19 de maio de 2010

Seres inanimados no quarto.

Travesseiro: Estou irritado! Esse cabeção todo dia deita em mim. É um peso...

Colchão: Para de reclamar você aí. Você só suporta o peso da cabeça dele. E eu que tenho que aturar aquele corpo cheio de banha.

Madeira: Eita que esse povo hoje tá cheio de frescura. Eu suporto vocês dois e ele. O peso é beeeem maior.

Cama: Chega de conversa. Sou eu que suporto o peso maior. Meus quartos vivem doendo. Eu tenho que segurar os três e aquele barrigudo, ora essa. O que menos sofre é você, Travesseiro.

Travesseiro: É, é. Verdade. Mas você não viu como ele me deixa brega? Olha só essa fronha cheia de flores. Ó como sofro!

Chão: Vocês são muito idiotas. Vocês só suportam ele na hora de dormir, que é no máximo oito horas. Eu sustento esse balofo toda a hora do dia, e até quando ele está dormindo, que é o triplo, ou mais. Ele, Travesseiro, Colchão, Madeira, Cama. Vocês reclamam da boa vida que tem.

Cama: Eu sou muito pesada para você, Chão?

Colchão: É, coitado de Chão. Vive sujo e ainda suporta o peso de todos nós.

Chão: Só de vocês não. O Guarda-roupa, o Ventilador, a Cômoda, o Cabide, e por aí vai. Isso só no quarto. Imaginem pelo resto da casa. Eu sou o escravo daqui.

Guarda-roupa: Eu tenho que suportar tanto treco. Esse balofo só guarda besteira. Pior é quando ele guarda comida em mim e esquece. Eu tenho que aturar o mal cheiro até que ele lembre e jogue fora.

Ventilador: Eu não paro um minuto para ele. Tenho que ficar rodando oito horas sem parar. E não é só isso. Quando ele não está no quarto, vai para outro lugar e me leva junto.

Cômoda: E esse porta-retrato brega que ele me manda sustentar? Minha nossa!

Cabide: Ainda bem que eu sou magrinho e ele não coloca quase nada em mim.

Cama: Eu também sou magrinha, mas agüento muita coisa, viu?

Madeira: Um dia eu quase que fui partida ao meio. Tive medo de morrer. E não tenho escapatória. Nem o Chão pode me salvar.

Chão: E mesmo que eu pudesse. Já não basta sustentar vocês. Eu vivo sujo. Derramam em mim água, suco, comida, um monte de porcaria. E quando cai um copo de vidro? Eu mesmo não salvo. Deixo ele se espatifar todo.

Ventilador: Nossa, Chão, que maldade.

Chão: Eu não tenho obrigação com ninguém aqui. Sou escravo sem carta de alforria. O meu destino é esse. Nunca vou sair daqui. Vocês podem sair, se ele se mudar. Ver novos ares. Eu não, estou condenado aqui, portanto não poupo ninguém.

Cama: Nem eu, Chão, que sou sua melhor amiga?

Chão: Você pode se defender.

Guarda-roupa: Você é muito dramático, Chão. Não é só você que está condenado. Eu também estou. Não vê que estou preso à parede?

Cabide: É verdade, Guarda-roupa. Se o balofo se mudar, eu vou sentir tanto sua falta. A gente compartilha quase as mesmas coisas, como roupas, bolsas... Não quero me separar de você.

Colchão: To vendo clima de romance aqui. Hahaha

Madeira: E não é, Colchão? Eu sempre desconfiei que o Cabide era gay e apaixonado pelo Guarda-roupa. Quando o balofo colocava os dois lado a lado, eles ficavam cochichando para ninguém ouvir.

Cabide: Ei, parem com essa fofoca. O Guarda-roupa é só um amigo para mim. E eu não sou gay coisa alguma.

Cômoda: Gente, ele não gostou nada disso. Tá estressadinho, olha!

Todos, menos o Cabide e o Guarda-roupa riram.

Guarda-roupa: Vocês estão é com inveja da nossa amizade. Só por que a gente se conheceu primeiro.

Chão: Até que vocês fazem um casal bonitinho. Daqui de baixo eu vejo.

Cabide: Ah, mas eu vou revelar algo aqui que vocês não vão acreditar! O Chão está apaixonado pela Cômoda.

Cômoda: O que é que tem eu aí? Pode repetir?

Colchão: Tão dizendo aqui, Cômoda, que o Chão é apaixonado por você. Você sabia disso? Você é a única que ele suportaria a vida inteira sem reclamar.

Cômoda: Isso é verdade, Chão?

Chão: Você não está vendo que ele está inventando? É tudo mentira. Mas eu suportaria você pelo tempo que você quisesse.

Cama: Com essa, ele assumiu!

Madeira: Não adianta negar.

Chão: Cabide falou isso para vocês perderem a atenção nele e no Guarda-roupa.

Cabide: Foi o que eu ouvi por aqui.

Travesseiro: Vamo deixar de palhaçada!

Ventilador: É, né? Eu to cansado de ouvir vocês falando besteiras.

Madeira: Calem-se!

Guarda-roupa: O que foi?

Colchão: Acho que ela ouviu alguma coisa. É, acho que são vozes.

Porta: EEEEEEEEEI, silêêêncio! O balofo ta vindo!

...

Balofo: Vem, meu amor. A cama nos espera.

Balofa: Estou indo, amor.

...

Cama: Me ferrei! Dois balofos! AAAAAAAH!

Travesseiro, Madeira, Colchão, Chão: Nós também! Nããããão!

Guarda-roupa, Ventilador, Cômoda, Cabide: Boa sorte, gente! Hahaha

5 comentários:

  1. HAHAHAHAHAH
    Consigo imaginar todos os objetos se mexendo e falando sem parar. Objetos inanimados são bem chatos quando animados. Ainda bem que são inanimados.
    Adorei! Ainda mais agora, que to lendo toda essa coisa de surrealismo e tal. Muito bom, Inecya. Ficou muito divertido e coisa bem original. Gostei mesmo :D

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  2. Bacana a idéia e a criatividade. Me lembrou os bonecos de Toy Story :D
    Um beijooo

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  3. lembrei do "apple", da laranja chata!
    haha, ainda bem que não tem palavrão, amanhã vou te mostrar um negócio e aí vc vai poder aproveitar esse texto em outro canto!
    haha

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  4. Muiiiiiito legal !!!!! Criatividade nota 10 SHOWWWW

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Me incentive um pouco mais.