21 de outubro de 2010

O teste - 7º capítulo: Libertação.

E o norte, onde se encontra? Ele não sabia. Perdeu aquilo que ele mais almejava naquele quarto. Sentiu sua mão formigar, caçando algo que pudesse servir de lápis ou caneta. Olhou para o teto, com a esperança que fosse de gesso, mas era de laje. Entristeceu-se ainda mais. Aquele homem que nunca chorava, encontrou ali sua resposta: era preciso estar trancado para poder sentir o que é chorar. Desabou suas lágrimas no chão, fazendo ali um córrego lacrimal. Pensou em outras possibilidades para poder escrever. Lembrou-se do Marquês, que usou suas próprias fezes para escrever suas perversões. Ah, disso ele não seria capaz. Poderia haver outra saída ou realmente não tinha saída.

O que poderia fazer? Não lembrava mais de nada, do que fazia antes de entrar no Sunshine Room e isso o colocava ainda mais para baixo. Tocou em seu rosto para tentar imaginar sua fisionomia e sentiu sua barba furar. Estava grande, ele notou. Foi apalpando o resto. Seu nariz era pontiagudo, tinha cílios grandes, a testa um pouco enrugada. Não era velho, ele sentia isso, mas o que sentiu em suas mãos afirmava o contrário.

As comidas chegavam pelo tal quadrado oco, mas ele não tinha fome. Só pensava em sua melancólica situação e em seu diário. Andava de um lado para o outro, tentando descobri algo para fazer, mas era difícil. Tentou dormir, mas seus olhos não fechavam de maneira nenhuma. Novas comidas chegaram e assim foi se acumulando por um bom tempo. Quando ele realmente sentiu que precisa comer, viu que os pratos estavam praticamente empilhados e jogados. Algumas comidas pareciam podres, então pegou o último prato, que parecia ser o mais recente.

Ninguém pode dizer mais do que ele o quanto foi torturante passar esse tempo todo sem algo que lhe desse apoio. A sua rotina, depois que diário foi tirado de sua posse, era beliscar a comida, tomar um banho demorado e dormir. Às vezes brincava de arrancar o cabelo com a raiz e fazia uma tufa com os que havia tirado.

Certa vez, depois de um logo sono, foi checar o quadrado oco e lá tinha um espelho e uma sacola. Primeiramente, ele pegou o espelho e levou até a altura do rosto. Uma crise existencial se apossou naquele momento: quem era aquele cara de olhos negros, barba gigante e nariz pontiagudo? Deixou de lado as perguntas e abriu a sacola. Dentro tinha roupas novas e um barbeador. Pegou aquilo tudo e levou ao banheiro. Ao sair, era outra pessoa. Estava vestido com uma calça azul clara e camisa listrada e sua aparência era jovial.

Quando pôs os pés para fora do banheiro, se deparou com a porta aberta, aquela que nunca se abria e que ele tanto gritou para ser tirado dali. Hesitou bastante antes de ter a coragem de chegar ali perto. Ao passar pela porta, se viu num corredor que dava direto para uma cozinha vazia. Percebeu que aquilo era um apartamento e andou em volta procurando a saída. Ao chegar a porta de entrada e saída daquele apartamento, viu um embrulho amarelo no chão, com um envelope preto em cima. Ficou mais curioso com o envelope que pelo embrulho.

“Parabéns! Você finalmente passou no teste. Espero que tenha gostado da nossa lembrança. Vá em paz.” Não tinha assinaturas como os outros cartões. Ao abrir o embrulho, se deparou com um livro com uma capa amarela e ao fundo, um pouco embaçado, um homem sentado numa cadeira, escrevendo em um caderno. Folheou as primeiras páginas e sentiu algo familiar: aquelas palavras eram dele. Olhou novamente a capa e viu o nome de três autores.

Foi aí que toda a sua memória voltou. Lembrava-se quem era e o quanto tinha sofrido naquele quarto. Percebeu que foi usado para que essas pessoas pudessem escrever um livro e se sentiu amargurado. Deve ódio de si mesmo, por ter escrito tudo aquilo e entregar de mão beijada o mérito para três criaturas. Sabia que não conseguiria provar que aquilo era obra sua e que não adiantava correr atrás dessas criaturas, pois não precisa de provas que elas eram poderosas.

Não conseguiria viver no mundo externo com isso. Imaginou as pessoas lendo o seu livro, gratificando outras pessoas, que não a ele. Seria o maior Best-seller do mundo, com certeza. Caminhou lentamente até a varanda e viu, pendurado na parede, um calendário, com várias anotações. O dia que estava ali marcado, refletiu ele, era a data do seu aniversário de trinta e cinco anos. Folheou o calendário, com todas as anotações, até achar o dia em que chegou ali: exatamente um ano. Se via amargurado e então decidiu o que fazer. Subiu no parapeito da varanda e se jogou do trigésimo quinto andar.

THE END


É tão ruim ter que acabar com uma história. E aí está o final. Espero não ter decepcionado as expectativas. Acho que só assim ele teria sua salvação. Obrigada por todos os comentários. Foi o que mais me deu coragem de continuar escrevendo. Beijos, leitores.

14 comentários:

  1. Ameeeeeei! O final, o enredo, tudo. Parabéns. Eu imaginei qualquer final menos este. Ficou bom de verdade. E percebi, também, que este capítulo você escreveu com mais facilidade, né? Dá pra sentir quando, ao escrever, o autor está tenso. E aí você está tão... natural. Gostei muito.

    Parabéns. E espero a próxima série, espero que esteja nos seus planos! :)

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  2. Ai que caras safados! Trancam o coitado num quarto e ainda lançam o livro dele como se tivesse sido escrito por eles. Imagino como o homem deve ter se sentido perturbado depois de tudo o que passou, por isso essa atitude final dele.
    Eu não conseguia imaginar um final feliz para essa história mesmo huahua, mas adorei mesmo esse final :)
    Parabéns pela série ^^, espero que você escreva outras.
    Beijo :*

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  3. Nossa. final surpreendente! adorei, claro foi trágico e triste porém espetacular.. XD
    Adorei a série parabéns! mto bom!! :D:D:D:D
    e estou esperando por outras! *---*
    Bjosss.

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  4. nossa, supreendeu ! nossa uaaau !
    parabeens e sucesso !
    beijao

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  5. Amei, o final é inusitado e bem interessante. Parabéns!

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  6. Realmente o final é surpriendente mesmoooo!
    Mais a história é incrível..Parabéns!
    Beijos
    Bom fim de semana!

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  7. É Laura, você sabe bem como leva uma história e também como finalizá-la com grande estilo, proporcionando incríveis sensações a quem lê.

    Gostei demais de toda a história, cada capítulo me atraiu na sua maneira de ser e eu fui completamente tocada pelas suas linhas.

    às vezes, em muitos momentos nós somos a cobaia da vida, dia a dia tecemos coisas que nem sempre geram para nós aquilo que seria o correto o justo e vamos vivendo de injustiça a injustiça, trabalhando e fazendo isso e aquilo para beneficios de pessoas que muitas vezes nem pagam nossos salários e pior do que isso, não reconhecem a nossa importância pro funcionamento do mundo.

    Bastante intenso seu conto.

    Beijos Laura.

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  8. Oi linda, dizer que adorei. Também não gosto de terminar uma historia, mas é sempre mto bom ver o final. Conto excelente e final surpreendente.

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  9. Muito bom! O seu final, na minha opinião, foi o que melhor se encaixou com toda a história, independente de não ter sido feliz. Não necessariamente as melhores histórias são feitas de finais felizes, estes, às vezes, até estragam.
    Muito bom mesmo! Espero que escreva mais histórias como essa. =)

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  10. Foi simplesmente perfeito. *.* Simples assim chérrie. aaaaain que saudades!

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  11. Bem, o primeiro pensamento que me ocorre é: farão os pseudoautores uma nova edição do livro, incluindo este novo final?! Pois, para as mentes deles, isso seria uma suave tentação... Mas também pensei: o que a amargura nos faz cometer! Pois esse infeliz tinha feito a barba e se vestido de novo (dois atos de significado psicológico claro: ao barbear-se, “despiu-se” daquele eu indesejável, depois despiu-se de roupas de sofrimento, e experimentou o doce prazer de revestir-se). Ele tinha trinta e cinco anos e foi posto em liberdade. Estava bem mais livre que nós todos que o acompanhamos, pois a liberdade é tanto maior quanto mais a desejamos, quanto mais presos tenhamos estado ou quanto mais esses dois fatores se somem! Nós nos sentirmos presos com ele por alguns instantes não é um milésimo de ele se sentir livre como somos. Mas agora, a angústia de um ano perdido, contra a possibilidade de outros trinta e cinco ganhos por viver, fala mais alto que sua curiosidade por ver os seus, mais alto que sua sede de justiça ou de vingança; fala mais alto que amores por ventura deixados, fala mais alto que a paisagem de uma varanda no trigésimo quinto andar pode falar, fala mais alto que o azul do céu... E por uma angústia tão poderosa e tão inimaginável, ele salta! Não de alegria, mas para a morte – a não ser que salte da varanda do 35º e caia na varanda do 32º ou 31º (um fenômeno possível, pois o prédio atrai o corpo tanto quanto o solo...). Confesso, nisso vai um pouco de Física mas vai muito mais a lei de um eterno sonhador de finais felizes...
    Aqui vem nossa simbolista e dá os 35 anos de aniversário como o par para o 35º andar do prédio, de onde ele salta! Não sabemos se o dia fosse 3 de maio... 35 não é primo, não é perfeito, não é mencionado senão em forma decimal (3,5) na Bíblia, e não há outra referência dele senão como a idade em que a mulher passa a amar o nº 34 e odiar o 36...
    Entro na fila da expectativa generalizada para ler o próximo conto! Escritora, mãos à obra! Amamos essa.
    Um abraço carinhoso
    Lello

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  12. To sem muitas palavras para comentar. Estou bastante surpresa, achei a maior sacanagem o que esses caras fizeram. Mas se matar? Depois de viver um ano preso?! Talvez, essa seja uma das razões que o levou a pular.
    Adorei, e estou ansiosa por mais de seus contos mirabolantes!
    Beijo.

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  13. OmG! Laura, você matou ele O.O Nossa, muito boooooooa a história. Adorei mesmo, e fiquei morrendo de pena do coitado. Depois de ter ficado trancado um ano inteiro lá, os caras sacaneiam ele assim. Que horror. Adorei ^^

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  14. Precisei vir ler esse final. Meu, que demais!
    Continue escrevendo mais desses, que deixa a gente intrigado pra saber o final, eu amei.
    Uma reflexão e tanto sobre a vida.

    um beijo!

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