11 de setembro de 2010

Uma longa viagem.

Ela está sentada na poltrona de número vinte e dois, ao lado da janela. Pensamentos aleatórios e vazios invadem sua mente. Pensa em tudo o que deixou para trás. “Foi em vão?” ela se pergunta. Não sabe se fez a coisa certa, mas fez com muita determinação. Saudades? Sim, ela sente e vai continuar sentindo.
A comissária no alto-falante diz: "Atenção, passageiros. Partiremos em cinco minutos. Por favor, verifiquem o cinto de segurança. Uma ótima tarde e boa viagem para todos". Ela, desatenta, não ouve a mensagem. Seus olhos estão fixos no nada. Ainda pensa nas coisas que deixou para trás. Rostos familiares aparecem em sua mente, enquanto uma lágrima cai do seu olho direito. Sente-se envergonhada por ter chorado. Ela não estava acostumada com despedidas, não gostava disso, pois era vulnerável demais. Estava indo embora sem se despedir. Não se sentia mal por isso, pois foi melhor assim pra ela e pra todos.
O avião ainda está no solo e por um momento ela pensa em desistir e se levanta, mas logo é impedida pela comissária, que avisa que o avião já está decolando. Ela se senta e coloca o cinto. "A viagem será longa", pensou, pois escolheu o lugar mais longe possível para ninguém achá-la.

O avião decola. Tudo o que antes era visto a olho nu se transformou em pontinhos. Só se vê o céu, azul em seu infinito. Ela cochila, mas logo é despertada por seu vizinho de poltrona. Um senhor lendo um jornal, que não para de se ajeitar em seu lugar.

- Nervoso?

- Um pouco. É que é a primeira vez. Sabe?

- Sei como é.

“A minha também”, disse para si mesma. Mas não era do avião que ela estava falando. Os pensamentos ainda estavam encharcados em sua mente. Nada do que ela fazia para se distrair desviava esses pensamentos. Tenta um diálogo com o senhor, mas ele parece não saber conversar ou está muito vidrado em seu jornal para dar atenção a ela. Pega a revista que estava em sua bagagem de mão e começa a folhear. As mesmas reportagens, mesmas fofocas, mesmas histórias; nada de novo. Por um momento, sente raiva do senhor ao seu lado. Culpa-o mentalmente por acordá-la e não querer conversar, por tirar toda a sua “paz”, mas só depois percebe que essa ansiedade toda é por causa dos seus pensamentos.

Há um tempo, não se imaginava fazendo isso. Sua vida era calma e feliz, ao lado de sua família. Não podia passar um final de semana sem seus familiares, pois a saudade não deixava. Ainda se pergunta como teve coragem para ir embora assim, por que nem ela consegue entender.

O avião entra em turbulência e o senhor segura em sua mão. Ela olha para ele, fazendo um olhar de “está tudo bem”. Ele coloca a mão no coração e ela nota que ele está tremendo.

- A primeira vez sempre nos deixa inquieto. Mas fique tranqüilo, isso geralmente acontece.

- São esses noticiários que me deixam nervoso. Aviões desaparecidos ou acidentes. Eu disse a minha mulher que eu não queria fazer isso, mas ela insistiu e é meu dever de marido. O enterro é pela manhã e eu preciso estar presente.

- Mas por que ela não veio lhe acompanhando?

- Ela, como eu, não gosta de avião, muito menos de enterro. – Outra turbulência acontece e ele novamente segura a mão dela. – Desculpa, ainda estou nervoso com tudo isso.

- Não precisa se desculpar. E eu tenho um ótimo remédio que vai fazer o senhor relaxar.

Após alguns minutos, estavam os dois, com as cabeças encostadas da poltrona, olhos fechados e fones no ouvido, ouvindo música clássica através do ipod dela. Ele relaxou e, por incrível que pareça, ela também. Essa idéia não tinha passado pela cabeça dela. Compartilhar música foi o que a acalmou. Se estivesse ouvindo sozinha ainda estaria inquieta, pois sentia que não era nervosismo que a incomodava.

Ouviram trinta minutos de música. O senhor foi muito agradecido. Estava com um ar de alegria e muito relaxado.

- Muito obrigado, minha filha. Quando você falou em remédio, fiquei com um pouco de medo, pois todo sintoma que um velho tem as pessoas empurram pílulas, achando que adianta alguma coisa. Você me deu o remédio certo e eu queria lhe dar algo em troca.

- Tive uma idéia! O senhor fica com meu ipod e no enterro que precisa ir, coloca essas músicas. Vai se sentir melhor assim. E na volta para casa, poderá escutar também. Assim, não ficará muito nervoso. Se o senhor aceitar, já vai estar me dando algo em troca.

- Mas, moça, eu não sei mexer nisso. É muita tecnológica para uma pessoa como eu.

- Eu ensino e se o senhor se esquecer, com certeza alguém vai poder lhe ajudar. Agora peça a alguém de confiança.

- Não sei nem como agradecer, moça. Você é um anjo.

- Eu que agradeço por ter um senhor carismático ao meu lado e por me dá atenção... No meu último dia.

Pega novamente sua bagagem de mão, mas não para ver a revista. Abre um estojo, apanha uma caixinha branca que está lá dentro e levanta-se para ir ao banheiro. Dá um tchauzinho para o senhor sorridente e quando vira o rosto, lágrimas dos dois olhos caem sobre sua face. Não era assim que ela queria que tudo terminasse. Não cogitou que poderia conhecer alguém de tão boa índole nessa viagem e que pudesse interferir de algum modo em sua decisão.

Ao chegar ao banheiro, olhou-se no espelho e rápido enxugou suas lágrimas. Não gostava de ser assim, vulnerável. Odiava chorar, ainda mais por fazê-lo em seu último dia. A caixinha branca está na sua mão esquerda e ela a abre e despeja todo o conteúdo em sua mão direita. Pílulas brancas, da mesma cor que a caixa. Direciona sua mão direita para a boca e no instante em que se aproxima, ouve batidas na porta. Era a comissária, avisando que o avião estava pousando e que era para voltar para o seu lugar. Ela não responde e, sem hesitar, coloca todas as vinte pílulas em sua boca, bebe um pouco da água da torneira para ajudar na ingestão e engole. Ela se senta no chão do banheiro e sua visão começa a ficar embaçada. Os pensamentos voltam dessa vez com mais vigor. Em seu último momento, lembra como foi feliz ao lado das pessoas que ela ama. Ela ama, nunca deixou de amar e em nenhum momento deixou de pensar nelas, nem agora, em seu último suspiro.

As batidas na porta já não têm o mesmo som. O som parece oco, ao mesmo tempo em que vai diminuindo de intensidade. Sua visão começa a escurecer e, de repente, ela não ouve mais nada, não enxerga mais nada. As únicas batidas que existem são as do seu coração, que, aos poucos, vai reduzindo o ritmo... Até não mais bater.







Desculpem-me a ausência. Estou sem internet em casa há mais de uma semana e isso é um problema. Não vou dizer que nesse tempo eu deixei de usar, mas eu peguei a mania de escrever e ao mesmo tempo navegar. Porém forcei-me a escrever sem internet e consegui finalmente. Sei que está grande, mas...Espero que gostem. (:
Ah, se tiver algum erro, por favor, me avisem. Fiquei com preguiça de revisar. :P

18 comentários:

  1. parece mórbido (talvez seja!) da minha parte, mas eu 'gosto' dessas histórias tristes, sabe?
    fiquei com uma aflição terrível de pensar no que ela podia fazer, mas achei que você descreveu muito bem, de uma forma bem intensa e ao mesmo tempo muito sutil!

    aah, e também queria agradecer pelo 'magnífica escritora', fechou meu dia em grande estilo!

    beeijo

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  2. Ahhhh, por que que ela se matou? :'( Coitadaaaaa
    Lindo como sempre Laura ^^
    Bjs. :*

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  3. Comento enquanto leio “Uma Longa Viagem”: Entendo, pois também não gosto de despedir-me quanto tenho que partir. Um vizinho de poltrona que não sabe conversar é algo difícil em qualquer viajem, pior quando o vizinho é histérico. Bem, eu não imaginava que a viajem pudesse ser tão longa. Tema delicado esse. Também o tratei certa vez em um conto de meu blog “A Solidão Do Ancião”. Parabéns pelo texto! Abraço!

    Se tiver um tempo leia “O Rei Dos Picaretas” no http://jefhcardoso.blogspot.com

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  4. Muito bom. Gostei da hesitação dela por causa de algo tão simples como uma conversa com um estranho.
    Gosto de textos desse tipo, que envolvem sentimentos negativos. É mais fácil se identificar com dores do que com alegrias alheias.

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  5. ahhhahhhhhhhhhhhhhh me deu preguiça agora de ler. mas volto para ler tudo, juro!

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  6. Nossa, me identifiquei mto com o texto... Tá perfeito. E quanto a ficar sem net, éh horrivel, e meu pc vive dando problema. Beijos...

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  7. Lindo, lindo!
    adorei aqui, vou passar mais vezes!
    estou seguindo

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  8. Amei seu texto, principalmente essa parte: O som parece oco, ao mesmo tempo em que vai diminuindo de intensidade.

    As coisas para mim também estão perdendo a intensidade.

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  9. Ficou bom moça. =)
    Mas que triste...=/

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  10. putz grilla... ficar sem internet é horrível :S
    mas ainda bem que voltou :D

    HSAHDSAUHSUA
    bom, a metáfora pode até ser barata,
    mas o valor é sem medidas ^^

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  11. ela morre no final nao gostei disso =/
    mas o jeito que vs descreve fooi lindo !
    sempre sempre !

    beijao

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  12. Pena que por alguma razão eu li de baixo pra cima. Mas ficou bacana.
    No passado eu tinha escrito um conto que era mais ou menos parecido com esse.
    Um beijo

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  13. Laaaura! Menina, pois estão somos duas que somem! rs. Mas comigo foi o ofício do trabalho que exigiu um tempinho, rs.
    O conto, Laura, ficou liiiindo! Triste, sim. Mas de uma forma linda e clara. Mal notei o tamanho do texto, de tão delicioso que se é de ler! E amei o fato dela ter musica clássica no ipod! Hoje em dia só se escuta funkão! hahahah. Parabéns, como sempre!
    Beijos <3
    Saudades, Isa.

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  14. então* Aff, desculpa. Ficar mexendo no blog no trabalho, meio escondidinho, dá nisso. hahahah

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  15. Uma dúvida lateja na minha mente: Por quê? Se ela amava a família e tal... Ain, tão triste! Mas sabe, acho que essa incógnita é o que da o toque no texto. Muito bem escrito, delicioso de se ler... Nem me importei com o tamanho, eu gosto! ^^
    Parabéns, flor...você é ótima! ;*

    Ah, e concordo com a Isa:
    "E amei o fato dela ter musica clássica no ipod! Hoje em dia só se escuta funkão!"

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  16. Laura Laura, tenho uma coisa pra te confessar - o seu blog com novo visual é um dos poucos que eu tenho paciência e prazer de ler, porque esse fundo preto me faz mal pros olhos...

    rsrs

    Está incrível, muito bem escrito, envolvente e intenso. Vai levando a gente de um jeito bom e intraduzível.

    Beijos

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Me incentive um pouco mais.