23 de agosto de 2011

Lembranças de um criado-mudo.

Velharias. Eu costumava guardá-las e não dar a mínima. Deixava nos seus devidos cantos, não mexia por anos e quando inventava de vasculhar essas relíquias, encontrava coisas que me levavam a tempos distantes. Costumo ser uma pessoa organizada, que não guarda besteiras, só coisas úteis. Mas na verdade, eu gosto de guardar lembranças, pois mesmo que não sirva para alguma coisa física, serve para meus pensamentos, para me transportar para tempos passados. Aconteceu que, num dia qualquer, eu resolvi fazer uma arrumação no meu quarto. Tinha tanta coisa que eu não precisaria mais, tanto lixo, tanta sujeira e eu precisava fazer isso.

Fui fazendo por etapas, para não me complicar. Olhei para o criado-mudo, que ficava ao lado da cama. Estava intacto, consequentemente com aparência tão nova, mas o que ali guardava eram coisas que faziam parte de mim e de toda minha vida. Eu não esperava encontrar o que encontrei e fiquei muito surpresa a cada coisa que eu tirava dali.

Como gosto de ordem inversa, comecei pela última gaveta das três que me esperavam. Logo que abri, o cheiro de nostalgia flutuou no ar. Encontrei fotos antigas da família, num grande e pesado álbum, alguns objetos desnecessários que logo pus na sacola de lixo. Parei a arrumação e abri o álbum. Ao ver as primeiras fotos, meus olhos ficaram marejados. Algumas lágrimas caíram, mas enxuguei rapidamente. Passei um bom tempo admirando aquelas fotos e me esqueci que estava ali para organizar e não observar. Limpei então a gaveta, guardei de volta o álbum e fechei, antes que eu atrasasse mais a arrumação. Na segunda gaveta encontrei livros de autores renomados, que eu costumava ler, esmaltes velhos e secos, uma caixinha com brincos e anéis e um óculos. Cada objeto ali me transportava para um dia distante. Os livros me levavam às pessoas que me presentearam e os esmaltes, brincos e anéis e o óculos à ocasiões que os utilizei. Incrível é que a maioria desses objetos me faziam lembrar exatamente os dias antepassados. Desta vez não chorei, sorri com minhas boas lembranças.

A primeira gaveta (a última que abri) tinha cheiro de aconchego e melancolia ao mesmo tempo. Encontrei uma sacola cheia de lenços estampados e listrados, floridos e lisos; uma variedade de lenços. Lenços esses que pertenceram a uma pessoa querida, que sempre morou em meu coração. Retirei a sacola de dentro da gaveta e fui observar. Desta vez não me contive, pois a cada lenço que eu retirava da sacola, lágrimas e mais lágrimas caíam sobre meu rosto. Lembrei de como essa pessoa ficava bela e elegante quando usava aqueles lenços, de como os lenços davam mais graça a sua aparência. Retirei todos, um de cada vez, sempre cheirando e ao mesmo tempo enxugando minhas lágrimas. Olhei dentro da gaveta e ainda restava algo que eu não tinha visto. Era uma agenda anual, daquelas que vem calendário. As páginas estavam coladas umas nas outras, mas com delicadeza consegui descolar. Não tinha anotações importantes, nem pensamentos escritos, mas apenas alguns rabiscos e anotações relevantes. A pessoa, dona da agenda, era a mesma dona dos lenços, o que me fez recordar que eu não tinha nada escrito por ela. Então, retirei as páginas que tinha suas belas letras, que desde sempre admirei. Coloquei a agenda na sacola de lixo e fiquei com as páginas na mão, encantada com o que eu havia encontrado.

Apesar de muito chorar com as lembranças que eu encontrei, eu estava feliz. Sintia-me bem, por ter visto tanta coisa em apenas um dia. Enxergar o passado apenas com objetos é uma forma de lembrar como foi bom ter vivido tais experiências e conhecido tantas pessoas. Eu ria da graça que era fazer uma arrumação e ser presenteada com boas lembranças. Ainda faltava vários outros setores do quarto, mas após eu ter visto tudo aquilo, adiei a arrumação. Queria ficar sozinha, com as minhas lindas e boas lembranças.

12 comentários:

  1. Eu acho importante conservar objetos que nos transportem para o passado, embora a memória seja capaz de fazer isso sozinha. Só que quando a saudade castiga, é bom ter no que tocar, ter o que cheirar. É a materialização da lembrança, é o elo entre o que fomos e o que somos.

    Um beijo, flor.

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  2. É tao bom a gente guardar lembrancas. Eu tb as guardo. Confesso que este ar nostalgico me faz bem.
    Eu, como apaixonada por fotos, guardo muitas fotografias, de todos os momentos... cartas tb. Em um mundo tao "moderno" em q nao se mandam mais cartas e sim emails, e nao se imprimem mais fotos, guardam-se no computador, eu sinto-me privilegiada por guardar minhas lembrancas! Bjs amiga. :)

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  3. Que lindo *_* Escrevi um texto sobre saudade e seu texto me fez lembrá-lo. Vc é incrível, tem a capacidade de fazer a gente se identificar e emocionar com o texto. Beijos

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  4. Oun, minha amiga. Que coisa linda de se ler. Ler tua experiência de sentir as lembranças (boas e emocionantes) numa ação que seria bastante robótica pra outro alguém, como uma arrumadeira paga, por exemplo.

    Ainda bem que existem as arrumações das coisas físicas e, consequentemente, das mentais. Com certeza as lembranças que você vislumbrou ficaram ainda mais marcadas e devidamente arrumadas na tua memória.

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  5. Que conto mais lindo! E tocante! Awm, amei. Sou exatamente assim, hahaha. Começo uma arrumação e praticamente levo o dia todo de tanto que paro no meio pra admirar o passado esquecido. É tão bom, né?!

    Adorei, Laura! Beijos.

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  6. Lembranças... Ficam guardadas nas gavetas da mente e quando resolvemos remexer nelas, as memórias aparecem mais nítidas do que qualquer coisa!
    Beijos

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  7. O tempo passa e a única coisa que nos resta são as lembranças que devem ficra guardadinhas nos nosso s2

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  8. Um dia cheio de sorrisos largos pra vc amiga!

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  9. Lindo seu post!
    www.aurevoirsaudade.blogspot.com

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  10. já fui de guardar lembrança, papeis, objetos, hoje guardo tudo na memória...

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  11. Lembranças... É sempre bom ter algo guardado, não é?
    Mesmo que guardemos-nas na memória, não sentimos o prazer de tocar em algo e lembramos do passado... :)
    Adorei como escreveu!

    Beijinhos, :*
    www.primeiro-livro.com

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