7 de outubro de 2012

Mudez e nudez.

A noite naquele dia estava fria, escura e monótona. Saí de casa de casaco e com cigarro na boca pois senti que a noite me chamava para dentro de si, com aquele ar convidativo, com cheiro de intensidade e olhar de curiosidade. Pouco ou nenhum movimento encontrei nas esquinas que passei. O vento se escondia de vez em quando por algum tempo, mas voltava e se encontrava comigo pelas esquinas, me surpreendendo e me assustando. E foi esse mesmo vento, assustador, porém benigno, que me trouxe algo belo. Os cabelos eram laranjas, da cor do fogo e vieram dançando no bailado do vento, parecendo as ondas do mar. Naquele momento, eu queria entrar naquelas ondas cor de fogo e nadar até o lugar mais profundo que eu encontrasse. Parei naquela esquina, a mais escura pela qual passei e fiquei a observar aquele ser coberto de incêndio, vindo em minha direção, trazendo luz e calor para a minha solidão da noite. Parou na minha frente justamente no meu último trago e a fumaça ficou no ar, bem na frente dos nossos rostos. Quando se dissipou, a vi vestida de mudez e nudez. Tentei falar, mas ela não me respondia, apenas pegou na minha mão e foi me levando. Tinha um corpo magnífico, em traços e contornos quase perfeitos e uma pele que brilhava  muito, mesmo nas trevas daquela noite caliginosa. Quando dei por mim, ela estava cobrindo meu corpo com o seu, me fazendo deitar na relva de uma esquina que eu não conhecia até aquele instante. Senti que estava deitando num colchão de plumas, com um lençol macio de seda. Envolvi-me em seus beijos, em seus toques, no seu cheiro, naquele mar de fogo que quase me afogava. Minha pele ardia, queimava em contato com a pele dela, mas eu a consumia, enquanto ela me devorava cada vez mais. Suas unhas se enterravam nas minhas costas, rasgando e fazendo sangrar. O cheiro forte de sangue subia, mas estávamos distraídos, mergulhados em nossa libido. Fui até o fim, sangrando, ardendo, suando e me deleitando. Deitei ofegando na relva, consumido pelo fogo que aquele ser jogou em mim. Não me dei conta quando ela foi embora, pois logo depois que me virei não vi mais nenhum sinal de incêndio, de pele brilhosa, nada. Voltei para casa e minha noite se tornou quente, iluminada e agradável. 

5 comentários:

  1. Muito bom! Lembrei de uma cena de True Blood, em que o policial foi surpreendido por uma fada e, lá na relva mesmo, eles se enroscaram, rs.

    Belo texto, Inercya.

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  2. Gostoso de ler, bem escrito - Você usou as palavras de forma muito exata Laura, além de bonito e reflexivo, ficou muito intenso.


    Adorei.




    *Eu venho aqui, porque eu realmente gosto de ler você, passo o máximo de tempo que posso, principalmente quando perco algum escrito. Beijos Moça e obrigada pela visita também*

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  3. "Voltei para casa e minha noite se tornou quente, iluminada e agradável." - algumas pessoas têm o dom de deixar um espaço dentro da gente quente e confortável... acho que amor é isso, né? =]

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  4. Que delícia de conto... Fiquei até pseudo triste quando acabou, rs

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  5. Encontrei o seu blog por acaso e acredito que foi o melhor que podia ter me acontecido nesse momento. Você escreve muito bem. O conto é lindo. E eu viajei muito aqui, comecei a pensar na história e sorri junto.
    Lindas palavras.
    Cuide-se.
    Estou seguindo.

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