30 de julho de 2010

Vinho e vi(zi)nho.


Eu estava imersa em meus pensamentos vagos no sofá da sala quando ouço a campainha tocando. “Quem será a essa hora?”, pensei. Não estava esperando ninguém e nem poderia ser algum vizinho, pois eu era uma nova moradora naquele prédio. Também não poderia ser o porteiro, ele me avisaria.
A campainha tocou novamente e eu, um pouco impaciente, me levanto para atender o ser que me tirou do meu momento reflexivo. Abro a porta e me deparo com um homem de olhos claros, moreno, de pele branquíssima, alto e com uma aparência bastante elegante.
- Olá, desculpe-me atrapalhá-la. Sou seu novo vizinho e me chamo Marcus. – Que voz maravilhosa era aquela?
- Ah, oi, Marcus. Sofia, prazer. – Eu, tímida, diante daquele homem tão bonito. – Na verdade, Marcus, também sou nova por aqui.
- Olha só, já tenho algo em comum com a primeira pessoa que dialogo por aqui.
Notei que ele estava com uma garrafa de vinho, ou algo do tipo, em suas mãos e o convidei para entrar.
- Não estou atrapalhando a senhooo - hesitou um momento - senhora ou senhorita?
- Senhorita. Mas pode me chamar de você, não gosto muito de formalidades.
- Ótimo, também não.
Sentamo-nos no sofá da sala, onde eu estava antes de ser “incomodada”. Tinha trazido duas taças e ele as encheu. Parecia um encontro casual, em que duas pessoas se juntam para conversar, beber e... Não! Mas eu estava tão vidrada na conversa, tão compenetrada, que parecia que nos conhecíamos há tempos. Confesso que houve afinidade entre nós dois logo de cara. Além de sermos novos no prédio, muitas coisas em comum surgiram na conversa como: gêneros musicais, lugares para freqüentar, bebidas...
Passamos praticamente a tarde toda conversando e quando fomos notar, já havia anoitecido há alguns minutos.
- Preciso ir, já atrapalhei demais você.
- Imagina, Marcus! Ter alguém para conversar nesse antro de solidão é sempre bom. Mas foi um prazer conversar com você.
- O prazer é todo meu. – Ele falou essa frase com o cantinho da boca, fazendo um biquinho super charmoso. Quando me aproximei para dá-lhe um beijo na bochecha em forma de agradecimento, ele virou o rosto (propositalmente) e acabei o beijando na boca.
Seu beijo era maravilhoso, o toque, a boca, a língua. O modo como beijava era sutil, primoroso e excitante, claro. Ele me envolveu em seus braços tão delicadamente, que quase suspirei. Não estávamos bêbados, apesar de termos bebido a garrafa toda. Sóbrios, aproveitamos aquele pequeno momento.
Ele foi embora e me deixou ali, delirando. Eu nunca imaginaria que um homem daquele podia surgir em minha vida (exageros à parte, admito). Foi tudo tão de repente, e mesmo assim sendo, não me importei com a rapidez como tudo isso aconteceu. Foi bom, não posso negar. Eu me arrependeria se tivesse recusado. Mas tive uma impressão que já o conhecia de algum lugar...
Moramos lado a lado e sempre nos encontramos nos corredores, no elevador e claro, nos apartamentos. Fiz muito bem em me mudar para esse prédio, onde encontrei alguém para ficar comigo nas noites frias de Domingo, bebendo um bom vinho.

28 de julho de 2010

Queda livre.


Eu sempre quis fazer um teste, bem anormal por sinal: jogar meu corpo de uma altura considerável, para sentir o impacto. Não sou suicida e nem pretendo ser, longe disso, mas se eu pudesse me jogar desse prédio de trinta andares, sentir o impacto, sentir meu corpo encontrando o chão e não morrer, eu com certeza faria. Faria sem hesitar.
Algumas pessoas acham que eu gosto de altura, mas não é bem isso. Confesso que morro de medo de cair, mas quando estou em um lugar muito alto como esse, eu tenho uma enorme vontade de me jogar. Sei que a queda duraria poucos segundos, mas eu gostaria que fosse quase eterna. Às vezes penso em ir para o espaço e cair eternamente.
Eu queria entender o que leva uma pessoa a estraçalhar o seu corpo. Fico imaginando: O que será que se passa na cabeça de um suicida durante os últimos segundos de vida? Será que dá tempo de pensar? Levo essa curiosidade comigo, mas sei que nunca saberei a resposta. O que sei é que eles não podem voltar atrás, como aqueles que cortam os pulsos propositalmente de maneira errada.
Imagino, por vezes, que, enquanto eles estão caindo, um filme de suas vidas passa por suas mentes. Durante três, quatro, cinco segundos, no máximo. Começo, meio e o terrível fim...
Acabei de ouvir alguém me chamando a atenção. Estou numa sacada de um prédio, olhando para baixo. Há alguns carros numa avenida próxima, mas o que me chama a atenção é a piscina em construção desse prédio. Seria o lugar perfeito para eu cair, até por que é mais profundo...
Minha mãe disse para eu ficar longe dessa sacada, pois está ameaçada. Ao ouvir essa palavra “a-me-a-ça-da” me deu uma excitação. Seria lindo, eu e sacada caindo. Em direção ao chão, em direção ao fim de tudo. Mas não, eu já falei, não sou suicida. Mesmo se fosse, não faria isso na frente de pessoas que eu amo.
Fiz o que minha mãe disse, fiquei longe da sacada. O que eu acho impressionante é que deixaram a sacada desse jeito...
Minha prima chegou aqui perto de mim, disse que eu estava distante, ‘com pensamentos na lua’. Comecei a conversar sobre minhas vontades, mas fui logo dizendo que era só uma curiosidade e que eu nunca faria isso. Ela achou isso muito estranho, mas ficou aliviada quando eu disse que era só uma vontade e voltou para o que estava fazendo. Essas pessoas não sabem o que se passa em minha mente e quando ouvem minhas “ideias”, sempre ficam com o pé atrás. Vai entender...
Fui até a cozinha, peguei um copo de vidro e escondi em minha roupa para ninguém notar. Cheguei à sacada do trigésimo andar, coloquei o cronômetro em posição e soltei o copo. Em menos de cinco segundos, o copo se encontrou com o chão e pedaços de vidro caíram para todos os lados. Seria assim com meu corpo? Não, mas eu cairia nesse mesmo tempo, em cinco segundos.
Deixei todas as minhas imaginações ali naquela sacada e decidi não mais voltar ali, pois se eu voltasse, meus impulsos falariam mais alto.

25 de julho de 2010

Por que escrevo?


Dedicado aos meus following e followers (mania de twitter).

Escrever tem sido uma das coisas que eu mais tenho feito ultimamente. Na verdade, eu meio que parei um pouco, tenho muitas coisas incompletas e que sempre leio, mas não consigo terminar. Quando notei que não conseguia terminar, eu comecei a escrever outras coisas, começando do zero, com minhas ideias mirabolantes. O engraçado é que minhas melhores ideias aparecem justamente quando eu estou deitada para dormir (já comentei isso por aqui). Posso dizer que algumas ideias são extraordinárias. Ideias para contos, eu digo. Por que é o que eu mais tenho feito e me dou muito bem com isso (eu acho).

Eu comecei a amar esse espaço aqui, onde escrevo tudo o que eu quero e tudo o que eu gosto e com isso, consigo agradar os leitores. Mas que graça teria escrever para si mesmo? Ou então não conseguir agradar leitores?

Eu escrevo por que amo. Gosto de mostrar aos leitores a minha opinião sobre um assunto. Gosto de mostrar minhas ideias, fantasias, alucinações. Eu escrevo por que eu me sinto aliviada, colocando tudo o que tem na minha mente para fora. Eu escrevo por que sinto um ímpeto de escrever. Eu escrevo por que meus dedos, meus olhos, minha mente e meu ser pedem por isso.


Hoje é Dia do Escritor e descobri isso por acaso. Posso me considerar uma, claro, pois escrevo, não é verdade? Nós (blogueiros) podemos considerar esse dia o nosso dia.

23 de julho de 2010

O tempo.


O tempo não existe.
O tempo é uma miragem.
O tempo faz o tempo passar mais rápido.

O tempo faz as pessoas infelizes.

O tempo é tudo o que nos resta.

O tempo é um artifício.


O tempo insiste em dizer que existe

E isso só nos torna triste.


O tempo é banal, convencional, adimensional.


O tempo sempre foi uma perda de tempo.







Foi uma perda de tempo escrever isso, mas fiquei meio sem tempo (olha que engraçado) de organizar as ideias e terminar o que estou escrevendo e acabou saindo isso. Eu não queria ficar sem postar por muito tempo, então... :)

20 de julho de 2010

Amigos.




Era uma vez Uma Pessoa e Outra Pessoa. Uma Pessoa conheceu Outra Pessoa em um belo dia, nos acasos da vida. Outra Pessoa gostou de cara de Uma Pessoa e logo começaram a conversar, a trocar e dividir ideias, gostos, pensamentos, histórias, experiências, emoções, afetos, e tantas outras coisas. Marcaram de se encontrar outras vezes, pois se identificaram.

Nos outros encontros, as conversas fluíam mais e assim foi criando uma pequena intimidade. Conversaram sobre coisas que jamais imaginaram que pudessem confessar a outras pessoas. Era algo dos seus íntimos, algo que guardaram por tanto tempo por não saberem a quem confessar. Mas quando se encontraram e se conheceram, cresceu uma grande confiança dentro dessas duas pessoas e puderam se expor, sem medo e sem vergonha.

Assim nasceu uma grande e linda amizade entre Uma Pessoa e Outra Pessoa. A compreensão, a ajuda mútua, o carinho e claro, o amor, nasceram juntos com essa amizade.




Assim somos nós, os amigos. Conhecemos uma pessoa, nos identificamos e nos tornamos amigos, não importando raça, cor, classe, idade, sexo... O que seria de nós sem eles? E que seriam deles sem nós?

Se há uma coisa rara no mundo, isso se chama amigo. É por isso que eu preservo os meus.

18 de julho de 2010

Hoje estou de ressaca (2) - Sexo acrobático.

Ela puxou minha mão pelo imenso corredor que dava para o quarto. Estava com sede e com fome. De sexo. Minha nossa, o que fazer com essa mulher? Deixei que me levasse e que me guiasse até a cama. Achei que ela estava fazendo meu papel, ao me jogar na cama com toda audácia. Testou minha virilidade ali mesmo. Eu fiquei encabulado com seus gestos, ela parecia muito endiabrada. Por um momento, pensei que fosse sugar toda minha alma com aquele beijo avassalador. Tirou minha roupa como se fosse um rótulo de bebida, não se importando se rasgaria ou não. Deixou-me na cama a olhando enquanto se despia. Enquanto isso, eu me masturbava mesmo não estando excitado, para não deixá-la decepcionada. Ela era a brasa em pessoa. Se eu a tocasse sem jeito, logo me queimava. Quando ela me tocava, meus pêlos todos se arrepiavam e por incrível que pareça, meu corpo esquentava. Eu me arrepiava com a quentura que ela me passava. Ô fogo abrasador! E eu falava: “Mulher, mulher. Assim você me mata”. Ela fingia não ouvir e continuava a sugar minha energia. Depois que estava totalmente nua e me viu ereto, não pensou duas vezes. Sugou-me mais ainda com toda a força e me segurei para não ser tão rápido. Foi aí que eu me empolguei de verdade e era a minha vez de tirar a energia dela. Mudei a posição, abri as pernas dela e lá meti minha cara. Ela deu um grito fino que quase estourou meus tímpanos, e ficou controlando minha cabeça. Ela exalava um cheiro maravilhoso, que me deixava louco. Fiquei em sintonia com ela. Seu corpo era lindo, as curvas, os seios bem desenhados, seu quadril perfeito, pernas e coxas bem torneadas... Eu era louco pela aquela mulher e ela me deixava louco, doido, maluco, me arrancava todos os sentidos. Então ela me puxou pelos cabelos, me beijou novamente de um jeito avassalador, saiu correndo e foi para a parede, plantar bananeira. Eu não entendi na hora o que diabos era aquilo, mas como eu disse, ela estava endiabrada e pediu que eu a penetrasse ali, naquela posição. Ficou abrindo e fechando as pernas, como um alicate e pediu que eu fosse logo. Eu fui. Penetrei devagar e segurei suas pernas, para ela não fazer forças nos braços. Ela relaxou seus braços e lá ficamos. Após um momento, ela me empurrou e nós quase caímos de mau jeito. Levantou-se e logo ela estava fazendo uma ponte com seu corpo, como aquelas meninas que fazem ginástica olímpica. Chamou-me novamente e lá eu fui. A posição não era boa para mim e ela logo percebeu e correu para cima da cama para formar sua ponte. Ainda não estava confortável, mas era melhor do que no chão. Ela gemia cada vez mais alto e eu adorava. Mais uma vez, ela quis mudar de posição. Achei que não estava satisfeita, mas notei que ela estava adorando suas inovações. Deitou-me na cama e ficou por cima de mim, com as pernas totalmente abertas, como abrindo escala. Eu não conhecia os dons dessa mulher até esse dia. Fiquei impressionado com ela. E ela não tinha um pingo sequer de álcool no seu estômago. “Algum espírito ninja tomou conta do seu corpo, só pode”, foi o que eu pensei ao vê-la se movimentar em cima de mim ainda de pernas abertas. Ela foi parando aos poucos e pensei que havia cansado, quando... Minha nossa, aquilo parecia uma aranha. Ela se deitou de bruços e elevou suas pernas e colocou os pés próximos a cabeça. Só sei que sua genitália ficou perto da cabeça também. Exótico, extraordinário, sensacional! Foi o que eu achei daquela acrobacia. Mais uma vez penetrei. Ela não estava nem um pouco incomodada, pelo contrário, estava mais confortável que nunca. Parecia a melhor posição possível. Aquilo estava bom para mim também e eu fui ficando cada vez mais rápido e ela gemendo, gritando, e me arranhando pra tirar sangue. Foi quando cheguei ao ápice e não pude mais aguentar. Gozei e tombei na cama. Minha respiração estava tão ofegante que meus lábios já estavam rachados e sem cor e minha garganta estava seca. Ali eu deitei para não me levantar mais, mesmo precisando de mil litros de água. Ela me pareceu disposta para outra, mas dali eu não mais me levantava, não depois de dormir quantas horas fosse preciso para recuperar toda a minha energia.
Foi a primeira vez na minha vida que eu fiquei com ressaca de sexo.



Nota da escritora: Sei que foi um pouco explícito esse texto, mas é que estou sofrendo influências de um livro que estou lendo. Nem é só por isso também, eu gostei da ideia de narrar uma transa, achei divertido imaginar algo assim. Não para mim, claro, mas enfim... E não tentem isso em casa.

16 de julho de 2010

Hoje estou de ressaca (1) - Um dia de folga e Cheetos.

- “Hoje estou de ressaca” será uma serie de contos não lineares. Não irei postar sempre, ainda estou escrevendo, mas cada conto vai ter novos personagens e novas histórias. Não sei quantos contos irei escrever nessa serie, mas o que eu consegui vai estar de bom tamanho. O segundo nome no título sempre será o nome do capitulo, como podem ver. Não é bem o tipo de história que escrevo, e acho que não será bem recebida, mas eu gosto de tentar coisas novas. Chega de romance! brimks (:





Acordei no chão do quarto em meio a garrafas de cerveja e alguns cigarros de maconha. A cama de solteiro que havia em meu quarto estava incrivelmente intacta e eu não sei como consegui essa façanha de dormir no chão. A noite anterior foi um tanto interessante.
Eu sai do trabalho às dez da noite e aproveitei minha folga do dia posterior. Odiava aquele trabalho, não só por que eu saia de lá às dez horas, mas por que meu ex-sogro era meu chefe. Sim, meu ex-sogro. Acho que o Deus dos humanos está me fazendo pagar pelos pecados que ainda não cometi. Eu não sou santo, é claro, mas também nunca matei um elefante.
Quando eu estava saindo do trabalho, o Dr. Corleone (ele não sabe que o chamo assim) me chamou em seu escritório e disse que eu teria folga no dia seguinte. Primeiramente eu nem acreditei, por que alguma caridade vinda das suas “mãos”, a gente já desconfia. Disse ele que eu aparentava estar cansado e que eu ainda não tinha me conformado com a separação. Era só o que me faltava! Eu estava dando pulos de alegria e ele jurava que eu chorava pelos cotovelos pela baranga da filha dele. Tá, eu exagerei no baranga, mas ela tinha uma pinta enorme na cara e eu achava aquilo bonito. Oh céus, onde minha visão foi parar? No cu é que não foi.
O Dr. Corleone me deu essa folga de graça e claro, eu fui aproveitar. Liguei para uns amigos e muitos não poderiam ir, pois estavam cuidado do bebê, ou a patroa não ia deixar, ou estavam cuidando da mãe. Pois é, eu tenho amigos assim, meio otários, mas são gente boa. Fiquei meio indignado por não ter alguém para comemorar minha folga, até que me lembrei do Cheetos. Cheetos era um velho amigo da época da faculdade. A gente sempre bebia e fumava no último andar do prédio de medicina (não, eu não fiz medicina). Aquelas eram ótimas épocas, mas ele acabou preso por tráfico. Eu não fazia isso e por isso me safei, mas sabia que ele participava de coisas desse tipo. Claro, era ele que trazia o nosso baseado.
Cheetos aceitou logo de cara a minha proposta, pois fazia muito tempo mesmo que a gente não se via e queria relembrar os old times, como a gente chamava. Então Cheetos disse que havia um ótimo bar perto da faculdade onde a gente estudou e que há pouco tempo tinha sido inaugurado. Era aquele típico bar que a gente gostava: músicas em vitrola, bebida boa e barata, banheiro unissex e gente ralé.
Chegamos ao bar Vagalume em Chamas. Era um nome um tanto esquisito, mas era o que menos importava. Tinha um pole dance com umas luzes fluorescentes em que qualquer um podia chegar lá e dançar. No momento em que chegamos, havia uma galega lá em cima tirando quase toda a roupa. Ela dançava para um mendigo e jogava algumas peças nele. Só podia estar bêbada mesmo para fazer isso, mas acho que era uma prostituta, pois vi quando ele colocou uma nota de dez reais em sua calcinha e saíram de mãos dadas. “Eca!”, pensei.
Sentamos numa mesa perto do pole dance e Cheetos foi pegar nossa bebida. Enquanto isso olhei ao redor para ver se havia algo de interessante, quando cruzei meu olhar com uma garota de vestido azul. Fui até lá para jogar meu charme, mas levei uma boa tapa na cara. Não entendo esse tipo de mulher. Se vai para um bar daquele, tem que estar preparada para o que vai vir. Voltei a me sentar e logo Cheetos chegou com a cerveja.
Passamos um bom tempo conversando sobre o que aconteceu durante esses tempos. Ele ficou impressionado quando eu disse que havia casado, pois nunca havia imaginado isso de mim. Ele também contou suas peripécias, de quando saiu da prisão. Ficou dois anos por lá e saiu em condicional.
Cheetos encontrou velhos conhecidos por lá que tinham uma das boas. Venderam cinco cigarros por quinze reais, pois de acordo com eles, estava na promoção. Pagamos as bebidas e saímos pela rua. Numa esquina, tinha umas prostitutas que abordamos para perguntar o preço por uma noite. Fizeram por cinqüenta reais cada. Achamos caro, mas seria uma noite e elas eram gostosas, então por um lado valeria a pena.
Passamos num posto para comprar bebidas e algumas comidas. As prostitutas ficaram na lata velha de Cheetos esperando. Levamos a chave por precaução, caso elas quisessem nos passar a perna.
Fomos até o meu apartamento. Estava um lixo, tudo bagunçado, mas eu não estava nem aí. Ficamos na sala, que tinha um sofá de três lugares, mas um tanto fétido e com o pano meio rasgado. Cheetos pegou duas garrafas de cerveja, um cigarro e levou sua puta para o banheiro. Da sala, ouvi gritos, gemidos e coisas caindo no chão. Eu sabia que ele não ia tomar cuidado.
Levei a minha com garrafas de cerveja e dois cigarros para o meu quarto e ela reclamou por que era uma cama de solteiro. Não liguei para sua reclamação e a joguei no chão mesmo, já arrancando sua roupa. Ela era boa, me fez gozar duas vezes e ainda deixou que eu jogasse a coisa em seus peitos. Eu não comentei com Cheetos, mas eu estava sem transar desde que me separei e isso fazia um mês.
Depois disso, voltamos para a sala e ficamos bebendo e fumando. Cheetos ainda estava no banheiro e os gemidos não paravam. Após algum tempo, os dois voltaram e sem roupa, e sentaram-se perto da gente. A que estava com Cheetos se ajoelhou no chão e começou a fazer o que você está pensando, isso tudo na nossa frente. Então começamos ali uma orgia, mas devo dizer que tive nenhum contato com Cheetos (não gosto dessa fruta), mas transei com a sua prostituta e ele com a minha.
Dançamos, fumamos, bebemos, transamos. Verbalizamos! Foi minha melhor noite de solteiro, isso eu posso ter certeza. Já eram nove da manhã quando Cheetos disse que precisava ir e eu pedi que ele levasse as duas de volta para a esquina.
Fui cambaleando para meu quarto, mas não enxerguei a cama e cai direto no chão e só acordei às sete da noite. Agora são três da manhã e eu ainda estou sob o efeito da bebida e da maconha, mas que se foda o Dr. Corleone, que hoje estou de ressaca.

14 de julho de 2010

Without you I'm nothing.

Não era costume ela chegar a casa dele logo pela manhã, mas esse era um dia especial. Ela saiu de casa com tudo pronto para surpreendê-lo. Dias antes, montou uma simples cesta de café da manhã, mas tinha tudo o que ele gostava. Preparou-se para sair com todos os pesos que tinha em suas mãos e costas. Ela não achava que era uma grande surpresa, mas tinha certeza que ele ia ficar impressionado.

Saiu de casa muito cedo. Não eram lá umas seis horas da manhã, mas para ela, que era acostumada a chegar a casa dele na hora do almoço, era cedo demais. Era uma bela manhã de dia de semana. Não havia muitas pessoas na rua, mas sempre um que passava olhava para o que ela estava carregando. Era irresistível para ela ficar olhando aquelas coisas maravilhosas que tinha na cesta, mas não ousaria a tirar nada dali, não antes de entregá-la a quem devia. Ela era quase perfeccionista. Adorava coisas delicadas, minimalistas (como ele dizia). Para ela, tinha hora certa, lugar certo. Nada de mudanças de planos, nada de atrasos também, por isso, fez que tudo desse certo.

Não andou muito até a parada de ônibus. Sim, ela ia de ônibus com aquele peso. Preparava-se mentalmente não só para pegar o ônibus, mas também para a andança, pois assim que ela descesse, teria que andar uns meios quilômetros. Ele sempre a buscava na parada, para ela não ir só, mas dessa vez, ela não podia chamá-lo. Fora a distância que ela teria que andar, ainda tinha o peso das coisas e o sol escaldante. O que ela não faria por ele? Não esperou muito pelo ônibus, ela tinha a sorte daquele passar de dez em dez minutos. Sentiu um grande alívio ao entrar no ônibus: tinha lugar para se sentar. Estava um pouco nervosa e queria chegar logo, antes de ele acordar.

Desceu do ônibus e notou que o céu estava nublado. Mas um grande alívio ela sentiu. Sentiu também que tudo estava conspirando a seu favor, estava tudo saindo como ela queria. Não demorou muito, ela chegou rapidinho ao prédio dele. Não precisou interfonar, pois o porteiro já a conhecia e abriu para ela. Deu um “Boa tarde” para o porteiro e só notou que tinha errado quando ele riu um pouquinho e disse “Bom dia”. Ela era assim, meio desligada.

Pegou o elevador e foi direto para o apartamento dele. Ficava no sexto andar e o elevador demorava um pouco, e ela saiu com muita pressa. Tocou a campainha duas vezes e esperou até que alguém viesse atender a porta. Por sorte, era a cunhada dela. Cumprimentou-a e foi direto ao quarto dele. Abriu a porta devagar e lá estava ele, dormindo perfeitamente bem.

Ela sentou-se na ponta da cama, onde dava para sentar. Ele sempre foi muito espaçoso e ela sabia disso, quando os dois dormiam naquela minúscula cama. Deu um selinho carinhoso e ele acordou meio assustado. Ela fazia isso toda vez quando ele estava dormindo e ele acordava assim.

Ele ficou bastante surpreso e bem feliz por ser acordado por ela. Era quase uma Bela Adormecida, só que o contrário, um belo adormecido, ela pensou. Ele sorriu e deu-lhe um abraço, mesmo estando sonolento.

- Amor, que horas são? Chegou tão cedo, que milagre é esse? – ele perguntou, num cinismo.
- Feliz dia, babe. Tenho uma surpresa para você. – e pegou a cesta de café da manhã e lhe deu.
- Mo, o que é isso? Tudo, pra mim?
- Café da manhã na cama, amor.

Ele ficou mais surpreso ainda e logo abriu a cesta. Parecia estar com fome, e “investigou” para ver o que tinha dentro. Torradas, bolachas, bolos, chocolates, geléias...

- Mo, tem muita coisa. Quando foi que você comprou isso, hein? – era curioso quando ela dava algum presente para ele e sempre queria saber a origem.
- Ah, amor, é segredo. Aproveite aí.

Deliciou-se com tudo e cada coisa que comia, ele dava um pedaço para ela. Ele colocou a cesta de lado e a chamou para se deitar com ele. Ela foi e ficaram lá por um tempo, se olhando, sem dizer nenhuma palavra, para não atrapalhar o momento. Ele deu-lhe um grande beijo, que a deixou arrepiada. Ela não se importava que ele tivesse acordado àquela hora.

- Tem outra coisa que eu quero te dá. Eu mesma que fiz. – e mostrou o céu que ela fez. – É meio brega, mas isso representa tudo o que eu sinto por você. Eu não posso te dar o céu de verdade e por isso fiz uma réplica dele.

(Arte feita por mim)

Ele apenas disse:

- Eu te amo, amor. Obrigado por tudo, mesmo. Feliz dia, amor, feliz dia. – e a abraçou fortemente como nunca havia a abraçado e lhe deu mil beijos. Um sorria para o outro e ambos sentiam a intensidade daqueles sorrisos. Ambos se amavam, intensamente.



- Dois anos! Viva a Alemanha, babe! Eu amo você.


11 de julho de 2010

Só você.


Passo três dias sem te ver e é como se você não existisse. Não me entenda mal, mas é que eu me "esqueço" do seu rosto, apesar de estar muito acostumada com ele. Mas eu sei que no fundo, no fundo, você existe. Está guardado em meu coração. É que eu preciso te ver todo dia, para ter a certeza de que você é real. Todo dia, toda hora, a cada segundo. Assumo que estou viciada em você.
Eu me hipnotizo com sua voz, com seus beijos e suas carícias... Quando você me abraça, é como se suas células grudassem em meu corpo, feito imã. É difícil me livrar do teu cheiro, principalmente quando eu pego sua camisa para dormir. Aquele cheiro atraente, viciante... Quando durmo sem ela, sinto que falta algo, porém quando durmo com, imagino que é você, ali do meu lado, transpassando aquele perfume maravilhoso para minhas narinas.
Mas que poder é esse que você tem sobre mim? Passo noites acordada, pensando em você, mesmo que sua feição delicada não apareça na minha mente. Às vezes tento te tirar da minha cabeça para me libertar, mas não consigo. É muito complicado te amar, mas eu não escolhi isso. Eu não sei o que eu faria se pudesse ter escolha em te amar ou não. É porque eu sofro aos pouquinhos quando você está longe ou quando você faz coisas que eu não aceito. Mas é inevitável, eu nasci para isso. Seu amor está encarcerado em meu coração e não há saída tão fácil. Sua alma está anexada à minha, como uma só. Eu te amo em demasia e isso não posso negar.

9 de julho de 2010

A silhueta.

Era meia-noite e como de costume, eu estava acordada. Meus pais diziam que eu era um zumbi, pois sempre ia dormir tarde. Eu não gostava de ir para a cama cedo, sempre achei chato demais. Gostava de ficar lendo na madrugada ou conversando com amigos, seja no telefone, seja na internet. Fui à cozinha preparar meu leite. Eu tinha essa mania, sabe? Todas as noites, de meia-noite, eu tomava meu leite, leite quente e com açúcar, sem achocolatado. Nunca gostei de achocolatado, eu sempre achei que o leite ficava artificial. Fui tomar meu leite vendo TV, já que essa noite não tinha nada de interessante na internet. Eu tinha um pouco de medo de ficar vendo TV na minha sala, pois, do lado de fora, dava para notar que alguém estava acordado. As janelas eram um pouco transparentes, e a luz da TV era um pouco forte. Estava passando um filme tosco na TV e eu só estava assistindo por que não tinha muito que fazer. O volume estava baixo, mas dava para notar o quão tosca era a dublagem. Minha TV não tinha SAP nem CAPSLOCK, então eu teria que aturar assim mesmo.

Fui à cozinha, lavei meu copo, pois meus pais tinham muita mania de organização e não queriam uma colher sequer na pia. Ouvi um barulho na janela da sala, mas nem me importei, continuei na cozinha. Depois de um tempo, eu voltei para a sala e vi uma silhueta preta através da janela. Não sei dizer como era, só sei que essa silhueta estava tentando abrir minha janela. Provavelmente um ladrão. A janela não era protegida com grade, mas o vidro era muito forte, acho que ele não conseguiria quebrar. Não sei se ele tinha notado minha presença, mas continuou tentando abrir. Eu corri silenciosamente, deixei a TV ligada, a luz acesa e corri. Tentei acordar meus pais, os chamando sem gritar, mas eles não acordaram e o quarto estava trancado à chave. Fiquei nervosa, meu coração acelerava forte e eu não sabia o que fazer. Não pensei na possibilidade de ligar para a polícia, eu estava muito desnorteada para isso.

Depois de várias tentativas de acordar meus pais, eu ouvi um barulho estrondoso: ele conseguiu abrir a janela. Corri para o meu quarto, tranquei a porta e arrastei móveis pesados para a porta. Tremi meu corpo todo, me joguei na cama e me cobri dos pés à cabeça. Ouvi uns ruídos através da porta, mas nada muito alto. Fiquei com muito mais medo só de imaginar meus pais se acordando para fazer algo fora do quarto e dar de cara com o ladrão.

Essa noite ia ser diferente: eu não ia conseguir dormir. Meu quarto estava um breu, do jeito que eu gostava, mas dessa vez eu estava com medo de ficar no escuro. Eu não poderia acender luz alguma, pois ele poderia notar que eu estava acordada. Mas não sei como ele teve coragem de entrar, se viu a TV e a luz ligadas. Ele deve ter pensado que alguém da casa esqueceu ou já imaginava que tinha alguém acordado. Tantas possibilidades, mas eu não sabia qual era a certa.

Os ruídos pararam e deduzi que ele tinha ido embora, mas eu não sairia do meu quarto de jeito algum. Ouvi latidos ao longe, alguns próximos também. Eu não tinha cachorro, mas sempre odiei ouvi latidos assim, na madrugada. Eu imaginava que os cachorros estavam latindo para algum desconhecido ou um espírito, sei lá. Já ouvi dizer que cachorros veem espíritos.

Eu fiquei na minha cama, rolando para esquerda e para a direita, mudando de posição, mas nada de o sono vir. Ainda estava com medo, medo de que esse ladrão tivesse dentro da minha casa, só esperando alguém sair da toca para abordar. Minha barriga roncou um pouco, pois o leite não tinha sido um bom alimento para afastar minha fome. Eu também precisava ir ao banheiro, pois tinha muito líquido para pôr para fora. Fiquei tensa, suando, mesmo com o quarto frio. As vontades de comer e urinar estavam muito grandes e eu não estava aguentando. Acabei urinando no colchão e me envergonhei por isso. Chorei, chorei muito e não sei qual era o real motivo. Não sei se era por causa do ladrão, ou por que eu urinei no colchão, ou por que eu estava solitária... Não sei.

O quarto de repente foi clareando e eu notei que já estava amanhecendo. Olhei pela fresta da porta e uma luzinha um pouco fraca dava para notar. Eu estava me acalmando e resolvi me encorajar e sair do quarto. Ainda estava molhada e fedia muito. Girei a chave devagar, junto com a maçaneta e coloquei o primeiro pé para fora sem fazer algum barulho. Respirei fundo e coloquei o segundo pé quando senti algo o puxando. Soltei um grito e...

Acordei ofegante no sofá da sala. Ainda não tinha amanhecido, mas olhei para o relógio e eram quatro horas da manhã. A TV estava ligada, mas nada além de chiados saiam dela. Meu copo com o leite havia caído no chão e estava cheio de formigas.

Então aquilo foi um sonho... Mas me parecia tão real. Levantei-me um pouco sonolenta para desligar a TV. Meus olhos não estavam abertos completamente, mas quando desliguei a TV, vi uma sombra e olhei para trás. Era uma silhueta preta batendo na janela.




| Voltei a escrever! o/ Criei essa história hoje, mas não curti muito. Achei meio boba e fraca, mas já é alguma coisa. Ah, e queria divulgar esse conto, que meu namorado escreveu Sem Paredes - Instante (ou Segredos). Quem quiser dá uma olhadinha por lá, está a disposição. Beijos. |

7 de julho de 2010

Hello, friend.

Te conheci na sexta série e até hoje eu lembro o primeiro dia em que você chegou na escola. Havia só um conhecido, mas não era seu amigo, era apenas alguém que lhe fazia companhia, não por falta de gente para fazer, mas por que você passava um ar de timidez diante de tantos rostos desconhecidos. Eu nunca fui novata, mas sei o que você passou quando derrubaram um copo de coca-cola no seu colo, justamente no seu primeiro dia. Deve ter sido meio constrangedor, mas o que fazer com pessoas desastradas?
Não nos conhecemos direito nesse ano, acho que trocamos poucas palavras, mas no ano seguinte, formamos um trio, com uma amiga sua de infância. Bons tempos, admito. Mas chegou um certo ano que você mudou de escola e ficou meio que difícil de manter a amizade, pois geralmente nessa idade, guardamos amizades na escola, e não fora dela.
Às vezes nos visitávamos e contávamos as novidades, que na verdade eram poucas, mas assim conseguimos "levantar" a amizade. Marcávamos filmes, com pipoca e brigadeiro. O nosso trio se via pelo menos uma vez na semana para fazer isso.
Não sei quanto tempo faz, mas sei que faz um bom tempo que nos conhecemos. Brigamos de vez em quando, mas nada de discussões ou aquela coisa de deixar de se falar por alguns dias, somente uma se chateia com a outra e depois nos falamos normalmente.
O tempo passou, eu namoro e você também, mas nós de vez em quando inventamos um programa em casal e eu adoro isso, pois os nossos namorados acabam formando uma amizade, mesmo que pequena.
Só queria que você soubesse que a sua amizade é importante para mim.

4 de julho de 2010

Writing.

Não é a falta do que escrever, está muito longe disso, mas eu não sei realmente o que está acontecendo com a minha super mente inspirada. Eu sempre tenho ideias legais, não digo geniais, por que não são na verdade, mas sempre tenho ideias boas, que podem render um bom conto. Eu gosto mais de escrever contos, não me dou muito bem em escrever textos como eu vejo por aí em diversos blogs. Eu tenho essa dificuldade e isso não é bom. Eu sempre tento escrever um texto, mas quando eu escrevo, nunca está do jeito que eu quero. Sempre acho que está sem nexo ou está mal escrito. A gente nunca está satisfeito com tudo, não é verdade? Mas vim aqui para falar da minha atual dificuldade de escrever. Quando eu me deitava para dormir, muitas ideias enchiam minha mente. Algumas vezes eu não aguentava e me levantava para escrever, pois no outro dia eu não me lembraria. Escrevia no escuro, mas escrevia. Eu adorava. Era quase uma explosão de ideias. Era como se minha mente quisesse me testar e assim ela me dava as ideias para destrinchar.
Estou acostumada a ler todos os blogs que eu sigo, então não posso falar que isso é falta de estímulo. Quero continuar com as minhas histórias, quero inventar mais, algo que ninguém nunca pensou em escrever. Quero escrever histórias românticas, dramáticas, divertidas. Eu quero escrever. Escrever!
Eu parei um pouco e me desestimulei. Deve ser isso. Preciso exercitar um pouco mais, jogar as ideias sem medo e aos poucos ir montando a história. Feito receitas. Primeiro os ingredientes, segundo o preparo e terceiro o "cozinhamento".
Falando em receita, achei aqui uma para escrever:

Ingredientes:

1 kg de paciência
5 kg de imaginação
1 kg de letras
1 kg de papel

Modo de preparação: Misture o papel com as letras; leve ao forno a cozer; no final deite por cima a imaginação e a paciência.

Vou usar essa receita. Quem sabe não funciona. O que não falta são palavras por aí.

2 de julho de 2010

The little box.




Ela andava triste pela rua, caminhando para casa. O que havia feito não deu certo. Tentou de tudo, mas foi difícil. O curso que tanto queria era caro e não havia bolsas disponíveis para “amadores”. Foi assim que a definiram: Amadora. Sempre quis ser pianista e quase chegou a realizar o seu sonho, mas teve que adiá-lo.


No caminho, ficava imaginando como seria sua vida como pianista. Ir a um concerto onde a estrela principal seria ela. Um palco não muito iluminado, apenas uma luz focada na pianista. Vestido longo e preto, cabelos soltos, mãos delicadas ao tocar cada tecla do piano. A platéia silenciosa, admirando a pianista e a música que chegava aos seus ouvidos. Ouvidos atentos a cada mudança de nota. Uma música erudita, muito bonita, que ela mesma compôs. Sim, ela sonhara assim. Seria uma ótima compositora, chegando aos pés de Mozart, Beethoven... Suas músicas percorreriam o mundo inteiro e emocionariam cada ouvinte. Lágrimas cairiam dos olhos dos ouvintes e os aplausos, de tão intensos, seriam ouvidos a léguas dali.


Levou uma topada em uma pedra e voltou à realidade. Ela tinha sido mesmo cortada do grupo. “Amadora, como eles puderam dizer isso?” Pensava enquanto caminhava. Era uma boa pianista e não tinha nada de amadora. O problema estava nos professores. Ela não era o que procuravam. Ela não se adequava ao perfil que eles queriam. “Nem me ouvir eles quiseram...”. Era o curso mais caro e rígido da cidade. Eles queriam mesmo profissionais. Ela não era. Pelo menos foi isso que eles acharam.


Levou uma topada novamente. “Merda”, ela disse. Dessa vez não era uma pedra, era algo parecido com uma caixa, mas bem pequeno. Era mesmo uma caixa, uma caixinha vermelha. Aparentava ter três centímetros cúbicos. Tentou abrir, mas parecia estar muito bem lacrada. Pensou em jogar o objeto fora, mas a curiosidade foi mais forte. Colocou-a em seu bolso e continuou a caminhar.


Sentiu-se invisível por um momento. As pessoas na rua pareciam não vê-la e, quando se esbarravam nela, não pediam desculpas. Parecia que não existia nesse mundo real, era como um espírito ambulante. Lembrou que fora rejeitada e começou a chorar. As imagens se formaram no ar. O vice-diretor do curso lhe dizendo não. Naquele momento, se sentiu humilhada. Ele a olhara com desprezo, como se ela fosse nada. “Todos levam um não um dia e hoje foi o meu dia de receber isso como resposta”. Tentava se consolar, mas foi em vão. Não conseguiu parar de chorar e de se sentir invisível. A depressão tomou conta da sua mente, do seu corpo, de tudo. Viu que estava na avenida e pensou em se jogar na frente do primeiro carro que aparecesse. Não tinha motivos para fazer isso, mas foi a única solução para o momento. Correu em direção à rua e quando pôs o pé no asfalto, sentiu algo lhe puxando de volta para a calçada. “Nunca mais faça isso”, foi o que ele disse. Um estranho a salvou da morte. Ficou atordoada de emoção e não conseguiu olhar o rosto do estranho, simplesmente desmaiou por alguns minutos. Acordou na calçada, tentando lembrar o que havia acontecido. Sentiu-se estranha e ao mesmo tempo aliviada, mas não sabia por que esses sentimentos lhe cercavam. Arrepiou-se quando lembrou que a morte esteve frente a frente com ela. “Nunca mais faça isso”. A frase ainda ecoava em sua cabeça, mas não conseguia saber quem a pronunciou. Ficou confusa com toda a situação, mas voltou a caminhar.


Agora era mais estranho ainda. Por onde andava, todos a olhavam. Pensou que tinha algo de errado com sua aparência, mas estava como antes. De repente começou a chover e todos correram para se abrigar. Ela não. Sentiu as gotas chocarem contra o seu corpo. Sentiu-se viva, mais do que nunca. Eram tantos sentimentos que explodiam em seu peito naquele momento, que não saberia dizer se estava triste ou feliz. Parecia a ela que aquele estranho não somente a salvara como lhe devolvera a vida, de alguma forma.


Estava chegando perto de casa quando seu celular tocou. Era o diretor do curso, se desculpando pelo seu vice ter sido indelicado com ela. Disse que ela teria uma nova chance e que, se ela quisesse, fosse lá o mais rápido possível. Saiu correndo de volta para o curso. Ao passar pela avenida em que quase dera fim a sua vida, viu o estranho e agora estava começando a se lembrar. Ele chegou perto e disse: “Eu sabia que a sua vida ainda tinha muitas surpresas reservadas...” e foi embora. Ela tentou seguí-lo, mas ao virar a esquina, simplesmente desapareceu. Não podia perder tempo, pois o diretor, pessoalmente, esperava para vê-la tocar.


Em dez minutos ela já estava no curso, que na verdade era um conservatório. O diretor veio recebê-la com muita cordialidade. Levou-a direto para o melhor piano que tinha por lá: o piano de calda. Enquanto ela tocava, dos olhos do diretor vertiam-se lágrimas. Parecia que ela tinha lido sua mente e escolhido aquela música especial que sempre o emocionou.


O diretor a aprovou e disse que a bolsa seria dela. Ela estava tão emocionada quanto ele e deu-lhe um abraço forte e um beijo na bochecha. Ele não estava acostumado a isso, mas retribuiu-lhe da mesma forma. Na semana seguinte ela teria a sua primeira aula. Ela já sabia muita coisa, mas teria que acompanhar tudo novamente, afinal era uma bolsa e ela não podia recusar. Mas era para ela um prazer “aprender” tudo novamente.


Saiu de lá sorridente, saltitante. De repente, algo de seu bolso caiu no chão. Era a caixinha vermelha que ela havia guardado. A caixinha abriu com o impacto contra o chão e parecia haver um papelzinho com algo escrito ali.


Ela pegou o papelzinho e leu:


“A caixinha lhe proporcionou algo extraordinário. Repasse-a para que outros tenham a mesma alegria que você.”


Não entendeu, mas fechou a caixinha com o papelzinho dentro. Tentou abri, jogou no chão, mas não conseguiu. Deixou a caixinha onde encontrou e continuou a caminhar feliz da vida. Ao passar pela avenida, o estranho estava encostado em um poste, sorriu e acenou para ela. Ela tentou retribuir, mas ele havia sumido por trás do poste.


Aquele dia poderia ser o pior da sua vida e da vida de muitos, mas não foi. Pelo contrário, foi o melhor dia. Seu sonho estava se concretizando e ela não tinha notado a caixinha havia feito isso para ela.