29 de agosto de 2012

Abstinência.

Um, dois, quatro, seis meses. Não, um ano, um ano e meio, quem sabe. Na verdade, ela não sabia. Ela não contava. Preferia não fazê-lo, para não ficar frustrada lembrando de sua abstinência. Sabia, claro, que fazia muito tempo, mas só de pensar nesse tempo, ficava irritada, à flor da pele, como diriam algumas pessoas vendo seu estado. O sono não vinha pela noite e de manhã tinha de estar de pé. Resolveu então que acabaria com essa situação, terminaria com suas dúvidas quanto ao tempo de meses ou anos. Assim que uma nova noite surgiu no horizonte, preparou-se. Tomou seu banho completo, que não tomava há meses, anos, mas agora isso não estava mais importando. Decidiu não usar preto, muito menos vermelho. Achava dramático, chamativo demais e a denunciava. Saiu básica, sem exageros. Ela iria conseguir o que queria, independentemente do que estava usando. Passou por bares, boates, restaurantes, bebeu tipos de álcool possíveis, enquanto observava as pessoas que entravam e saiam do lugar. Fitava os dedos anelares, estes sempre ocupados. Voltou desolada, triste e impaciente. Pensou que o problema era sua roupa e prometeu a si mesma que ia melhorar isso na próxima vez. Quando chegou em seu prédio, o porteiro, um homem bonito e másculo, que tinha o anelar vazio, estava saindo de seu turno. Não conhecia aquele, ou ao menos não tinha reparado, mas arriscou chamá-lo para um café. E por que não? Nesta noite, não teve insônia. Dormiu bem, afinal. Não sentia mais irritação. E ao sair de casa, seu tempo estava em minutos, não mais em meses ou anos. Sorriu ao lembrar de sua noite e caminhou em direção ao ponto de ônibus.

8 comentários:

  1. Esse pequeno ensaio cinematográfico-literário é muito instigante. Talvez por nunca sabermos ao certo quando interromper um ciclo e mocional e começar a construir outro.

    Você também vende aqui a ideia de que procurar nem sempre é o caminho certo. Devemos esperar a surpresa e fortalecer o que temos de melhor. Assim, as coisas acontecem, ou pelo menos, deveriam acontecer.

    Importante que ela dormiu bem e terá novas coisas para sonhar.

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  2. O bom dos seus contos, é que a gente consegue acompanhar exatamente o ritmo cinematográfico-literário que o moço citou acima. Gosto muito dos seus contos, em particular, mais do que os poemas. São sempre exóticos. Matar aquilo que nos mata. Noites assim não são para ter sempre, perde a graça. Acho que é pra ver imprevisível mesmo. Enfim, bom voltar aqui. Dois beijos, cuide-se.

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  3. Prosaico e poético ao mesmo tempo, cotidiano e eterno simultaneamente: gostei muito!

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  4. Há sempre o momento correto para recomeços. Maravilha acreditar que podemos nos aventurar novamente em um novo relacionamento. Tentar, ao menos, é sempre válido.
    Abraços.

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  5. Você escreve de um jeito que não torna o texto vulgar.
    E são esses, os amores aventurados, ou aventuras de amor, os mais bonitos.

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  6. Tem meme para você lá no Freescura. ;D

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  7. Bom, muito bom. Denso e intenso eu diria.

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Me incentive um pouco mais.