18 de janeiro de 2014

Mormaço rotineiro.

Manhã. O sol invade a janela com seus raios tórridos: é hora de levantar. O dia promete ser quente, no sentido literal da palavra. A água que cai do chuveiro é natural, mas parece sair de uma temperatura programada e quase queima a pele. Toalha já não é mais necessária; o clima envolve todo o corpo, enxugando as gotas que nem deslizaram direito. O primeiro desafio do dia se encontra no guarda-roupa: escolher uma peça agradável que  não grude no corpo. É difícil, já que a moda se preocupa mais com estética do que conforto. Pernas e ombros à mostra são as melhores alternativas. A caminhada até a parada de ônibus diminui toda falsa força inventada no despertar, já que um coletivo vazio passou acelerado. Espera-se um tempo indeterminado por um outro veículo, enquanto mais pessoas se juntam no aguardo. Eis que chega e os indivíduos correm, esperançosos por um assento. Mas não há. O ônibus já está abarrotado, com cidadãos espremidos nas portas e janelas. Matérias se misturam. Odores diversos enchem o ambiente, transmitindo sensações nauseantes. O trânsito, inimigo do tempo, logo se faz presente e a capacidade mental já não é mais a mesma. Pensamentos aprazíveis surgem; a velha tentativa de fuga. Mas a realidade predomina e já não se pode mais devanear. A trajetória parece ampliar-se cada vez mais e a paciência, esgotada, perde espaço. Não há música, não há livros, não há diálogos. Há calor, somente o calor. Aquele mormaço insuportável, que desfalece todos os membros, que derrete a pele e se manifesta em forma de fluído corporal que transborda e escorre por todos os poros do corpo, encharcando a roupa, molhando a testa, umedecendo os pés. A vitalidade da estrutura física já foi extraída, arrancada, sugada, condensada. Encarar a graduação, doravante, é um martírio. 

5 comentários:

  1. Laurinha, que saudades de vir aqui!! (:
    Amei esse teu texto! Sério, ficou muito bom. Principalmente porque entendo COMPLETAMENTE essa situação. Menina, que calor é esse??? Não dá pra aguentar haha'
    Adorei!

    Beijões.

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  2. Entendo sua dor, Laura. Partilho dela.

    Beijos!

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  3. mulher, senti isso na pele e de perto quando estive, recentemente, na vossa terra. o calor que faz ai é outro nível .-.

    beijocas, Laura!

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  4. Descrições podem ser convidativas e essa foi muito.
    Percebo que escolhe as palavras com cuidado, como um desenho de leras.
    Talvez por isso eu volte sempre aqui.

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  5. Bom, bem escrito.

    Linha a linha me levou em uma agonia sem explicação.

    Saudades daqui. Passarei

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