20 de maio de 2014

Flerte no ônibus.


Sentou-se na cadeira mais alta, mas preferiu ficar longe da janela. O sol ia bater assim que o ônibus dobrasse a esquina. Percebeu alguém na parada seguinte e torceu para que esse alguém subisse no veículo. Sorte, pensou. O assento ao seu lado estava vazio e foi preenchido. Com um olhar sem graça, deu passagem. Tensão entre corpos lado a lado. Sem observações, fones de ouvido e música alta. Nenhuma fala foi acrescentada ao momento, que era ao menos propício. A timidez impediu a comunicação. Porém, alguns toques sutis, com a movimentação do ônibus, foi o bastante para demonstrar o interesse. Pernas se encostaram, mãos se sentiram, de forma perceptível apenas para os viajantes inibidos. A chuva se fez presente no caminho e a janela foi fechada. Um mormaço incomum invadiu, a temperatura elevou e dois corpos transpiraram com rapidez e sentiram a respiração ofegar. A parada estava próxima, a chuva continuava. Sem guarda-chuva, um corpo desceu, e sentiu gotas fortes de água na pele. O outro corpo fez a mente trabalhar em um milésimo de segundo e decidiu descer, já com a sombrinha aberta. Sorrisos, mesmo tímidos, surgiram nas duas bocas.

8 de maio de 2014

Coração ébrio.


Ele se apressa, anda rápido, corre. Bate forte. Toma tragos e mais tragos de um líquido etílico qualquer. A única função é embriagar-se. Não tem medo algum e bebe à custa das horas, vê o tempo passar. Não se importa. Balança, mexe, não trava, não para. Quase cai, mas se ajusta e equilibra, continua no seu ritmo. Meio desvairado, meio alucinado. O estado ébrio é permanente. Não se entristece. É feliz e não pensa em nada, só age. A sobriedade está longe, não volta cedo, mandou dar um passeio. Ser sóbrio é sinônimo de mente e sensações sãs. Ai daquele coração são. Não quer ser consequente ou comedido. Ele é insano, bêbado... Pede álcool, pede loucura, pede delírio, e tudo isso sem censura. Porque ele é assim: sempre pedindo mais uma dose de insensatez.