10 de agosto de 2010

Noite na baía.

Estava frio naquele dia. Ainda lembro detalhes do que se passou. Estávamos eu e Théo no barco dele, no meio da baía, à deriva. A noite estava muito estrelada e um tanto calma. Poucos barcos repousavam por ali, mas estavam distantes. O barco de Théo era o único que estava isolado de todos os outros. Estávamos ali para passar o tempo, conversar e relaxar, não éramos pescadores.


Théo e eu nos conhecemos desde pequenos. Nossas famílias eram amigas e crescemos juntos, saboreando essa união e construindo a nossa. Não havia diferença na idade, eu era mais velha que ele dez dias. Eu tinha orgulho de ter um libriano como melhor amigo. Apesar de poucos acreditarem, nós não tínhamos nenhum relacionamento. Não posso negar que algumas vezes nos beijamos, ficamos, mas nada mais que isso. Sabíamos que nossa amizade era sagrada e preferíamos deixá-la assim.


Nós nos amamos como amigos, como irmãos. Eu sempre acompanhei suas crises e ele as minhas. Contávamos tudo, entre nós não havia segredo. Eu me orgulhava por ter construído uma amizade assim. Praticamente um irmão de sangue.


Théo notou que eu estava com frio e me deu o casaco dele. Parecia um sobretudo no meu minúsculo corpo. Ele não se importava com o frio, ficava mais tranqüilo quando eu estivesse confortável. Levei meu notebook para aquela noite com minhas caixinhas de som e só me lembrei muito tempo depois. Fui até lá e coloquei Jack Johnson para tocar. Nós adorávamos escutar Jack Johnson num momento daqueles. Noite estrelada, calmaria, tempo frio e gostoso e um som ambiente.


Théo pegou o seu livro predileto para ler pela milésima vez: Orgulho e Preconceito. Uma vez, praticamente me implorou para ler e para debater com ele. Foi o que eu fiz. Falava que adorava Mr. Darcy com todo orgulho. Eu sempre ria disso.


Fiz o mesmo que Théo e fui também pegar um livro. Aquela noite estava propícia para uma boa leitura. Peguei O morro dos ventos uivantes, também indicação de Théo. Ele sempre leu bons livros e o que ele mais gostava, me indicava. Eu não era muito de ler, mas ele me estimulava e sempre gostava de suas indicações. Eu não era lá uma devoradora de livros como ele, mas achava prazeroso sentar em um lugar calmo e ler um bom livro.


Sentamos-nos na beirada do barco, apoiamos os pés num banquinho apropriado para isso. Liguei o refletor e girei em nossa direção. Ao som de Jack Johnson, líamos. Às vezes parávamos para comentar um acontecimento do livro e acabávamos por dar uma longa pausa no livro para deixar a conversa fluir.


Théo meio que se revoltou e fechou seu livro. Não entendi por que ele havia feito aquilo. De repente, enquanto eu ainda estava sentada e lendo, Théo colocou uma música dançante, tipo Dirty Dance, aumentou o volume e me puxou pela mão. Não deu tempo de pensar e nem de colocar o livro na cadeira. Dançamos loucamente, pois sabíamos os passos. Fazia anos que nós não dançávamos aquela música. Lembro-me quando ele me mostrou um tutorial e eu fui a sua acompanhante. Aprendemos fácil, fácil.


Gargalhamos até cair no chão, depois de tanto dançar. Alguns dos barcos iluminavam de longe o barco de Théo para ver o havia ali. Continuávamos agachados para ninguém nos ver.


O céu foi clareando aos poucos e nos demos conta de quanto tempo ficamos ali, conversando, ouvindo música, lendo e dançando. Estávamos ficando com sono e Théo ofereceu sua cama para mim. Pegou dois edredons, forrou o chão e lá ele repousou. Eu não fazia questão em dormir na mesma cama que ele, mas Théo era respeitoso demais para concordar com aquilo.


Acordamos. O sol já estava alto e já havia o dobro de barcos na baía. Precisávamos sair dali, pois aquele horário era só autorizado para os pescadores cadastrados. Théo colocou o seu barco no porto e deixou com o vigia. Pegou sua moto que estava estacionada ali por perto, num local proibido (ele adorava arriscar) e foi me deixar em casa.


Quando eu estava na porta de casa, ele me deu um abraço forte, como nunca havia dado na sua vida. Eu retribuir, mas com um pouco de estranheza. Entrei em casa, dei boa tarde para a família e fui para o meu quarto dormir mais um pouco. Acordei e já era noite. Notei um cartão azul na minha cabeceira, com o título “Para Lilian”. Reconheci a letra, era de Théo.


"Não te contei, pois sabia que você iria sofrer e eu não queria isso. Eu sempre fui sincero com você, mas dessa vez tive que te poupar disso, Lilian. Vou passar um ano fora, vou fazer intercâmbio no exterior. Sei que você vai torcer muito por mim e eu toda semana lhe enviarei postais, para matar um pouco a saudade. Despedidas são difíceis, você sabe disso tanto quanto eu. Me segurei para não te dizer isso ontem à noite. Queria que tudo fosse perfeito como foi. Eu volto, Lilian, daqui a um ano, com novidades e presentes para você, mas nós vamos nos falar por telefone e pela internet. Meu vôo está saindo às oito horas da noite e sei que nessa hora você estará lendo isso. Me desculpa por fazer isso, pois eu sei que se você estivesse lá na minha hora de partir, eu ficaria. Eu amo você, minha libriana irmã, amiga, companheira.

Com carinho, Théo."


Fiquei sem acreditar no que eu estava lendo. Olhei para o relógio e eram sete horas em ponto. Imaginei que Théo ainda estaria no aeroporto e sai em disparada de casa. Todos lá já sabiam e tentaram me impedir, mas eu não dei ouvido. O aeroporto não ficava longe e o primeiro taxi que passou eu peguei. Eu não sabia para que país Théo estava indo, pois ele não informou no cartão. Cheguei em meia hora no aeroporto. Procurei nos vôos e por sorte só havia um destino para o exterior: França. Eu sempre soube que o sonho de Théo era ir para lá e fazer um intercâmbio, só que no meio do nervosismo, acabei me esquecendo. Procurei em várias portas de embarque e nada dele, quando eu vejo um garoto alto, com um “casaco-sobretudo”, cabelos bagunçados, cigarro na mão esquerda empurrando o carrinho das malas com a direita, sem ninguém ao lado. Grito:


- Théo!


Ele se vira com uma surpresa estampada em seu rosto. Corro até lá e o abraço forte como ele me abraçou naquela tarde.


- Despedidas são difíceis. Eu sei e você sabe. Mas você não poderia ir embora sem que eu lhe desse boa sorte, não é senhor Teimoso? – Ele sorriu com minhas palavras ao mesmo tempo em que lágrimas caíram de seus olhos. Dos meus olhos também caíram algumas, mas eu fui logo enxugando para ele não ficar preocupado. – Vá, Théo! Eu quero mil postais e mil presentes, viu?


Ele me abraçou mais uma vez, me deu um beijo bem forte na minha testa e disse sussurrando em meu ouvido: “Eu te amo, Lili”. Respondi da mesma forma. Eu o vi pela última vez, de costas, entrando pela porta.



Postagem para A Sílaba Tônica. Imagem com frase – 10ª edição.





Sei que na foto, a pessoa de costas é provavelmente um garoto, mas eu
preferi usar uma garota, pois se encaixava mais na história.

10 comentários:

  1. Que lindooooooo esse texto Laura (:
    Adorei o Théo, quero casas com ele õ/
    :P
    E coitada da Lili :/
    Adorei mesmo \õ/ Parabéns ^^

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  2. aaahh
    que texto emocionante!!!!
    :D
    beijinss

    http://zonzobulando.blogspot.com/

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  3. Que lindo esse texto !
    Confesso que me emocionei, despedidas são dificies, e me fez lembrar de alguns momentos :*
    Théo perfeitão *O* kkkkkkkkkkkkkk Belo Post !
    beijinhos linda :*

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  4. AWWWWWWM Laura! Que texto lindo *-* Adoreeei! Tomara que ganhe, boa sorte! Ah, e o rapaz da foto que seria o Théo dos sonhos de qualquer uma (rs) é o Louis Garrel, ator francês, lindo lindo lindo de morrer! E, confessando, na minha cabeça ele é o Edward Cullen em pessoa conoforme imaginei lendo o livro. rs. Nadav, mas tinha que comentar hahahah.
    Beijos Laura <3

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  5. aahh
    brigadaaa

    eheh
    bjins
    http://zonzobulando.blogspot.com

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  6. Gostei da historia, uma coisa que pode aconteçer, nos sempre temos nossos amigos, que sempre serão nossos irmãos.. fazia tempo que naum entrava na net e tava cm saudades de sua historias..
    bjin

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  7. Bom, despedidas já são tristes por si só. Pior ainda é quando acontece entre pessoas que se conhecem, tipo, desde sempre.

    Putz, conto legal. Queria conseguir escrever um mais comprido do que os que eu costumo ^^'

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  8. Como é lindo!
    vc faz com que agente se prenda no texto e sonhe com um final. Amei seu blog..seguirei

    http://magdaescreve.blogspot.com/ o meu ;D

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  9. Que histórias maravilhos. Bjs

    http://coposcheiosdevodkaerocknroll.blogspot.com/

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  10. Bonito o texto :)
    Você assistiu Os Sonhadores ou o nome Theo pro Louis Garrel foi só uma bizarra coincidência? :D

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