7 de junho de 2012

Harmonia.

A água estava geladinha, numa temperatura perfeita para um bom banho numa tarde de verão. As gotas d'água escorriam pela minha pele, como se apostassem corrida. Pareciam dançar pelo meu corpo, se esquivando das curvas e fugindo dos abismos. O tempo parava para mim na hora do banho. Não tinha pressa, me entregava totalmente àquele momento precioso do dia. Quase nunca interrompia e quando o fazia, meu mau humor se retirava das cavernas.

O celular tocou justamente na hora em que eu lavava meu cabelo. Se não fosse pelas dezenove vezes que ele tocou, eu não atenderia. Saí do banho, molhando o quarto todo à procura do maldito aparelho que insistia em me tirar do sério. Um número não identificado apareceu no visor. Já impaciente, atendi. "Quem é!?", perguntei. "Abre aqui, Samara, faz um tempão que estou tocando a campainha". Era Nico, o safado do Nico. Fiquei me perguntando o que ele estava fazendo na minha porta à essa hora. "Olha, Nico, você vai esperar, que eu estou no meio do meu precioso banho, ok?" Já ia desligar, quando teve a audácia de me responder: "Marinha, abre essa porta para eu entrar nesse meio também!" Era só o que me faltava. Dessa vez desliguei e voltei para o banho. Que ele ficasse esperando, oras!

Lá estava Nico, sentado no chão, com cara de retardado cansado quando eu abri a porta. Carregava alguma coisa na mão, uma sacola cheia de treco dentro que eu não tive trabalho de imaginar. "Olha só o que eu trouxe para gente, Marinha!" E mostrou o que tinha dentro na sacola. Uma garrafa de vinho importado, duas taças, que ele fez questão de dizer com todas as letras que eram de cristal, uma caixa de bombom de licor, uma bandeja de frios e uma carteira de cigarro. "Pra quê tudo isso, Nico? Estamos comemorando alguma coisa?" "Samara, você esqueceu que dia é hoje!?" Foi aí que me lembrei que era nosso aniversário de namoro.

Nico relevou meus esquecimentos. Mas é claro que tinha de aceitar. Depois de tudo o que aprontou, era o que estava precisando. E isso não era nem uma pitada do que merecia, mas mesmo assim resolvi esquecer e comemorar o nosso dia. Era o que ele fazia, toda vez que tínhamos uma briga: trazia mimos para acalmar a fera. Da última vez, trouxe um buquê de flores, bem ridículo, de umas flores mais ridículas ainda. O tonto esqueceu que eu era alérgica e quando jogou o buquê bem na minha cara quando abri a porta, o presenteei com um espirro na cara. Mereceu, ele sempre merece! 

Mas eu gostava demais de Nico e eu tinha certeza de que ele também correspondia aos meus sentimentos, apesar das besteiras que sempre fazia. Eu até que gostava, sabe, pois ele sempre vinha com seus mimos para me agradar. E quem é que não gosta de ser agradada? O vinho já estava gelado, "tudo no ponto", como Nico falou. Sentamos no tapete da sala, encostando no sofá. Nico tinha colocado uma música romântico no som, mesmo eu protestando. Não curtia muito esse tipo de clima romântico, acho brega e fora de moda, mas no fim gostei do que estava ouvindo e deixei a música tocar. E o engraçado foi que ele me puxou para dançar, quando tocou a que ele mais gostava. "Vamos, Marinha, é a minha preferida!" Só eu mesmo para aturar aquelas palhaçadas, mas acabei cedendo, como sempre costumo fazer. Dançamos com a taça na mão, já meio tontos, derramando vinho no tapete. Não me importei, eu até que estava me divertindo. E quando então a música parou, ele me lançou no tapete, daquele jeito que só ele sabia fazer, e me beijou profundamente, tirando minha roupa. E como sempre, me deixei levar naquele impulso de Nico.

9 comentários:

  1. Esses impulsos... Sempre tão belos, tão vívidos e ótimos de se viver! hahaha. Adorei o seu Nico, Laura. Preciso que o meu Nico torne-se finalmente "meu"... Enfim!
    Lindo teu conto, como sempre. Saudades do seu recanto! Adoro seu blog, suas coisas, suas escritas.

    Beijão, menina.

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  2. Amor perfeito é nome de flor. SÓ DE FLOR...
    Amor que dura é desses aí, cheios de trancos e barrancos!

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  3. Nossa, que cena! Tipo, cá estou eu imaginando. O santo momento sagrado do banho, o namorado vindo com mimos para compensar as burradas. A namorada pisando um pouquinho... a música, a dança, o vinho... aiai... Que delícia de texto menina!
    Muito gostoso de se ler, pareceu-me tão curtinho! *-*

    Beeijos.

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  4. Lindo texto - começa líquido com a água, vai ficando líquido com o vinho, termina líquido de lágrimas... Achei cotidiano e poético ao mesmo tempo, e gostei muito, mas muito mesmo!

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  5. Tão... Bonito, tão tocante, sabe? Parecia uma história simples no começo e depois foi tomando rumo. Gostei da forma como você escreveu algo sobre amor fugindo dos clichês românticos que muitas pessoas usam. Você escreveu do seu jeito, talvez até demonstrando alguma verdade nisso tudo, estou certa? Ótimo texto, menina. Um beijo e bom restinho de semana! @pequenatiss.

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  6. Ai, que amor, Laurinha! Coisa linda esses teus textos... Não importa quanto tempo deixo de vir aqui, pois todas as vezes que venho encontro sua essência sempre tão madura e bela! Parabéns por essa maneira tão clara de se expressar nos contos! Você é uma verdadeira amiga das palavras!
    Ah, obrigada também por ser também uma seguidora fiel!
    Quando eu menos espero leio um comentário seu lá no blog. rsrs

    Um beijo no coração,
    sua amiga recifense :)

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  7. Não sei o que o Nico fez, mas ele é apaixonante, hein?

    E hey, obrigada pela visita que sempre faz :)

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  8. Fique até com vontade de tomar banho e dançar com ela!

    Faz tempo que não tomo um bom vinho.

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Me incentive um pouco mais.