2 de julho de 2010

The little box.




Ela andava triste pela rua, caminhando para casa. O que havia feito não deu certo. Tentou de tudo, mas foi difícil. O curso que tanto queria era caro e não havia bolsas disponíveis para “amadores”. Foi assim que a definiram: Amadora. Sempre quis ser pianista e quase chegou a realizar o seu sonho, mas teve que adiá-lo.


No caminho, ficava imaginando como seria sua vida como pianista. Ir a um concerto onde a estrela principal seria ela. Um palco não muito iluminado, apenas uma luz focada na pianista. Vestido longo e preto, cabelos soltos, mãos delicadas ao tocar cada tecla do piano. A platéia silenciosa, admirando a pianista e a música que chegava aos seus ouvidos. Ouvidos atentos a cada mudança de nota. Uma música erudita, muito bonita, que ela mesma compôs. Sim, ela sonhara assim. Seria uma ótima compositora, chegando aos pés de Mozart, Beethoven... Suas músicas percorreriam o mundo inteiro e emocionariam cada ouvinte. Lágrimas cairiam dos olhos dos ouvintes e os aplausos, de tão intensos, seriam ouvidos a léguas dali.


Levou uma topada em uma pedra e voltou à realidade. Ela tinha sido mesmo cortada do grupo. “Amadora, como eles puderam dizer isso?” Pensava enquanto caminhava. Era uma boa pianista e não tinha nada de amadora. O problema estava nos professores. Ela não era o que procuravam. Ela não se adequava ao perfil que eles queriam. “Nem me ouvir eles quiseram...”. Era o curso mais caro e rígido da cidade. Eles queriam mesmo profissionais. Ela não era. Pelo menos foi isso que eles acharam.


Levou uma topada novamente. “Merda”, ela disse. Dessa vez não era uma pedra, era algo parecido com uma caixa, mas bem pequeno. Era mesmo uma caixa, uma caixinha vermelha. Aparentava ter três centímetros cúbicos. Tentou abrir, mas parecia estar muito bem lacrada. Pensou em jogar o objeto fora, mas a curiosidade foi mais forte. Colocou-a em seu bolso e continuou a caminhar.


Sentiu-se invisível por um momento. As pessoas na rua pareciam não vê-la e, quando se esbarravam nela, não pediam desculpas. Parecia que não existia nesse mundo real, era como um espírito ambulante. Lembrou que fora rejeitada e começou a chorar. As imagens se formaram no ar. O vice-diretor do curso lhe dizendo não. Naquele momento, se sentiu humilhada. Ele a olhara com desprezo, como se ela fosse nada. “Todos levam um não um dia e hoje foi o meu dia de receber isso como resposta”. Tentava se consolar, mas foi em vão. Não conseguiu parar de chorar e de se sentir invisível. A depressão tomou conta da sua mente, do seu corpo, de tudo. Viu que estava na avenida e pensou em se jogar na frente do primeiro carro que aparecesse. Não tinha motivos para fazer isso, mas foi a única solução para o momento. Correu em direção à rua e quando pôs o pé no asfalto, sentiu algo lhe puxando de volta para a calçada. “Nunca mais faça isso”, foi o que ele disse. Um estranho a salvou da morte. Ficou atordoada de emoção e não conseguiu olhar o rosto do estranho, simplesmente desmaiou por alguns minutos. Acordou na calçada, tentando lembrar o que havia acontecido. Sentiu-se estranha e ao mesmo tempo aliviada, mas não sabia por que esses sentimentos lhe cercavam. Arrepiou-se quando lembrou que a morte esteve frente a frente com ela. “Nunca mais faça isso”. A frase ainda ecoava em sua cabeça, mas não conseguia saber quem a pronunciou. Ficou confusa com toda a situação, mas voltou a caminhar.


Agora era mais estranho ainda. Por onde andava, todos a olhavam. Pensou que tinha algo de errado com sua aparência, mas estava como antes. De repente começou a chover e todos correram para se abrigar. Ela não. Sentiu as gotas chocarem contra o seu corpo. Sentiu-se viva, mais do que nunca. Eram tantos sentimentos que explodiam em seu peito naquele momento, que não saberia dizer se estava triste ou feliz. Parecia a ela que aquele estranho não somente a salvara como lhe devolvera a vida, de alguma forma.


Estava chegando perto de casa quando seu celular tocou. Era o diretor do curso, se desculpando pelo seu vice ter sido indelicado com ela. Disse que ela teria uma nova chance e que, se ela quisesse, fosse lá o mais rápido possível. Saiu correndo de volta para o curso. Ao passar pela avenida em que quase dera fim a sua vida, viu o estranho e agora estava começando a se lembrar. Ele chegou perto e disse: “Eu sabia que a sua vida ainda tinha muitas surpresas reservadas...” e foi embora. Ela tentou seguí-lo, mas ao virar a esquina, simplesmente desapareceu. Não podia perder tempo, pois o diretor, pessoalmente, esperava para vê-la tocar.


Em dez minutos ela já estava no curso, que na verdade era um conservatório. O diretor veio recebê-la com muita cordialidade. Levou-a direto para o melhor piano que tinha por lá: o piano de calda. Enquanto ela tocava, dos olhos do diretor vertiam-se lágrimas. Parecia que ela tinha lido sua mente e escolhido aquela música especial que sempre o emocionou.


O diretor a aprovou e disse que a bolsa seria dela. Ela estava tão emocionada quanto ele e deu-lhe um abraço forte e um beijo na bochecha. Ele não estava acostumado a isso, mas retribuiu-lhe da mesma forma. Na semana seguinte ela teria a sua primeira aula. Ela já sabia muita coisa, mas teria que acompanhar tudo novamente, afinal era uma bolsa e ela não podia recusar. Mas era para ela um prazer “aprender” tudo novamente.


Saiu de lá sorridente, saltitante. De repente, algo de seu bolso caiu no chão. Era a caixinha vermelha que ela havia guardado. A caixinha abriu com o impacto contra o chão e parecia haver um papelzinho com algo escrito ali.


Ela pegou o papelzinho e leu:


“A caixinha lhe proporcionou algo extraordinário. Repasse-a para que outros tenham a mesma alegria que você.”


Não entendeu, mas fechou a caixinha com o papelzinho dentro. Tentou abri, jogou no chão, mas não conseguiu. Deixou a caixinha onde encontrou e continuou a caminhar feliz da vida. Ao passar pela avenida, o estranho estava encostado em um poste, sorriu e acenou para ela. Ela tentou retribuir, mas ele havia sumido por trás do poste.


Aquele dia poderia ser o pior da sua vida e da vida de muitos, mas não foi. Pelo contrário, foi o melhor dia. Seu sonho estava se concretizando e ela não tinha notado a caixinha havia feito isso para ela.

6 comentários:

  1. Bem, nesta alegoria imagino que a caixinha que devemos cuidar com todo esmero e carinho é a tal caixinha dos sonhos, pois sem ela não acontecem as realizações.

    Abraço do Jefhcardoso do http://jefhcardoso.blogspot.com que é na verdade a minha caixinha. (sorrio)

    ResponderExcluir
  2. Quero essa caixinha haha *-* Que lindo a estória amor. Bem criativa. Parabéns!

    ResponderExcluir
  3. Eu acertei quanto a caixinha? (sorrio).

    Abraço!

    ResponderExcluir
  4. Uaaau! Que história linda, emocionante. Sem palavras *-*
    Muitas vezes, nós devemos nos fazer de surdos, porque se levarmos em consideração tudo o que nos dizem, como seremos felizes? Essa história é uma prova disso. A personagem acreditava mais nas palavras dos outros do que em si mesma. E ao encontrar a caixinha foi como se uma explosão de autoconfiança despertasse nela.

    Adoro o jeito com que você lida com as palavras. Bjs querida :*

    ResponderExcluir
  5. Achei liindo teu texto! Foi escrito por você mesmo? (:
    Adoro essas amigas escritoras. dasiudhiasiodas
    E que bom que tu viu o trabalho dele! Eu ia postar fotos feitas por ele, mas o blog não ficava organizado como eu queria, então preferi mostrar só ele mesmo!

    beeijo linda :*

    ResponderExcluir
  6. Gostei muuuuuuuuito!
    Quero uma dessas, pra perder as esperanças e ganhar surpresas... :~
    A vida é mesmo cruel.

    :*

    ResponderExcluir

Me incentive um pouco mais.