16 de dezembro de 2014

Era uma vez um lar.

618. Era uma casa muito engraçada. O lar da família brasileira. A mais bonita da rua. A mais aconchegante, a mais receptiva. E que lar! Palco de festas da família, de sorrisos ébrios, da felicidade sem fim. Palco de churrasco de 1° de Janeiro, brindado e aclamado por todos. Palco de Copa do Mundo, de aniversários, festividade sem hora. Lugar de almoços bem preparados e jantares fartos. Lugar de reuniões, visitas sem hora. O lar nunca ficava vazio. Não faltava gente no lar. A presença sempre foi bem vinda e a ausência sentida. O lar, palco da iluminação dos corações QF, foi perdendo a luz. E que luz era, linda!
E como foi que se apagou? Veio 2003, e veio 2010, e veio 2012. Os anos levaram embora a luz, a magia e a graça do lar. E o que se tornou? Apenas um local de abrigo. Abrigando corações temerosos, corações raivosos, com choques e conflitos constantes. E o amor, que sempre foi palco do lar, deu lugar ao medo, a desordem, a sujeira, ao lixo, ao esquecimento, a insegurança, a tristeza, a dor. Como pode, Sr. Lar? Inexplicável como você se tornou doente, Sr. Lar. Fruto dos anos. Foi assim colhido. E hoje se encontra em degradação, e a qualquer momento explode e deixa de existir.
O lar, 618, não é mais lar há muito tempo.

Isso não é fábula, nem conto. É um pedido de socorro.

2 de junho de 2014

O ser.

Corpo e imagem não são tudo. A melhor coisa do ser humano é o que não se pode visualizar: a mente

20 de maio de 2014

Flerte no ônibus.


Sentou-se na cadeira mais alta, mas preferiu ficar longe da janela. O sol ia bater assim que o ônibus dobrasse a esquina. Percebeu alguém na parada seguinte e torceu para que esse alguém subisse no veículo. Sorte, pensou. O assento ao seu lado estava vazio e foi preenchido. Com um olhar sem graça, deu passagem. Tensão entre corpos lado a lado. Sem observações, fones de ouvido e música alta. Nenhuma fala foi acrescentada ao momento, que era ao menos propício. A timidez impediu a comunicação. Porém, alguns toques sutis, com a movimentação do ônibus, foi o bastante para demonstrar o interesse. Pernas se encostaram, mãos se sentiram, de forma perceptível apenas para os viajantes inibidos. A chuva se fez presente no caminho e a janela foi fechada. Um mormaço incomum invadiu, a temperatura elevou e dois corpos transpiraram com rapidez e sentiram a respiração ofegar. A parada estava próxima, a chuva continuava. Sem guarda-chuva, um corpo desceu, e sentiu gotas fortes de água na pele. O outro corpo fez a mente trabalhar em um milésimo de segundo e decidiu descer, já com a sombrinha aberta. Sorrisos, mesmo tímidos, surgiram nas duas bocas.

8 de maio de 2014

Coração ébrio.


Ele se apressa, anda rápido, corre. Bate forte. Toma tragos e mais tragos de um líquido etílico qualquer. A única função é embriagar-se. Não tem medo algum e bebe à custa das horas, vê o tempo passar. Não se importa. Balança, mexe, não trava, não para. Quase cai, mas se ajusta e equilibra, continua no seu ritmo. Meio desvairado, meio alucinado. O estado ébrio é permanente. Não se entristece. É feliz e não pensa em nada, só age. A sobriedade está longe, não volta cedo, mandou dar um passeio. Ser sóbrio é sinônimo de mente e sensações sãs. Ai daquele coração são. Não quer ser consequente ou comedido. Ele é insano, bêbado... Pede álcool, pede loucura, pede delírio, e tudo isso sem censura. Porque ele é assim: sempre pedindo mais uma dose de insensatez.

12 de abril de 2014

Sou alguém eu.


Converso comigo. 
Sou meu melhor amigo.
Às vezes, o pior inimigo. 
Histórias surgem e eu conto. 
E de tanto, me sinto tonto.
Não tenho tempo para pensar. 
Nem refletir e raciocinar. 
Os pensamentos chegam sem hora. 
Invadem, ocupam o espaço sem demora.
Numa guerra em busca de território. 
Entram em colisão de modo notório.
E me perco interiormente.
Na consciência exatamente. 

Eu estou aqui dentro e não sou eu fora de mim.



27 de março de 2014

Minha Leona.

Ela apareceu num dia chuvoso de Junho, tão pequenina, indefesa e chorona. A pretinha, com manchas brancas e bigode grande. Não teve nome por muito tempo, até eu aceitar a sua presença. Leona me conquistou aos poucos e me escolheu como sua dona, como sua mamãe. Todo dia de manhã me acordava ronronando e eu a rejeitava, porém abracei a ideia de cuidar daquela gatinha. Tinha uma doença comum dos gatinhos quando nasce de uma mãe infectada, mas eu cuidei para que ficasse boa e com saúde. E foi assim nos últimos meses que sua presença encheu a casa: com alegria e energia. Leona nunca gostou muito de carinho, mas eu sempre dei, mesmo que dessa vez a rejeição fosse para mim. Trouxe felicidade nos momentos tristes e melancólicos e tantas outras vezes me deixou preocupada com sua ausência. Logo que cresceu e descobriu que não mais tinha medo de altura, começou a escalar e descobriu uma ponte de fuga para a rua. E a angustia se apoderava de mim, tentando imaginar onde ela estava e o que andava fazendo. Mas o alívio se fazia presente quando retornava à casa em busca de comida. Miava e corria em direção ao seu potinho, que sempre esteve cheio, mas não parecia suficiente. 
Quanta saudade eu tenho de te colocar na bolsinha e te levar pra passear de bicicleta. Quando te prendi, não foi por maldade e sim cuidado. Queria tu ali sempre perto de mim, pra eu poder fazer carinho no teu corpinho peludo e macio. Que falta eu sinto daquele teu miado rouco. Que falta eu sinto quando tu me mordia e me arranhava. E de te levar no braço pra olhar a rua. De te dar banho, mesmo sem tu gostar e te aninhar numa toalha para tu não sentir frio. De olhar pra tu e dizer "mãe ama", mesmo tu não entendendo nada. Ah, Leonina, se tu soubesse a saudade que tu me trouxe com esse adeus que eu nem pude dar. Fui tão apaixonada, cuidei tanto, mas não foi o suficiente. Sei que o carinho e o amor que te dei durante esses sete meses foi o suficiente para me fazer feliz e te fazer feliz. É isso o que ao menos me conforta. Vou lembrar sempre de você, minha gatinha. Sempre


18 de janeiro de 2014

Mormaço rotineiro.

Manhã. O sol invade a janela com seus raios tórridos: é hora de levantar. O dia promete ser quente, no sentido literal da palavra. A água que cai do chuveiro é natural, mas parece sair de uma temperatura programada e quase queima a pele. Toalha já não é mais necessária; o clima envolve todo o corpo, enxugando as gotas que nem deslizaram direito. O primeiro desafio do dia se encontra no guarda-roupa: escolher uma peça agradável que  não grude no corpo. É difícil, já que a moda se preocupa mais com estética do que conforto. Pernas e ombros à mostra são as melhores alternativas. A caminhada até a parada de ônibus diminui toda falsa força inventada no despertar, já que um coletivo vazio passou acelerado. Espera-se um tempo indeterminado por um outro veículo, enquanto mais pessoas se juntam no aguardo. Eis que chega e os indivíduos correm, esperançosos por um assento. Mas não há. O ônibus já está abarrotado, com cidadãos espremidos nas portas e janelas. Matérias se misturam. Odores diversos enchem o ambiente, transmitindo sensações nauseantes. O trânsito, inimigo do tempo, logo se faz presente e a capacidade mental já não é mais a mesma. Pensamentos aprazíveis surgem; a velha tentativa de fuga. Mas a realidade predomina e já não se pode mais devanear. A trajetória parece ampliar-se cada vez mais e a paciência, esgotada, perde espaço. Não há música, não há livros, não há diálogos. Há calor, somente o calor. Aquele mormaço insuportável, que desfalece todos os membros, que derrete a pele e se manifesta em forma de fluído corporal que transborda e escorre por todos os poros do corpo, encharcando a roupa, molhando a testa, umedecendo os pés. A vitalidade da estrutura física já foi extraída, arrancada, sugada, condensada. Encarar a graduação, doravante, é um martírio. 

13 de janeiro de 2014

Eu, Matias.

Encontrei Matias sentado num banco perto do cais. Ele estava pensativo, calado, solitário e não notou quando sentei ao seu lado. Fazia tempo que eu não o via e acho que foi coincidência demais encontrá-lo ali, justamente no dia em que minhas lembranças surgiram novamente. Matias achou que eu era uma pessoa qualquer e não me olhou. Tinha um olhar tão vago que tive a impressão de que estava olhando para uma pessoa doente. Baixei levemente minha mão em sua coxa direita. Como se saísse de um transe, Matias tremeu a cabeça e olhou para mim, com os olhos arregalados, assustados. "Ah, oi" foram as primeiras palavras que me dirigiu, com tom de decepção.
Tinha uma feição cansada, abatida, desanimada. Para Matias, a vida era apenas o início do sofrimento. Não gostava de viver, estava sempre fatigado, não dava importância às coisas e às pessoas ao seu redor. Era um vagabundo, esperando a morte ou um milagre. Perambulava por aí, indigente sem destino, olhando o movimento das ruas. Não ficou surpreso em me ver; sabia que mais cedo ou mais tarde iríamos nos encontrar. De repente, soltou um riso estridente e falou milhares de coisas, umas até que não faziam sentido algum. Matias não era uma pessoa normal. Era depressivo e tinha suas paranoias em relação ao mundo. Mesmo não querendo melhorar, mesmo não querendo mudar de vida, lá estava ele, fazendo divagações da vida, do quão ela era má, era triste, era ruim. E eu ouvia tudo aquilo com tristeza, sabendo que eram palavras arremessadas num penhasco.
Decidi me afastar, pois era como se tudo voltasse outra vez. Mas Matias me pegou pela mão, apertando-a. Segurou com força e olhou diretamente nos meus olhos e desapareceu. Desapareceu e eu fiquei com medo, com muito medo. As lembranças naquele dia não voltaram por acaso. Matias marcou aquele encontro, ele fez acontecer já que planejava sua volta. 

E lá estava eu, sozinha no banco, imersa num pensamento que não fazia parte de mim, me sentindo menos eu, perdendo a consciência, a lucidez, a razão. E lá estava eu, sendo metade eu, metade Matias. Eu, Matias.