20 de agosto de 2010

Ausência de sensações.


Estou no meu apartamento, o único prédio de três andares da rua. Os outros prédios são tão grandes que o meu parece mais uma pequena formiga ao lado deles. A persiana da janela do meu quarto está entreaberta e a luz do poste incide diretamente nela, dando ao meu quarto uma iluminação tênue. Ao longe, ouço sirenes de polícias junto com ambulâncias. Já estou acostumada a ouvir coisas assim, num bairro nobre como esse.

É madrugada, mas não sei a hora exata. Levanto-me para preparar um café, pois é isso que meu paladar pede. Não ligo luz alguma, os postes da rua já iluminam aqui direto. Acendo uma vela ao chegar à cozinha e preparo o café. O fogão ajuda um pouco na iluminação e eu apago a vela com um simples sopro. Abro a geladeira e me deparo com a escassez que tomou conta daquelas prateleiras. Não há nada pronto, então decido fiscalizar a dispensa. Encontro um cereal do mês passado, velho e mole, mas é o que eu tenho no momento. Procuro um prato e jogo o que resta do cereal ali mesmo. Como puro, sem leite, sem nada.

Vou até a varanda com meu café e meu cereal para observar o vazio da rua. Não há carros, pessoas, nem animais por ali. Sento-me na cadeira para sentir um pouco da brisa da madrugada. Ouço um barulhinho por algum canto, corro meus olhos e vejo uma sombra se mexendo atrás de um carro estacionado, sentado no meio-fio, ali perto. Identifico um homem, um mendigo talvez. Ele remexe um saco preto, provavelmente sua sucata. Fico observando, intrigada com aquilo, me perguntando o que um homem faz a essa hora na rua. De repente ele se levanta do meio-fio e me nota, de alguma forma, como soubesse que tinha alguém o observando. Olha pela segunda vez para ter certeza, mas fico estatelada para ele pensar que é apenas uma visão construída por sombras. Quando ele se senta e volta para sua sacola, vou saindo de fininho, sem movimentos, para ele não me notar. Não gosto de ser notada quando estou a observar. Sinto-me uma bisbilhoteira, como aquelas de filmes.

De volta para a cozinha, coloco as louças que sujei na pia e volto para o meu quarto. Não lavo louça de madrugada, pois a água é fria e muitas vezes tenho preguiça. Assim, deixo as formigas e baratas fazerem a festa. Volto para o meu quarto e vejo o quanto a iluminação é perfeita, com sombras delineadas na parede. Aproveito a luz e pego minha câmera. Deixo-a em cima da cômoda, coloco em automática e vou para perto da janela, aproveitando para ver se o tal homem ainda se encontra com seu saco preto. Não encontro e então decido voltar para a cama. A fotografia saiu como eu esperava.

Sinto que nem tão cedo vou dormir, pois acabei de tomar um café. Não costumo fazer isso, mas decidi pegar um livro qualquer na prateleira do quarto. Há tantos que eu nunca sequer passei os olhos, mas dessa vez algo me impulsionou a ler. Não escolho a dedo, pego o da cor vermelha, minha predileta. Já me falaram do livro e achei bem interessante. Sento-me na poltrona próxima a janela, para poder usar a luz da rua. Leio até o céu riscar cores diversas em sua “superfície”.

Meu sono vai ser longo pela manhã, por isso desligo imediatamente o despertador. Sinto um arrepio com o frio da manhã, corro para debaixo do meu edredom para dormir tranquilamente.

9 comentários:

  1. táás tão lindo florzinha! Estarei aí em recife dia 13 de outubro!

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  2. Acho muito inteligente a forma que vs transforma algumas situaçoes cotidianas, adoro a maaneira que vs faz cm que eu entre no texto, esteje la..
    **

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  3. Já disse que você escreve muito bem?
    Pois é. :)

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  4. Adorei Laura ^^
    "Não gosto de ser notada quando estou a observar. Sinto-me uma bisbilhoteira, como aquelas de filmes."
    Também me sinto assim às vezes :P AOKSAOSK'
    De qualquer forma, achei o texto incrível ^^
    Bjs ;*

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  5. Ahhhhh, que saudade dos teus textos! Sabe que eu sempre os leio, mas me falta tempo (e até mesmo inspiração) para comentar.

    Preciso te parabenizar por um texto, em especial: "Noite na baía". Já o li há alguns dias, e ele até ficou na minha mente, sabe? Quando você lê algum texto ou frase que realmente marca? Pois é.

    Parabéns, Inercya. Ganhaste uma fã! :*

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  6. amei, amei mesmo.
    vou vou voltar mais vezes.
    sucesso.

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  7. Me senti inerte de sensações também. Mas até nisso eu to me contradizendo porque isso ja é uma sensação. Gostei do texto ;*

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  8. claro flor, quando eu chegar em recife a gnt marca de sair por aí! bjo bjo

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Me incentive um pouco mais.