23 de junho de 2010

Culpa.



O desgosto tomou conta dela. Seus filhos eram homossexuais e seu marido, um alcoólatra. Sua vida não era mais a mesma. Antigamente vivia feliz. Agora vivia numa triste loucura, no fundo do poço. Nada mais lhe trazia alegria, nem uma xícara de café que ela tanto adorava beber. Não bebia mais café, de jeito nenhum. Notou, há um tempo, que bebia café quando estava feliz. Agora, em sua triste loucura e solidão, o café não mais importava. Nada mais importava. O tempo lhe arrancou a felicidade, o tempo lhe arrancou o sossego, o tempo que arrancou a paz. Ela até tentou virar alcoólatra, como o seu marido, mas não conseguiu. O gosto amargo que ficava em sua boca era insuportável. Ela queria beber para esquecer, como muitos por aí fazem. Mas não deu. Optou por se drogar. Tentou todas, mas nenhuma a fazia esquecer-se da dor, do rancor.

Ela vivia sozinha em casa. Os filhos a abandonaram e o marido vivia pelas ruas, de bar em bar, jogado na sarjeta. A sua casa parecia mais um chiqueiro, de tão suja e fedida que era. Pratos, copos, comidas, tudo no chão. Fazia tempo que ela não arrumava a casa. Deixou de trabalhar e vivia do dinheiro da poupança. Saía de casa só para o supermercado e só voltava com comida pronta, enlatados e afins. Nada de material de limpeza. Tomava banho uma vez a cada dois dias e seu cabelo parecia mais uma vassoura, pois não lavava e nem penteava direito. Os vizinhos comentavam uns com os outros, dizendo que ela era uma louca solitária, abandonada pela família.

Ficou assim por dez meses. Engordou sete quilos, sua pele estava seca, seus lábios rachados, cabelos quebrados e secos. Não era mais a mesma pessoa. Não era a aquela mãe que todos admiravam por cuidar dos filhos com os maiores carinho e apoio possível. Não era aquela esposa atenciosa e bondosa, que fazia tudo pelo marido. Era uma simples mulher acordando da triste loucura que passou durante quase um ano. Foi um dia qualquer em que ela acordou e percebeu que sua vida não fazia sentido. Viver infeliz por que sua família a abandonou? Sim, isso era muito triste e ela não havia se recuperado ainda. Mas viver assim, para sempre, não dava. Nesse mesmo dia, acordou disposta, disposta a mudar todo o rumo de sua vida. Passou cinco horas e meia limpando e arrumando a casa. Limpou sala, quarto, cozinha, banheiro... Tudo. Tomou um banho decente e saiu na rua, com um sorriso estampado no rosto. Todos a olhavam, sem entender o que era aquilo. Mas ela estava pouco ligando para o que eles pensavam e falavam.

Foi à procura de emprego, pois notou que passou muito tempo parada. Na poupança ainda tinha bastante dinheiro, mas ela não poderia relaxar, tinha que ter pelo menos um objetivo na sua vida. Tinha cinqüentas e cinco anos, mas não estava morta. Ainda tinha muito que viver pela frente. Conseguiu um emprego de assistente numa pequena empresa. A remuneração era pouca, mas já era alguma coisa. Ela não poderia voltar para o antigo emprego, pois tinha sido demitida por falta. Na verdade, ela não havia tentado, mas achava que não seria readmitida.

Todos os dias, quando chegava do trabalho e se deitava para dormir, ficava lembrando-se dos seus filhos e de seu marido. A saudade doía, de apertar o coração. Chorava de saudades e chorava mais ainda por eles nesse tempo todo não ter dado notícia nenhuma. Não sabia onde eles estavam e nem como encontrá-lo. Podiam estar em outra cidade, estado ou até mesmo outro país e ela não saberia. Decidiu procurar informações nos seus antigos empregos. Eles poderiam ter sido promovidos ou realmente mudados de emprego.

Saiu cedo de casa, numa manhã pouco ensolarada, em busca dos seus filhos. Foi na loja em que seu filho mais velho era gerente e ele estava lá. Ela o observou de longe e lágrimas caíram de seus olhos. Ele estava bonito como sempre. Decidiu se aproximar da loja e falar com um funcionário. Perguntou se os outros irmãos dele passavam por ali e onde eles estariam. O funcionário lhe respondeu que somente a irmã o visitava às vezes e disse que ela trabalhava perto dali.

Era em um posto onde sua filha trabalhava e ela decidiu ir lá também, observar de longe. Ao vê-la, se emocionou e mais ainda por ela estava grávida. Pelo tamanho da barriga, aparentava ter seis meses de gravidez. Supôs que ela tinha feito inseminação artificial, pois ela era lésbica. Saiu de lá e não quis mais falar com ninguém. Queria saber do seu outro filho, mas estava exausta pela procura e não poderia se atrasar para o trabalho.

Passou o dia todo pensando nos filhos e principalmente no mais novo, que ainda não sabia onde ele estava. Pensou também em seu marido, seu primeiro amor. Não se conformava com o que havia feito com sua família. A culpa era toda dela por não aceitar a homossexualidade de seus filhos. E o marido se jogou na bebida por que não agüentava mais a suas paranóias e loucuras por causa dos filhos. Sim, tudo era culpa dela. Ela tinha sido tão idiota a ponto de destruir sua família, a ponto de afastar aqueles que mais a amavam.

Queria rever os filhos, tocá-los, abraçá-los e beijá-los. Não poderia mais se esconder e viver sem eles. Decidiu contactar o mais velho. Foi na loja e falou com o mesmo funcionário. Pediu-lhe para entregar um bilhete, deu-lhe um trocado em troca de não comentar nada. No bilhete, ela estava marcando um jantar num ótimo restaurante da cidade, às oito horas do dia seguinte, e pediu para que ele levasse seus irmãos e que não faltasse, pois era muito importante e de interesse deles todos. Ela observou a reação dele e ele tinha ficado intrigado com isso. Não sabia se ele iria comparecer e se levaria seus irmãos, mas a esperança tomou conta dela e ela sentiu, com seu extinto de mãe, que eles iriam ao seu encontro.

No dia seguinte, acordou bem disposta e feliz. Aquele era o dia do reencontro. Trabalhou com força de vontade e saiu cedo, para poder se preparar.

Olhou para o relógio e eram sete e meia da noite. Estava nervosa e ansiosa. Decidiu se atrasar um pouco, para eles chegarem primeiro que ela. Já tinha ligado para o restaurante um pouco mais cedo para reservar uma mesa no nome do mais velho.

Chegou no restaurante uns quinze minutos atrasada e procurou pelos filhos e lá estão os três, esperando por alguém que não sabiam quem era. Ela se aproximou da mesa, tremendo e chorando. Eles a reconheceram e ficaram admirados. Abraçaram-na. Foi um reencontro com muita emoção para ela. Ela sentou-se ao lado deles e conversaram muito, sobre tudo o que aconteceu. Ela prometeu-lhe não mais ir contra a decisão deles e pediu que eles voltassem para casa, que ela estava esperando para acolhê-los. Eles se entreolharam, mas foi o velho que falou:

- Mãe, a senhora passou esse tempo todo na sua miséria, mas o tempo passou. Eu gostaria que a senhora soubesse que adoramos o convite, mas já temos nossas vidas feitas. O que a senhora não sabe é que a gente tirou o papai da rua e ele morou com a gente por um bom tempo e...

- E não mora mais? Como assim? – ela perguntou.

- Ele faleceu há uma semana.

Dos olhos dela, lágrimas caíram, e ela não acreditou como isso pode acontecer. Seu marido, que tanto amara, estava morto e ela nem ao menos sabia. Ninguém havia lhe contado...

- Por que vocês não me ligaram? Por quê? Por que não foram me visitar, por que não me disseram que ele morreu? Por que não me chamaram para o velório? Respondam-me! – ela alterou a voz e os clientes do restaurante olharam para a mesa deles.

- Sinto muito, mãe. Ele passou a odiar a senhora, por não nos aceitar. Ele pediu antes de morrer que a senhora não fosse para o velório. Sinto muito, mas temos que ir. Qualquer dia vamos visitar a senhora.

Os três se levantaram, deram-lhe um beijo e partiram. Ela tinha notado a frieza dos filhos. Eles haviam mudado. Não na aparência, mas nas atitudes. Ela, com todo aquele peso de emoção e tristeza, ficou na mesa do restaurante, em companhia de cadeiras vazias e pratos sujos.


5 comentários:

  1. bélissimo post!
    És de recife? sabe, a cidade que eu mais amo no mundo todo é a tua.
    beijinhos.

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  2. tudo que nos machuca deixa marcas, ninguém pode esperar voltar e ser recebido de braços abertos sem receio de alguém que o machucou. muito bom o post ^^

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  3. Uau, passo dias sem entrar aqui e quando entro está cheio de novidades.

    Amor, posso dar uma sugestão? Quando falamos da sexualidade de alguém, não se usa o termpo "homossexualismo", porque o "ismo" vem de doença e a orientação sexual não é uma doença. Falamos de HOMOSSEXUALIDADE e não Homossexualismo. Então, pode dar uma arrumadinha ali? Por uma questão de ética :D

    Mas então, voltando ao foco. Adoro ler seu blog, além de segui-lo também está nos meus favoritos. :*

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  4. É muitas vezes nosso egoísmo nós torna pessoas amargas e acaba afastando as pessoas que mais amamos.As feridas cicatrizam porém as marcas sempre ficam estampadas no nosso corpo!Adorei o post depois desse só seguindo você *_*

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  5. Estava devendo comentários por aqui, hein. Não digo visitas e nem leituras, pois eu venho aqui com uma certa frequência (quase obsessiva).
    Gostei muito do texto. Gosto de coisas que falam sobre depressão, recuperação e sobre a realidade. O tempo passa, é fato. As pessoas tocam suas vidas e aí o tempo não para pra que outros se ergam novamente. Triste, mas é assim que funciona.
    Inercya, cada vez melhor, hein! :D
    :*

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