13 de janeiro de 2014

Eu, Matias.

Encontrei Matias sentado num banco perto do cais. Ele estava pensativo, calado, solitário e não notou quando sentei ao seu lado. Fazia tempo que eu não o via e acho que foi coincidência demais encontrá-lo ali, justamente no dia em que minhas lembranças surgiram novamente. Matias achou que eu era uma pessoa qualquer e não me olhou. Tinha um olhar tão vago que tive a impressão de que estava olhando para uma pessoa doente. Baixei levemente minha mão em sua coxa direita. Como se saísse de um transe, Matias tremeu a cabeça e olhou para mim, com os olhos arregalados, assustados. "Ah, oi" foram as primeiras palavras que me dirigiu, com tom de decepção.
Tinha uma feição cansada, abatida, desanimada. Para Matias, a vida era apenas o início do sofrimento. Não gostava de viver, estava sempre fatigado, não dava importância às coisas e às pessoas ao seu redor. Era um vagabundo, esperando a morte ou um milagre. Perambulava por aí, indigente sem destino, olhando o movimento das ruas. Não ficou surpreso em me ver; sabia que mais cedo ou mais tarde iríamos nos encontrar. De repente, soltou um riso estridente e falou milhares de coisas, umas até que não faziam sentido algum. Matias não era uma pessoa normal. Era depressivo e tinha suas paranoias em relação ao mundo. Mesmo não querendo melhorar, mesmo não querendo mudar de vida, lá estava ele, fazendo divagações da vida, do quão ela era má, era triste, era ruim. E eu ouvia tudo aquilo com tristeza, sabendo que eram palavras arremessadas num penhasco.
Decidi me afastar, pois era como se tudo voltasse outra vez. Mas Matias me pegou pela mão, apertando-a. Segurou com força e olhou diretamente nos meus olhos e desapareceu. Desapareceu e eu fiquei com medo, com muito medo. As lembranças naquele dia não voltaram por acaso. Matias marcou aquele encontro, ele fez acontecer já que planejava sua volta. 

E lá estava eu, sozinha no banco, imersa num pensamento que não fazia parte de mim, me sentindo menos eu, perdendo a consciência, a lucidez, a razão. E lá estava eu, sendo metade eu, metade Matias. Eu, Matias.

3 comentários:

  1. é que às vezes a gente sente falta da gente e essa gente mesmo resolve sair de nós pra nos trazer a memória que elas ainda existem e também sentem falta.
    (fui até a lua e voltei depois desse comentário lunático hehe)

    beijas, Laura.
    saudade <3

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  2. Esse conto me deixou meio Mathias.

    Como sempre, amo aqui! *-*

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  3. Queria achar uma palavras mais pura pra usar aqui. Mas não encontro.

    FODA!

    E como disse a outra moça, me deixou meio Matias, meio eu.

    Beijos Laura

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Me incentive um pouco mais.