26 de setembro de 2010

Senhorinha.

Dia de Domingo tem almoço aqui em casa. É sempre uma festa. Vêm meus filhos, netos, bisnetos e os intrusos. Sim, os intrusos. São eles: genros, noras, namorados dos meus netos e por aí vai. Eles chegam na maior cara de pau, elogiam tudo, vão embora de bucho cheio e sei que depois que saem daqui soltam um "Que velha chata!" Eles que não queiram me enganar, pois sei que são assim. Não digo de todos, os namoradinhos dos meus netos não são assim, pelo menos é o que eu acho. Mas genros e noras são o cúmulo da minha vida. Eles chegam sorridentes, mas falam pelos cotovelos sobre mim. Eles não merecem ter uma sogra feito eu: digna de uma boa conduta, alegre, educada e extremamente fina. Sim, pode não parecer, mas sou isso tudo o que eu falei, modéstia a parte.

Eu gosto muito do Domingo, sabe? Tem gente que não, mas eu sim. Eles (meus amores) sempre vêm para cá, nunca me abandonam. É por isso que eu aturo esses intrusos, pois sem eles, os meus filhos e netos não viriam.

A gente quando é velho tem que aturar certas coisas. Alguns dizem que é difícil de aturar velhos, pois não sabem fazer as coisas sozinhos ou só reclamam. Eu sou uma velha reclamona, posso afirmar. Mas quem não é quando se trata de zelo a suas coisas? Reclamo muito por que tenho esse direito, por que senão, eu jamais faria isso. Porém, eu só reclamo com os mais velhos, por serem tolos, pau mandados e brigões. Tolos e pau mandados por que seus cônjuges fazem o que querem. Fico indignada com Rosa, minha filha mais velha. O marido não a deixa ir ao cinema com as amigas, pois pensa que entre as amigas pode haver um homem. Ele é um homem muito ciumento. Tenho medo que um dia ele chegue a bater nela. Eu já tentei conversar com ela sobre isso, mas ela sempre desconversa. Não sei o que fazer nessas horas, eu apenas tento ajudar. Poucos aceitam a ajuda de uma velha, mesmo sendo da própria família. Estou velha, mas tenho saúde e ando com minhas pernas e faço o que tenho que fazer com meus braços. Não sou nenhuma deficiente. Além do mais, eu tenho uma cabeça que funciona como sempre funcionou. Meus filhos dizem que eu ando esquecendo algumas coisas, mas isso não é bem verdade. Eu sempre tive memória fraca, mas por que é que eu vou lembrar-me de coisas supérfluas, como o dia em que eu levei o cachorro no veterinário? Tudo bem que eu deveria anotar, mas não faço questão.

Tolos, pau mandados e brigões. Brigões, sim. Eu nunca vi irmãos brigarem tanto. Quando eu os criei, se um viesse xingar ou bater no outro, passavam dois ou três dias de castigo. Assim eles aprenderam, mas só até morarem comigo. Depois disso, esqueceram a boa educação que eu lhes dei. Ficam sem se falar durante uma ou duas semanas, até deixam de vir aqui, pois não querem se encontrar. Isso são as brigas que chegam até mim, pois devem ter outras que passaram e eu nem sequer soube. Claro, eles dizem que querem me poupar, não me deixar estressada. Mesmo assim, eu fico mais estressada por não saber. Eu gosto de ver união na minha família e não fingimento.

Mas continuando, eu mesmo só reclamo com os adultos, no caso, meus filhos. Não falo dessas coisas com genros e noras, não. Não confio muito e sei que não adiantaria de nada falar com eles. Não reclamo com as crianças, que são meus netos queridos. Alguns não tão crianças assim, mas sempre serão meus bebês. Eles podem bagunçar tudo, falar algo, fazer o que quiserem, eu deixo minhas portas abertas para eles. É só falar com meu jeitinho de avó carinhosa que eles me atendem e fazem o que eu peço. Eu peço, não mando. Não sou autoritária, pelo menos não com eles. Gosto do carinho e do amor que eles me dão, pois sei que são verdadeiros. Quando chegam aqui, todos fazem uma fila para me abraçar. Às vezes tem briga para quem fica em primeiro na fila, mas eu digo que tem para todos e eles se comportam. Mas tem um especial, Daniel, o meu neto mais novo. Ele sempre fica por último, pois não consegue chegar a tempo, mas o seu abraço é o mais demorado, o mais carinhoso e o mais gostoso. Não digo isso aos outros, pois morrerão de ciúmes e brigarão por ficar no último lugar da fila. Aos poucos, Daniel foi gostando de ficar por último, pois não tinha ninguém atrás dele para apressá-lo. É o mais gentil e mais comportado de todos.

Eu gosto de estar junto deles, pois são tudo o que tenho em minha vida. Se não fosse por eles, não sei o que seria de mim. Eu viveria solitária até que a morte chegasse para me buscar, pois ela já levou o meu velho. Quando ele se foi, tive total apoio dos meus filhos e netos. Foi mais difícil para mim que para eles por que ele estava na minha vida desde os meus quinze anos de idade e foi como se uma faca ficasse cravada no meu coração. Mas, aos poucos, eu fui me conformando, pois sei que isso acontece com todo mundo.

Ah, o Domingo. Tão calmo, sem agitação, sem muitos carros na avenida, comércios fechados... É nostálgico, mas me dá uma ótima sensação. E o melhor é que eu não toco o dedo mindinho do pé na cozinha, por que minhas filhas ficam encarregadas disso. E estou sentindo um ótimo cheiro. Já são meio-dia, a hora do almoço. A hora de ir para mesa, se deliciar e aproveitar as companhias maravilhosas. Digo, algumas companhias maravilhosas. Bom apetite!



Nem gostei dessa, mas estava há um tempo incompleta e decidi me livrar.

6 comentários:

  1. Oi linda amei seu blog ta lindo já estou seguindo viu, já te adicionei ate nos meus favoritos, faz uma visitinha no meu acho que vc vai gostar todo dia tem novidade ai se você gostar me segue também ta, beijão simara te aguardo lá .
    http://plantaodabeleza.blogspot.com/

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  2. eu gostei :) me fez pensar na minha vozinha linda *-* a mulher mais carinhosa do mundo e que mais me mima :p também tenho um monte de textos incompletos mas tinha esquecido deles ;? :*

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  3. Eu gostei. É diferente dos outros textos seus que eu li, mas é bom também :)
    E avós são mesmo sempre legais com os netos, independente do que eles fazem x)

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  4. O domingo é um cachorro escondido debaixo da cama

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  5. Sinceramente não me pareceu nada ruim. Eu gostei. Principalmente do jeito detalhadinho que foi descrevendo e 'velho' tem disso mesmo, ir e vir por uma vida pra contar qualquer coisinha pequena.

    Beijos

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  6. Por que não gostou Laura? Eu achei tão divertida... rsrs Bem coisa de avó, mesmo!
    Adorei!

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Me incentive um pouco mais.