23 de janeiro de 2012

Imperativos.


Não preciso que me digam o que deve ser feito. Não me servem. Eu não gosto deles.

17 de janeiro de 2012

A noite e meu último cigarro.


A noite estava tão agradável... Decidi fumar, o meu último cigarro. A minha janela era estreita, mas sou pequena, então, ali era o lugar perfeito. Coloquei uma almofada redonda, colorida e sentei. Foi difícil me posicionar, mas como eu disse, sou pequena. Consegui uma posição boa, confortável. O céu estava com nuvens, mas não chovia. A brisa me tocava com delicadeza. Que sensação boa eu estava sentindo. Acendi o cigarro, o último que tinha sobrado de uma festa. Sorte a minha. Traguei devagar, para durar mais. As cinzas caiam sozinhas, tinham paciência por estarem ali. Senti umas gotas de água e me deixei molhar, por um tempo. As nuvens não estavam ali para me expulsar, estavam me dando boas vindas. Senti-me tonta e era aquela tontura que eu estava precisando. Olhei para o céu e algumas estrelas sorriam para mim. As poucas estrelas que se encontravam nas pequenas partes do céu que não estava coberta pelas nuvens. Eu não via a lua, mas eu sabia que ela estava ali. Iluminou todo o meu quintal. Eu gostava de ver aquilo, eu gostei de estar onde eu estava. O galo cantava e eram só três horas da manhã. Acho que ele também estava me dando boas vindas. Que noite inspirável. E eu estava só, completamente só. Foi aí que descobri que é possível ser feliz sozinho, por uma noite. Não precisei ter ninguém ao meu lado para me sentir bem. Eu estava bem comigo. Com a noite e com meu último cigarro. Sem ninguém para atrapalhar. Eu poderia passar o resto da minha vida assim, sentada na minha estreita janela e fumando mil últimos cigarros. O céu se abriu para mim e eu sorri, em agradecimento. Tudo tão calmo e tão silencioso. Eu era invisível e me senti infinito, como Charlie.  





two years blogging. same day, same time. and i don't feel that fear.

11 de janeiro de 2012

Hüpnoos.

A madrugada é vazia, solitária. Nada ouço. Limpo os ouvidos; nada ouço novamente. O escuro se aprofunda cada vez mais, escondendo-me coisas. A madrugada é uma ótima casa. Sinto-me à vontade, respiro um ar calmo, porém denso. Não me importa. Na prateleira, ao longe, pequenos blocos de páginas enchem meus olhos de encanto, me chamam, me convidam para entrar. Sou atraída pelo som, pelo cheiro, pelo sabor. Encontro-me em um corredor, longo e estreito. Vejo uma pequena iluminação em seu final. O convite ainda está feito e estou caminhando, em direção a eles. Meus passos são calmos, cautelosos. Algo me diz que abaixo de mim se encontra o fim. Quanto mais ando, mais o caminho se alonga. O convite ainda está de pé, eu quero encontrá-los. Incomodo-me com a demora, com a distância. Peço que venham até mim. Negam-se. Procuro desistir, mas o caminho atrás de mim não mais existe. O escuro o engoliu, trancou tudo o que eu tinha. O chão começa a tremer. O fim está abaixo de mim. Quebram-se em toras as madeiras. Tento correr, mas sou sugada, pelo escuro, pelo fim. A madrugada é vazia, solitária. Nada ouço. Os devaneios caem em letargia.

4 de janeiro de 2012

Eu só queria que alguém me amasse.

Nasci na rua e até hoje permaneço nesse caos interminável. A vida aqui é muito difícil. Tenho que sair do meu abrigo, o pequeno e único abrigo que tenho, para procurar comida. É complicado, pois às vezes volto para o meu cantinho sem nada. Observo as pessoas ao meu redor quando saio na rua, mas todas elas fingem não me ver. Sorrio para elas, mas é como se meu sorriso não contagiassem essas pessoas, que passam apresadas, com medo de ser atacadas. Ainda não consigo entender por que são assim, por que não me querem. É difícil, muito difícil para mim.
Hoje escapei de um tormento, como várias vezes escapei. Tive sorte, como sempre, mas não sei até quando essa sorte vai andar ao meu lado. Já briguei muitas vezes, saí arranhado, todo quebrado, mas me curei, sozinho. Tenho marcas, é claro, marcas que carregarei por toda a minha vida. Outras vezes escapei de acidentes trágicos, como atropelamentos e cair de uma ponte. Foi duro para mim ter de sair do abrigo depois desses acontecimentos; eu tinha medo de passar por isso mais uma vez.
Tive um amor. Encontrei-a em outro abrigo, na mesma situação que a minha. Era linda! Seus olhos brilhavam tanto e seu sorriso me dava esperanças. Mas ela não teve a mesma sorte que eu. Vi quando ela foi tentar pegar comida para nós e ser levada, abaixo de murros, tapas e choques. Deveria ser eu no lugar dela. Sempre teimou em buscar comida e eu nunca deixei. Não sei se ela ainda está viva...
Não tenho amigos. Vejo grupos se formarem, mas ninguém me aceita. É que eu tenho pulgas e eles não gostam, não querem pegar. As pulgas são minhas únicas companhias e elas nem sequer são minhas amigas. Sugam todo meu sangue e toda a minha energia, mas eu não me dou por vencido. Não são elas que vão me fazer morrer.
Eu só queria que alguém me amasse, me adotasse e me desse um lar. Já sofri bastante aqui na rua e queria ter um dono. Alguém que me desse amor, carinho, um lar quentinho, comida e água. Que cortasse meus pêlos e minhas unhas quando estivessem grandes, que me levasse para passear pelo parque para conhecer amigos. Não é pedir muito, sei que não é, pois eu vejo outros por aí com seus donos, sorrindo e esbanjando felicidade. Mas eu tenho esperanças. Um dia eu sei que alguém vai me querer e levar para casa e cuidar de mim. 





A todos os cães que vivem na rua e não conhecem o amor.