18 de janeiro de 2014

Mormaço rotineiro.

Manhã. O sol invade a janela com seus raios tórridos: é hora de levantar. O dia promete ser quente, no sentido literal da palavra. A água que cai do chuveiro é natural, mas parece sair de uma temperatura programada e quase queima a pele. Toalha já não é mais necessária; o clima envolve todo o corpo, enxugando as gotas que nem deslizaram direito. O primeiro desafio do dia se encontra no guarda-roupa: escolher uma peça agradável que  não grude no corpo. É difícil, já que a moda se preocupa mais com estética do que conforto. Pernas e ombros à mostra são as melhores alternativas. A caminhada até a parada de ônibus diminui toda falsa força inventada no despertar, já que um coletivo vazio passou acelerado. Espera-se um tempo indeterminado por um outro veículo, enquanto mais pessoas se juntam no aguardo. Eis que chega e os indivíduos correm, esperançosos por um assento. Mas não há. O ônibus já está abarrotado, com cidadãos espremidos nas portas e janelas. Matérias se misturam. Odores diversos enchem o ambiente, transmitindo sensações nauseantes. O trânsito, inimigo do tempo, logo se faz presente e a capacidade mental já não é mais a mesma. Pensamentos aprazíveis surgem; a velha tentativa de fuga. Mas a realidade predomina e já não se pode mais devanear. A trajetória parece ampliar-se cada vez mais e a paciência, esgotada, perde espaço. Não há música, não há livros, não há diálogos. Há calor, somente o calor. Aquele mormaço insuportável, que desfalece todos os membros, que derrete a pele e se manifesta em forma de fluído corporal que transborda e escorre por todos os poros do corpo, encharcando a roupa, molhando a testa, umedecendo os pés. A vitalidade da estrutura física já foi extraída, arrancada, sugada, condensada. Encarar a graduação, doravante, é um martírio. 

13 de janeiro de 2014

Eu, Matias.

Encontrei Matias sentado num banco perto do cais. Ele estava pensativo, calado, solitário e não notou quando sentei ao seu lado. Fazia tempo que eu não o via e acho que foi coincidência demais encontrá-lo ali, justamente no dia em que minhas lembranças surgiram novamente. Matias achou que eu era uma pessoa qualquer e não me olhou. Tinha um olhar tão vago que tive a impressão de que estava olhando para uma pessoa doente. Baixei levemente minha mão em sua coxa direita. Como se saísse de um transe, Matias tremeu a cabeça e olhou para mim, com os olhos arregalados, assustados. "Ah, oi" foram as primeiras palavras que me dirigiu, com tom de decepção.
Tinha uma feição cansada, abatida, desanimada. Para Matias, a vida era apenas o início do sofrimento. Não gostava de viver, estava sempre fatigado, não dava importância às coisas e às pessoas ao seu redor. Era um vagabundo, esperando a morte ou um milagre. Perambulava por aí, indigente sem destino, olhando o movimento das ruas. Não ficou surpreso em me ver; sabia que mais cedo ou mais tarde iríamos nos encontrar. De repente, soltou um riso estridente e falou milhares de coisas, umas até que não faziam sentido algum. Matias não era uma pessoa normal. Era depressivo e tinha suas paranoias em relação ao mundo. Mesmo não querendo melhorar, mesmo não querendo mudar de vida, lá estava ele, fazendo divagações da vida, do quão ela era má, era triste, era ruim. E eu ouvia tudo aquilo com tristeza, sabendo que eram palavras arremessadas num penhasco.
Decidi me afastar, pois era como se tudo voltasse outra vez. Mas Matias me pegou pela mão, apertando-a. Segurou com força e olhou diretamente nos meus olhos e desapareceu. Desapareceu e eu fiquei com medo, com muito medo. As lembranças naquele dia não voltaram por acaso. Matias marcou aquele encontro, ele fez acontecer já que planejava sua volta. 

E lá estava eu, sozinha no banco, imersa num pensamento que não fazia parte de mim, me sentindo menos eu, perdendo a consciência, a lucidez, a razão. E lá estava eu, sendo metade eu, metade Matias. Eu, Matias.