29 de junho de 2012

yours.



sei que você nunca mais será meu, mas eu estarei sempre pronta para ser sua novamente




four years, germany.

25 de junho de 2012

Leia-me.

Leia-me. Através dos meus olhos, olhando-os profundamente, encontrando o brilho e seu interior. Leia-me, observando meus passos, meu modo de caminhar, os passos que eu dou e meus modos bruscos de estagnar. Leia-me reparando em meus gestos, o que faço, o que fiz, o que deixo de fazer. Leia-me, enquanto eu estiver dormindo, enquanto eu estiver sonhando, perceba meus movimentos noturnos, meu jeito de deitar e me deixar entrar no mais profundo do mundo paralelo. Leia-me, quando meus cabelos voam e balançam com o vento, fazendo uma dança embalada pelo ar atmosférico. Leia-me, pelo suor que sai dos meus poros, escorrendo pela minha pele, à medida que os odores exalam do meu corpo. Leia-me, quando ouvir minha voz, atente a cada detalhe do meu tom, das minhas palavras e me ouça cantando uma canção qualquer. Leia-me, de ponta à cabeça, me devore, tire a minha roupa, explore cada detalhe meu, tudo o que puder encontrar em minhas entrelinhas, me tenha por inteira, sinta minha pulsação, ouça meu coração, sinta meu gosto, me cheire, me beije, me trague, me rasgue, me queime, me incendeie, me odeie, me ame. Mas lembre-se: não se pode ler alguém por completo. Nunca se lê ninguém por completo. Leia-me, mas saiba que suas interpretações não serão suficientes para me conhecer totalmente. Faça quantas quiser e quantas for possível. Você nunca deixará de ler. Ou deixará. Mas poderá voltar, sempre que quiser. Porém, você nunca vai me compreender, mesmo voltando, mesmo tentando enxergar além. Por que você nunca chegará ao final, você nunca saberá onde está o meu final.

16 de junho de 2012

Toda noite.


E toda noite é assim. Tenho tanto medo quando essa hora chega, cheia de mistérios, cheia de encantos e desencantos profundos, cheia de tons, mas ao mesmo tempo ausente de cores, de sensações, de bons pensamentos... E todo fim de noite algo, que não sei o que é, se desperta, como se se escondesse de dia propositalmente e escolhesse o momento mais inoportuno para aparecer. Há um grande buraco, um vazio em tudo, e eu não encontro respostas, não encontro nada que me faça entender o que é essa lacuna que não é preenchida. É um sentimento melancólico, triste e sensível. Não sei ao certo quando apareceu, até por que nem ao menos sei o que significa, do que faz parte, se está relacionado a algo ou a alguém. Só sei de sua existência e ele sempre chega na hora mais reflexiva do dia, onde tudo que está dentro do ser transborda e divaga pelo ar. É um daqueles questionamentos que não existe mesmo resolução, onde todas as interrogações são inúteis, onde nada leva a nada. Mas, quem sabe... Pode ser que em alguma dessas noites escuras, algo finalmente se ilumine e a resposta surja, sem ao menos uma pergunta. E eu vou esperar, toda noite, toda noite, mesmo que se demore, que esse vazio sem nome seja respondido e finalmente preenchido.

7 de junho de 2012

Harmonia.

A água estava geladinha, numa temperatura perfeita para um bom banho numa tarde de verão. As gotas d'água escorriam pela minha pele, como se apostassem corrida. Pareciam dançar pelo meu corpo, se esquivando das curvas e fugindo dos abismos. O tempo parava para mim na hora do banho. Não tinha pressa, me entregava totalmente àquele momento precioso do dia. Quase nunca interrompia e quando o fazia, meu mau humor se retirava das cavernas.

O celular tocou justamente na hora em que eu lavava meu cabelo. Se não fosse pelas dezenove vezes que ele tocou, eu não atenderia. Saí do banho, molhando o quarto todo à procura do maldito aparelho que insistia em me tirar do sério. Um número não identificado apareceu no visor. Já impaciente, atendi. "Quem é!?", perguntei. "Abre aqui, Samara, faz um tempão que estou tocando a campainha". Era Nico, o safado do Nico. Fiquei me perguntando o que ele estava fazendo na minha porta à essa hora. "Olha, Nico, você vai esperar, que eu estou no meio do meu precioso banho, ok?" Já ia desligar, quando teve a audácia de me responder: "Marinha, abre essa porta para eu entrar nesse meio também!" Era só o que me faltava. Dessa vez desliguei e voltei para o banho. Que ele ficasse esperando, oras!

Lá estava Nico, sentado no chão, com cara de retardado cansado quando eu abri a porta. Carregava alguma coisa na mão, uma sacola cheia de treco dentro que eu não tive trabalho de imaginar. "Olha só o que eu trouxe para gente, Marinha!" E mostrou o que tinha dentro na sacola. Uma garrafa de vinho importado, duas taças, que ele fez questão de dizer com todas as letras que eram de cristal, uma caixa de bombom de licor, uma bandeja de frios e uma carteira de cigarro. "Pra quê tudo isso, Nico? Estamos comemorando alguma coisa?" "Samara, você esqueceu que dia é hoje!?" Foi aí que me lembrei que era nosso aniversário de namoro.

Nico relevou meus esquecimentos. Mas é claro que tinha de aceitar. Depois de tudo o que aprontou, era o que estava precisando. E isso não era nem uma pitada do que merecia, mas mesmo assim resolvi esquecer e comemorar o nosso dia. Era o que ele fazia, toda vez que tínhamos uma briga: trazia mimos para acalmar a fera. Da última vez, trouxe um buquê de flores, bem ridículo, de umas flores mais ridículas ainda. O tonto esqueceu que eu era alérgica e quando jogou o buquê bem na minha cara quando abri a porta, o presenteei com um espirro na cara. Mereceu, ele sempre merece! 

Mas eu gostava demais de Nico e eu tinha certeza de que ele também correspondia aos meus sentimentos, apesar das besteiras que sempre fazia. Eu até que gostava, sabe, pois ele sempre vinha com seus mimos para me agradar. E quem é que não gosta de ser agradada? O vinho já estava gelado, "tudo no ponto", como Nico falou. Sentamos no tapete da sala, encostando no sofá. Nico tinha colocado uma música romântico no som, mesmo eu protestando. Não curtia muito esse tipo de clima romântico, acho brega e fora de moda, mas no fim gostei do que estava ouvindo e deixei a música tocar. E o engraçado foi que ele me puxou para dançar, quando tocou a que ele mais gostava. "Vamos, Marinha, é a minha preferida!" Só eu mesmo para aturar aquelas palhaçadas, mas acabei cedendo, como sempre costumo fazer. Dançamos com a taça na mão, já meio tontos, derramando vinho no tapete. Não me importei, eu até que estava me divertindo. E quando então a música parou, ele me lançou no tapete, daquele jeito que só ele sabia fazer, e me beijou profundamente, tirando minha roupa. E como sempre, me deixei levar naquele impulso de Nico.

2 de junho de 2012

Home (?)

Todo dia ele vem. Sim, a presença dele por aqui já não é mais uma novidade. De manhã cedo ou no começo da noite, ele passa por aqui. Vem sempre ver como estão as coisas, se está tudo em ordem, se falta algo e se sobra algo, também. Pergunta como vai tudo por aqui, se está tudo bem, tudo tranquilo, se está faltando algo e simplesmente vai embora. Muitas vezes chega com sacolas na mão, algumas compras para incrementar a geladeira semi vazia, como que afirmando que nada por aqui vai faltar (mas esquecendo que o que falta mesmo é a tal presença). São passagens rápidas, que nem posso chamar de visitas, visto que não chegam a durar nem mais que dez minutos. 
Seu antigo quarto virou depósito e ele finge ligar, mas não faz diferença, pois não é mais lá que ele dorme. Está sujo, cheio de poeira e o cheiro não é agradável. Para um quarto que antes era considerado o melhor lugar da casa, o mais aconchegante, atualmente não tem o mesmo valor. Coisas velhas são ali depositadas, quase sempre jogadas ao léu, não são nem guardadas, pois ali não tem móvel nenhum sequer. A janela, que sempre vivia aberta, agora se encontra fechada, por causa das estranhezas de certo habitante. Nada mais parece ser como era antes. A atmosfera do lar não é a mesma, tem um quê de melancolia, de tristeza, como um rádio quebrado, que sem determinada parte, não funciona corretamente. E era assim que a casa funcionava: de um jeito estranho, de um jeito incomum, de um jeito errado. 
Mas, de um jeito ou de outro, ainda há um pouco de vida neste lar, mesmo que pouco. A vida dentro dele não morreu, então continua sendo um lar, mesmo que diferente, mesmo sem a ambiência agradável de antes, mesmo sem aquela antiga harmonia, que era quebrada por briguinhas fúteis, mas que acabavam voltando ao normal. Havia a sensação de que, um dia, aquilo iria mudar novamente, só que desta vez, pra melhor.