26 de agosto de 2011

Vento na janela.

Acordei em um dia cinza, há quilômetros de casa. A viagem havia sido longa e cansativa, então tombei na cama do quarto de hotel, que eu tinha reservado dias antes da minha partida. Eu precisava sair de casa, respirar novos ares, conhecer novas pessoas e ter um momento somente meu. Minha vida não estava bem, os problemas com a família sugavam toda a minha paciência, as brigas e confusões pareciam nunca cessar e o único jeito de deixar isso de lado por um tempo era viajando. Creio que minha atitude não foi nem um pouco madura, afinal eu virei as costas para os problemas e fugi, mas estava precisando disso há muito tempo.

Não tinha sido fácil fazer minhas malas de madrugada, sem fazer barulho. Eu queria sair sem que ninguém me visse, pois poderia escutar algumas palavras que me fizessem voltar atrás. Pensei em como todos iriam se sentir quando soubessem que eu os tinha deixado para trás, sem me importar, sem dizer para onde eu ia, então deixei um recado, na porta da geladeira, explicando meu motivo, que eu ia ligar todos os dias para dizer que eu estava bem e que o tempo da minha viagem era indeterminado.

Levantei-me e fui diretamente para o banheiro tomar um bom banho. Apesar da ameaça de chuva, a temperatura estava altíssima, gerando aquele mormaço, como praia em dia de domingo. Como era meu primeiro dia por ali, resolvi sair cedo para conhecer um pouco da história da cidade e os lugares interessantes para se visitar. Era uma cidade simples, porém muito bonita e o que me encantavam eram as pessoas, todas bem vestidas e muito educadas. Sempre que alguém passava pelo meu lado, dizia um ‘Bom Dia!’ com um grande sorriso estampado no rosto.

Conheci pessoas maravilhosas e muito acolhedoras, tanto que fiz amizade com uma senhora que insistiu que eu deixasse o hotel para passar meus dias em sua casa. Era viúva, seus filhos moravam longe e se sentia muito sozinha numa casa que guardava muitas lembranças. Pensei bastante e dois dias depois fui me hospedar em seu cantinho. A casa era bonita, muito bem decorada e com um cheiro que lembrava a minha casa; eu não poderia me sentir tão melhor quanto eu estava.

A senhora me deu toda a liberdade que eu podia, mas não queria ter. Disse que se sentia muito bem quando alguém passava os dias em sua casa. Todos os dias ela me lembrava de ligar para casa e me deixava o tempo necessário, mas é claro que eu não gostava de abusar. Contou-me diversas histórias, de seu tempo de menina até sua velhice. Suas histórias me prendiam a atenção e passávamos as tardes em sua varanda tomando chá e comendo biscoitos. Eu me distraia e não me lembrava dos meus problemas; eu estava feliz ali.

Todas as noites, ela preparava um jantar e me impedia de chegar perto da cozinha. Às vezes chegava a trancar a porta, só para eu não desobedecer às suas ordens. Servia tudo com muito gosto e eram comidas maravilhosas. Tinha gosto de fazer aquilo, de cozinhar para alguém e ter companhia nos jantares. Notei que ela sentia muita falta dos filhos e do marido falecido e eu era como uma filha, por me tratar tão bem e me mimar.

Dias se passaram, recebi ótimas notícias de casa, estava tudo bem. As brigas não mais existiam e a paz reinava em minha casa. Eu sabia que já era hora de voltar, não só por que estava tudo bem, mas eu já estava a um bom tempo fora de casa. A senhora insistiu que eu ficasse mais uma semana, não queria me deixar ir embora de jeito nenhum. Como eu devia toda a minha gratidão a ela, resolvi aceitar. Mudei um pouco a rotina, consegui convencê-la de que eu podia cozinhar e agora era eu que contava histórias. Ela sorria, entendia tudo o que eu falava e até me dava conselhos.

Infelizmente, o dia de ir embora estava chegando. Na última noite, ficamos acordadas quase a noite inteira, comendo doces e assistindo filmes. Foi uma ótima despedida. Eu cativei e fui cativada e isso me deixou com o coração apertado por ter de partir. Fui me deitar quase pela manhã, com a certeza de que um dia eu não tardaria a voltar lá. Acordei poucas horas depois com o sol em meu rosto. A janela estava aberta, as cortinas esvoaçavam muito e o vento estava muito frio. Cheguei a me perguntar se havia esquecido a janela aberta, mas eu tinha plena certeza de que estava trancada quando me deitei.

Olhei para fora e vi um céu bonito, azul, diferentemente daquele céu que me recepcionou. O dia estava belo, como eu nunca tinha visto. Pássaros brancos voavam baixo, próximos da casa. Alguns pousaram nos fios de energia, de frente para casa. Fiquei admirada com a atitude incomum dos pássaros e fui chamar a anfitriã da casa para admirar junto comigo. Procurei em seu quarto, mas ela não estava. Passei pela sala e a encontrei sentada na poltrona, cochilando. Cheguei perto e balancei levemente seu braço, para não assusta-lá, mas ela não se moveu. Seu rosto estava sereno, parecia que sua alma sorria. Balancei mais uma vez seu braço, mas foi em vão, ela não se mexeu de jeito nenhum. Percebi então que ela não mais respirava e comecei a balançar todo o seu corpo, quase gritando. Todas as minhas tentativas foram em vão; eu não queria admitir que ela não estava mais ali.

Chorei em seu colo, pedindo para me ouvir, prometendo ficar quantos dias quisesse, mas ela não me escutava, pois só o seu corpo estava ali. Percebi então que aquele vento na janela tinha sido sua alma entrando no quarto, me convidando para admirar o dia em que partiu e para mostrar seu novo lar, aquele céu límpido, sem nuvens e muito azul. Os pássaros foram buscar sua alma, deixando apenas seu corpo como prova de que ela tinha passado pela terra. Eu estava muito triste com a sua partida, mas por um lado, feliz, por ter conhecido alguém tão especial e bondosa como ela.

6 comentários:

  1. Oie, sou do blog http://deixa-me-ser-entao.blogspot.com/

    ...
    Adorei seu blog, e já me tornei seguidora.
    Beijos, e bom fim de semana. :D

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  2. Que lindo *_*
    Gostei muito do seu texto. Tão verdadeiro e fofo. Novamente nossos textos se cruzam rs. Sei como é isso, as vezes as coisas em casa ficam difíceis e a gente tem que ir conhecer o mundo para viver um pouco de deixar a cabeça esfriar. Muito lindo, está de parabéns
    BEIJOS

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  3. O texto é bonito e convidativo, os olhos deslizam fácil sobre ele, gostei, embora eu tenha muito medo da morte, de morrer, de gente morta e derivados.

    :p

    Um beijo.

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  4. maravilhoso o seu texto , adoro textos e historias desse tipo , sao as que mais envolvem e comovem
    seguindo aqi :*
    http://cafecomversosavulsos.blogspot.com

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  5. Que lindo! Estou emocionada acredita?
    Uma semana cheia de surpresas risonhas pra vc! ♥

    Deixo sorrisos.

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Me incentive um pouco mais.