confortável. Na realidade, me fez muito calor quando tu se aproximou de mim, com tua fala mansa em meu ouvido, tua mão quente nos meus ombros, teu olhar inebriante fixo no meu. O vento daquele dia de verão parou, estacionou em camadas superiores. Só nos restava uma alternativa e nem precisamos pensar muito. Tu precisou tirar o vestido de mim. E eu nem senti falta daquele pano negro que cobria meu corpo e que me separava do teu. E o nosso verão se fez paraíso e inferno ao mesmo tempo, tal como um imortal jardim de flores em chamas.
Mas o verão acabou, e outras estações mais frias vieram. Chove lá fora e aqui dentro faz frio. E eu coloquei o vestido preto novamente, para me aquecer e entender que agora não sou mais tua deusa, tua bela. Sou tua viúva, viúva do teu amor. Me vesti de preto pra enterrar o teu amor que morreu por mim.



Um comentário:

  1. é necessário viver o luto e o deixar ir, porque evitar o conflito com nossos sentimentos e lembranças só prolongam coisas que antes deveriam estar mortas.

    beijas, sua linda!

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