10 de outubro de 2010

O teste - 5º capítulo: O tempo e a escrita.

Um bom tempo passou e ele nem ao menos notou. Dias, meses, anos; era impossível saber. Não poderia dizer que não via a cor do sol, por que o quarto já lhe mostrava. Mas era como se ali o tempo parasse. Todo dia era dia, como no Pólo Norte. Era algo que o confortava. A iluminação, o sol, mesmo artificial, dava-lhe esperanças.

Nesse tempo, em que o tempo era apenas abstrato, sua escrita se aperfeiçoou. Aquele caderno tornou-se mais que um diário, era o seu companheiro naquele infindável quarto. Escrever se tornou sua válvula de escape. Ele poderia assim, mesmo estando no quarto, sair dele para qualquer outro lugar que desejasse ou a qualquer época. Foi a países diferentes, onde conheceu suas culturas e povos, foi até a pré-história e voltou como num passe de mágica. Com uma imaginação a mil, ele não parava de viajar, literalmente.

Ele já não lembrava qual era seu nome, nem se tinha família, amigos ou amores. Mesmo assim, sem perceber, acrescentava às suas narrações histórias vividas por ele, quando estava no mundo externo, com pessoas que faziam parte do seu ciclo cotidiano. Alegrias, tristezas, felicidades, decepções, sentimentos profundos eram inseridos em seu diário, junto com todas as suas fantasias, é claro.

O mundo externo trazia-lhe novidades. A comida era variável, quase nunca repetitiva. Parecia que comia mais de cinco vezes ao dia, pois a sua distração não o deixava pensar no tempo, se ele existia ou não naquele quarto. Envelopes e mais envelopes pretos passados por debaixo da porta dava ao seu remetente uma alegria contagiante, apesar de que eram os poucos objetos que sentiam o contagio.

Ele fez em sua mesa um santuário para aqueles envelopes. Todos empilhados, na ordem exata de recebimento. Lia todos antes de começar a escrever, pois palavras, que não as dele, o influenciava muito mais. Após ler, colocava de volta, cada qual em seu envelope, apesar de não fazer a mínima diferença.

As folhas de seu diário estavam perto do fim. Cuidadosamente, ele ia diminuindo sua letra, para esvaziar sua mente, que estava cheia de palavras e informações diversas, até que já não tinha onde escrever. Pensou em escrever nos envelopes, mas eram pretos e o cartão de dentro era totalmente preenchido. Ele não tinha alternativas a não ser esperar por mais um contato do mundo externo e esperou dormindo.

Quando acordou do sono mais profundo que teve, a mesa, o caderno, a caneta, o seu santuário não estavam mais lá. As únicas coisas que lhe faziam bem desapareceram.

21 comentários:

  1. Nossa, fiquei com pena dele D:
    Eu não conseguiria passar muito tempo sem escrever não. Por mais que as vezes eu não saiba o que escrever, escrevo qualquer coisa. Apenas o fato de escrever me acalma. Imagina pra ele, nessa situação ;~

    Ah, fico triste por fazer lembrar de coisas tristes, mas fico feliz por ter consigo passar o que queria :)

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  2. Conheci agora o se espaço. <gostei muito deste capítulo do seu conto. Voltarei com mais calma para ler os outros.

    parabéns pela sua escrita!

    beijinho

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  3. Nossa! Que texto maravilhoso e envolvente. Tá de parabéns querida!!!

    Bjos no coração

    Nina

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  4. Laura, Laura que riqueza incrível que eu sempre encontro aqui.
    Perfeito. Mágico. Intenso. Sincero, lindo, lindo, lindo demais.
    Espero ansiosa por mais e só posso agradecer pelo prazer da leitura.

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  5. me ensina a escrever que nem voce ? '-'

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  6. Nuss, adorei. Vim tbm agradecer pelo carinho ao blog, ficar sem escrever éh realmente dificil, mas o mais dificil éh guardar tudo pra si. Voltei a postar, só qe minhas postagens seram bem mais raras agora (sem net) =[
    bejao..

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  7. Sempre é assim.. o que mais gostamos na vida nos é retirado.

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  8. Li todas as partes do conto até agora e estou gostando muito.
    Estou curiosa para saber como irá ser o final :)
    Também fiquei agoniada por ele, trancado nesse quarto ._.
    Já estou seguindo ^^
    Beijo :*

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  9. Estou indo praí depois de amanhã flor! Deixe-me recado ou me adicione no orkut e deixa um scrap privativo com seu telefone pra eu te ligar!
    daí eu te dou o meu também!
    beijinhos!

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  10. Engraçado qu eo texto inspira uma falta de ar. Não sei explicar. Só sei que dá
    (:
    beijos;

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  11. oi adorei seu blog, já te sigo, abraços vc escreve muito

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  12. Que delícia viver unica e exclusivamente para escrever. Deve ser bom, às vezes, não saber de tempo, esquecer tudo o que viveu, amores, amigos, nome, endereço... Deve ser bom recomeçar.

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  13. Ah, sim.
    Modestia a parte, também gostei da ideia xD

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  14. O texto é lindo, expressa a escrita de forma muito bela :)
    'Escrever se tornou sua válvula de escape.' não só a dele, mas a minha também...

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  15. porque vs arraza sempre ?
    nem preciso falar que ta perfeito né ?
    beijao

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  16. Ei, ei, pessoinha, cadê o próximo capítulo? rsrs
    To amando, nem comentei no capítulo 4, porque tive que vir ler o 5º.
    Parabéns, Laurinha, tá maravilhoso! Você arrasa garota! *-*
    Fiquei com dó dele quando comeu papel, e fiquei mais curiosa ainda com a carta que eles deram em resposta a isso.

    Esperando ansiosa por mais. :D
    Beijão.

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  17. Cada toque com as palavras fizeram deste capítulo o melhor do conto todo. Meus parabéns Laura!

    Quero muito mais! rs
    Um beijo!

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  18. Laura,
    Tomou conta de nosso herói um estranho conformismo, difícil de discutir, porque cada qual terá sua reação particular. Falta-lhe um escape!. É verdade! Alguns têm escape, outros não. Nossa autora vê que a escrita dele melhorou. Terá ela passado por alguma experiência assim sinistra, já que escreve tão bem?! Um dia lhe pergunto...
    Ao nosso herói, esse capítulo prepara o mais cruel dos desconsolos: tudo que tinha, na forma de mesa, cadernos e papéis, são-lhe tirados. Quase levantamos um protesto de leitores aqui: não faça isso com ele! Mas, enfim, se há protesto, os leitores estão envolvidos, presos com esse preso, de quem nem sabemos o nome, e de quem cada leitor já projetou um rosto, na imaginação... São dezenas ou centenas de heróis de rostos diferentes numa só cela de uma só prisão... Os grandes autores conseguem isso de nós!
    Um beijo carinhoso
    Lello

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