2 de junho de 2010

Correspondências (3ª Parte)

Eu não sei se ficava com raiva ou se ficava alegre, mas quando eu cheguei a casa, Lucas estava na minha porta, com a cara mais deslavada possível. Quase bati nele de tanta raiva que eu estava. Ele me abraçou fortemente e me deu um beijo longo. Eu quase chorei ao vê-lo. Estava mais lindo do que nunca.

- Você é um idiota, Lucas, um idiota! Eu achei que você tinha mentido para mim.

- Meu amor, me desculpe. Eu quis fazer uma surpresa para você. Eu jamais mentiria para você, Morgana. Jamais.

- Mas acontece que eu não gostei da surpresa. Você é louco mesmo. Eu até pensei em voltar para casa só amanhã, de tanta raiva que eu fiquei. Você ficaria aqui plantado para sempre.

- Não está feliz em me ver? – Falou isso e me deu outro beijo mais demorado ainda.

Ele estava com Emanuel no braço e eu não tinha reparado. Estava tão eufórica que só pude olhar para ele. Ele me apresentou Emanuel. Era a cara dele e a criança mais linda que eu já tinha visto. Ele pediu que eu pegasse algumas roupas, que naquele mesmo dia eu iria para a casa dele.

- Mas como, já está tudo pronto na sua casa?

- Retifique-se, Morgana. Aquela casa não é só minha, é nossa!

Fiz uma pequena mala e fui com ele. A casa dele era linda. Digo, a nossa casa. Ele disse que os movéis eram os mesmos, pois ele alugava a casa por temporada. A minha mudança iria ser feita um dia depois, mas eu não levaria muita coisa, lá não faltava nada. E até por que o que tinha ali não se comparava ao que eu tinha em casa. Mas ele me disse uma coisa: que não dormiríamos naquela cama, onde ele dormiu com Mirian. Preferia uma outra cama e eu sugeri a minha. Eu havia comprado logo após a prosperação da Casa Oito. Era maravilhosa e eu ainda não havia inaugurado, não da forma verdadeira de se inaugurar. No mesmo dia, ele mandou buscá-la.

À noite, fomos à Casa Oito, eu e ele, juntos. Deixou Emanuel em casa com a ama de leite. Ela havia chegado no final da tarde. Chegamos na Casa Oito e havia carros de polícia da frente. Marlene estava lá na frente, a polícia havia isolado a casa. Eu fui conversar com ela e perguntei o que havia acontecido. Ela me falou em meio a lágrimas:

- Raul apareceu aí e estava muito bêbado. Ele gritava seu nome, Morgana. Mas dissemos a ela que você chegaria mais tarde. Ele parecia estar possuído ou algo do tipo... Chamou-me e disse: “Então traga a puta mais bonita que você tiver aí”. Vitória se ofereceu sem hesitar. Eu disse que não precisava, pois ele não estava em seu estado normal. Eu conhecia Raul, mas ao vê-lo como eu vi, percebi que não conhecia mais. Ele pediu o quarto principal, mas estava ocupado. Ficou furioso e jogou várias notas de dinheiro no chão dizendo que queria naquele instante. Tive que expulsar os que estavam lá. Raul puxou Vitória violentamente e a levou para o quarto. Após alguns minutos, ouvimos gritos e percebemos que não eram gemidos. A porta estava trancada e Vitória pedia por socorro. Chamamos a polícia, mas já era tarde demais... Ele matou Vitória e logo após se matou. Deixou um bilhete no quarto para você...

Eu não queria ler o bilhete, mas Lucas fez questão de ver. No bilhete, Raul disse que nunca amou ninguém como me amou e que eu tinha arruinado a vida dele ao dizer-lhe não e que a vida dele não tinha mais sentido. Fiquei arrasada com a notícia. Marlene disse que ia fechar a Casa Oito por um bom tempo para abaixar a poeira e evitar boatos e fofocas.

Lucas ficou sem entender, mas no caminho, eu lhe contei tudo. Disse que ele me havia feito uma proposta logo no dia que eu recebi a carta dele. Revelei que fiquei confusa, mas decidi que era com ele que eu queria ficar. Lucas me abraçou e me consolou. Ele percebeu meu estado e prometeu que iria me proteger de qualquer coisa.


É incrível como as coisas são. Aos quinze anos eu perdi minha mãe, aos dezesseis fui me prostituir na rua e aos dezoito já estava em um prostíbulo. E hoje, com vinte e dois anos, estou praticamente casada com o homem que eu amo e sou quase uma mãe para o filhinho dele. Eu poderia estar com Raul no seu belo apartamento ou poderia ainda estar na Casa Oito, ganhando muito com os novos clientes. Mas esse foi meu destino e de jeito nenhum eu estou reclamando dele. Há alguns anos, eu nunca me imaginaria morando com Lucas, depois de ter sido uma garota de programa.

É, ainda me considero uma garota de programa. Uma vez garota de programa, sempre garota de programa. Nunca me considerei prostituta, acho a palavra muito vulgar. Na verdade eu já fui prostituta, quando comecei a ir para a rua aos dezesseis. Mas só foi naquela época. Quando eu fui para a Casa Oito, minha profissão era garota de programa. Nem puta, vagabunda, nem prostituta. Garota de programa. É verdade que eu sinto falta das opções, não vou negar. Todo dia eram homens diferentes, cada um melhor que os outros. Eu gostava do meu trabalho e fazia com prazer. Com prazer duplo, se é que me entendem.

Mas eu me considero uma pessoa de sorte hoje em dia. Qual garota de programa iria achar um homem como Lucas para amar e ser amada? Pode até existir como eu, mas é muito raro. Lucas prefere não saber com quantos homens eu me deitei durante esses anos. Acho que eu não faço muita idéia da quantidade, mas creio que uns quinhentos, aproximadamente. Ele não quer saber, então eu não vou dizer. Mas eu adquiri muita experiência ao todo, não só em relação ao sexo, como todos pensam. Eu conheci os homens. Hoje eu tenho mais conhecimento disso e não precisei de uma vida toda para conhecê-los. Tenho apenas duas décadas e já os conheço quase perfeitamente. Já vi tanta coisa que tem gente que nem imagina. Eu não estou falando de tamanho ou algo do tipo... Mas se for para falar disso, então eu posso dizer. O menor que eu vi tinha dez centímetros e o maior, vinte e quarto. Pois é, nessa profissão, a gente vê de tudo e ainda mais. Às vezes me pergunto como eu consegui fazer algo com o menor. Eis a resposta: profissionalismo. Eu usei isso muitas vezes, outras nem tanto. Com Lucas, eu não usei o profissionalismo. Na primeira vez, sim. Mas depois, creio que não. E hoje em dia, de jeito nenhum. Uso minhas artimanhas e disso eu tenho muita.

Como eu disse, é incrível como as coisas são. Vivo muito bem, como eu sempre quis. Ainda não arranjei algum trabalho ao meu nível, acho difícil alguém aceitar uma ex-garota de programa, principalmente porque eu fui de um prostíbulo famoso. Imagina meu chefe, um ex-cliente... Não daria certo. Mas vou ver o que eu sei fazer de melhor. Em segundo lugar, claro. O que eu faço de melhor em primeiro lugar é s-e-x-o!



2 comentários:

  1. Me 'ermocionei' na parte de Raul =~
    Eu gostava deeeelee, véliow. Iaheiaueae
    Acabou? NOOOOOOOOT escreve mais, V!
    Quero saber como Morgana tá com Lucas e o filhotinho :)

    :*

    ResponderExcluir
  2. gostei (:

    ainda não vi esse filme, mais concerteza vou ver *-*

    beijos ;*

    ResponderExcluir

Me incentive um pouco mais.