21 de maio de 2010

No divã do Dr. PIIIIII

Minha mãe dizia que eu era louco e que precisava ir ao psicólogo. Assim, não louco que precise de um psiquiatra, mas um louco ameno, que precisa ir ao psicólogo. Um louco com problemas é isso! Eu tenho dezessete anos e nunca tive problemas graves que precisasse de ajudas alheias, tipo, ajuda médica. Mas essa época da minha vida andava meio complicada mesmo. Eu tinha muitos amigos, sabe. Eu era praticamente o popular da escola. Todos me adoravam, as garotas eram loucas por mim. Eu tinha meu charme. Eu tinha, não tenho mais. Acontece que, não sei realmente o que aconteceu. Fui perdendo meu espaço e assim, perdendo meus amigos. Isso na época que meu pai trocou minha mãe por uma vagabunda. É, às vezes a separação afeta mais os filhos do que os pais. Na verdade, só afeta os filhos mesmo, porque quando eles querem se separar, já não se amam mais e estão felizes pois não vão precisar conviver mais alguns anos. Mas minha mãe mesmo não ficou feliz, claro. Ser trocada por uma vagabunda não é fácil. Mas ela supera rápido as coisas. Eu não. Hoje eu odeio muito meu pai. Não faz nem um ano que ele nos deixou, mas é como se fosse há muito tempo. Ele nem sequer vem nos visitar, pra saber como estamos. Só manda o dinheiro. É a obrigação dele, pelo menos. Ano que vem eu faço dezoito anos e não quero nem saber. Quero que ele gaste todo o dinheiro que ele gasta com a vagabunda e me compre um carro. Minha mãe diz para eu não extorquí-lo, mas esse vai ser meu trabalho a partir de hoje. Ele não dá a mínima, então nada melhor do que sugar o dinheiro de um pai idiota.
Como eu disse, minha mãe disse que eu precisava de um psicólogo. Até pensou em falar com meu pai, mas eu pedi que não fizesse isso. Eu combinei com ela de pedir o dinheiro a ele e com isso, ela pagaria. Eu não queria que soubesse que ele era a causa principal de estar indo ao psicólogo. Fora isso, minha mãe dizia que eu estava louco com essa idéia de extorquir meu pai. Tá, pode até ser loucura, mas eu sempre vivi no conforto quando ele estava aqui e não é por causa disso que eu vou deixar de viver assim.
Num belo dia, de belo não tinha nada, eu fui com minha mãe num consultório de um doutor muito louco. O nome dele era Dr. PIIIIII. Deixa-meeu falar de novo, Dr. PIIIIIIIIII. Nossa, o nome dele não saia de jeito nenhum. Era só Dr. PIIIIIIII mesmo e cada vez com mais Is.
Ele me parecia gente finíssima. Er, assim, gente finíssima não na aparência, sabe? Isso era o contrário. Era tão gordo que tinha um sofá de ferro. Nem cadeira era. Para falar a verdade, eu nunca tinha ido antes ao psicólogo, então tudo era novo para mim. Eu pensei que eu que sentaria no sofá e não ele. É, tudo bem, eu não fazia questão mesmo. Mas como eu tava falando, ele era muito legal. Recebeu-me super bem e disse que nossas conversas iam ser bem interessantes. Disse isso com os olhos arregalados e com a boca fechada(?) e eu tive medo nessa hora. Eu, sozinho, com um gordo louco feito ele, tendo conversas interessantes? Tive vontade de escapar naquela hora, mas já era tarde demais. Então, ele me guiou até o divã que aparentava ser confortável e que era muito grande que tinha perto do sofá dele. Acho que ele fez grande porque poderia aparecer um paciente tão gordo quanto ele ou mais. Aí acho que os dois teriam que dividir o sofá, ou não. Eu fico imaginando como seria se um gordão viesse se consultar. Acho que se tivesse dois dele naquele sofá, o sofá afundaria. E olhe, não é exagero meu. Ele era muito gordo mesmo, pra caramba. Nem imagino quanto que ele pesava. Deve ser na faixa dos duzentos.
Ah, eu penso muita besteira, principalmente quando conheço gente nova. Mas ele era só meu psicólogo, não seria meu amigo. É, até que poderia ser meu amigo sim. Eu teria que confessar para ele tudo o que eu sentia, pensava e achava. Sobre tudo. Eu não sei se eu conseguiria fazer isso, apesar de ele ser experiente, ele era estranho para mim e eu não contaria meus segredos para um estranho. Mas se eu tava ali, eu teria que contar.
Sentei-me no divã e era mesmo confortável. Eu fiquei tão bem lá que pensei em nunca sair, mas nós tínhamos apenas uma hora para conversar. Mesmo antes de a gente começar, eu já estava pensando em voltar lá toda a semana, só por causa do divã. Acho que ele pôs alguma coisa ali, alguma sensação, para quem sentasse nunca deixar aquele lugar. Será que ele seria capaz de fazer isso? Ele teria clientes a vida toda e não precisava se preocupar mais. Cliente fixo é sinônimo de dinheiro.
Como eu disse, eu penso muita besteira e o Dr. PIIIIII percebeu que eu estava pensando algo. Será que ele leu minha mente e agora sabe o que eu penso dele? E eu ainda não entendo, toda vez que eu vou falar o nome dele, eu não consigo e só sai PIIIII. Ta, dessa vez eu tentei falar o nome e não saiu de jeito nenhum. O nome dele nem é feio. Será que ele fez um feitiço para eu nunca conseguir dizer o nome dele? Ah, sei lá. Se eu pudesse dizer o nome dele, eu poderia indicá-lo a alguém. Mas será que ele quer se indicado? Não sei. Estou num dilema tentando descobrir isso. Fico até pensando que ele é um mágico ou sei lá o que, que me trouxe até aqui com seus poderes. Porque se ele não pode ser indicado, como minha mãe o descobriu? Acho que foi uma amiga dela, mas acho que essa amiga indicou esse consultório, que tem vários psicólogos e eu caí bem no divã desse louco e gordo.
O Dr. PIIII me olhava com uma cara de quem ia me comer. Mesmo estando nesse divã, eu queria sair daqui. E levar comigo o divã, claro. Mas onde eu colocaria? Tudo bem que minha casa é grande, mas é cheia de móveis e trecos que minha mãe espalha por lá. Eu acho que cabe no meu quarto. Éééé! No meu quarto cabe. É só eu tirar um trambolho velho lá que a minha mãe tinha coragem de chamar de divã e que era apenas uma cadeira. Divã é isso que eu coloquei minha bunda agora, aquilo no meu quarto não é divã. Ah, mas é só um sonho. Eu nunca conseguiria levar esse divã para minha casa, nem que eu derrubasse o Dr. PIIIIIII no chão. Só de pensar vendo o Dr. PIIII caindo no chão, me dá vontade de gargalhar. Imagina uma coisa gorda caindo no chão? Eu penso que essa imagem seria em câmera lenta e uma imagem sem som, surda. Só na hora que ele alcançasse o chão, iria fazer um barulho. BUUUUUUM! Não, né? Derrubar o Dr. PIIIIII era impossível. Se eu pensasse nisso, ele já estaria em cima de mim, me esmagando. Esse cara era esperto. Ele parecia ler minha mente mesmo.
Fiquei sentado por um bom tempo, calado, enquanto ele lia minhas fichas. Que fichas? Pra quê porra de ficha, se é só uma conversa entre homens? Eu estou sendo muito ignorante quanto a isso, ne? É porque eu nunca fui a um psicólogo e não entendo nada disso, essas burocracias, se é que se chama assim.
Ele falou alguma coisa para mim, que eu ouvi, mas não vi a boca dele se mexer, de novo. Ele continuou falando, eu continuei ouvindo e a boca dele continua do mesmo jeito. Será que ele se comunica comigo por pensamento? Coisa mais estranha.
Então ele deixou sua cadeira, também de ferro, e sentou-se no sofá. E eu percebi que ficaria de costas para ele. Bem melhor do que falar e olhar para aquela cara de louco dele. Eu comecei a falar mesmo sem ele me pedi. Acho que ele me pediu telepaticamente.

“Dr. PIIIIIII. Olá, meu nome é ... Ah, eu sei que você já sabe meu nome. Eu pensei que queria ouvi da minha própria boca. ... Ta, ta bem, vou direto ao assunto. Mas peraí, posso perguntar uma coisa? ... Posso mesmo? ... Ok, porque toda vez que eu vou falar o nome do senhor ... Ah, desculpe, você não gosta que chamem o senhor de senhor? ... Eeeer, desculpe novamente, me descuidei. Mas continuando... O que? Se eu to com calor? Não, não. Aqui tá ótimo. Por que eu não posso pronunciar o seu nome? Quer dizer, por que eu não consigo pronunciar o seu nome? ... Não, eu não consigo. Eu sempre tento falar o nome do senh, ops, o seu nome, mas sempre sai um PIIII. ... Você não quer falar sobre isso? ... É, desculpe, o paciente aqui sou eu, é verdade. ... Ta, eu vou começar. Como você sabe, meu pai deixou minha mãe. ... O que? Você não sabe? ... Ah é verdade, eu estou contando agora, pensei que sabia. ... Vou prosseguir. Certo, meu pai deixou minha mãe por uma vagabunda há um ano e eu não estou nem afim de perdoá-lo por isso. Ele quase nos deixou na mão, por sorte, minha mãe tinha economias. Éramos ricos e felizes, até ele fazer isso. Eu ainda não vi a cara dele desde que ele deixou a minha casa e nem quero. Acho ele um idiota. ... Eu sei que é meu pai, mas ele nem liga pra mim. ... Falo com ele sim, mas só por telefone. ... Ele pergunta se eu to bem, mas ele sabe a resposta. Acho que pergunta só por ironia. ... A vagabunda? Não quero ver na minha frente nem pintada de ouro. Mas enfim, quando ele liga, eu cobro o dinheiro. E exijo muito dinheiro. Pra manter aquela casa, minha mãe teria que trabalhar o triplo, ou mais. ... Vender? Nunca. Eu sempre morei ali e não quero deixar o conforto. E morando naquela casa, eu tiro mais dinheiro dele. ... Eu não me importo não. Ele já gastou muito mais só com ele e com a vagabunda. Já fizeram viagem e tudo mais para fora do país. ... Se eles tiverem um filho, eu vou fingir que eu não tenho irmão. Eu não agüentaria saber disso. A culpa é toda dele, que a minha vida tá assim. ... É claro que eu tenho certeza! Ele estragou a nossa vida, a minha e a da minha mãe. ... É, ela não parece bem, ela está bem. Ela se livrou dele, ne? Admito que foi melhor para ela, mas eu não queria que a separação fosse dessa forma. Se pelo menos ele disfarçasse...”

E lá vai o trem. Eu falei muita coisa sobre a separação dos meus pais, o quanto eu odiava meu pai, e o quanto eu o extorquia. E ele, como sempre, falava, mas não mexia a boca. Eu até me acostumei com isso, mas ainda me é estranho. Depois de conversar sobre meus pais, começamos outras conversas e acho que foi até interessante. Não, não foi interessante, ele me fez achar isso, com seu poder de manipular as mentes. Estou achando que cada vez mais que eu converso com ele, eu percebo outros poderes.

“... Se eu já transei? Essa é uma pergunta muito pessoal, Dr. PIIII. ... Eu sei que é normal, mas eu não sei falar sobre isso com ninguém. ... Tá louco que eu falaria para minha mãe? Ela ainda pensa que eu sou o bebê dela, imagina se descobrisse que eu já transei. ... É, acabei falando, ne? Como você consegue isso, persuadir as pessoas a falarem o que não quer? ... Eu não queria falar isso, e o senh.. você acabou me fazendo falar. ... É, eu admito que falei, ok. ... Ah sim, perdi com dezesseis anos. No ano passado, na verdade. Foi com uma amiga minha. ... Não, só foi essa vez mesmo. ... Quase todo o dia eu me masturbo. Mas pra que você quer saber isso? ... Interessante pra você, ne Dr. PIIIII. Eu morro de vergonha de falar essas coisas.”

Tá, eu nem acredito que o Dr. PIIII me fez falar sobre essas coisas. Ele é mesmo um louco. E mais louco sou eu, que respondo essas perguntas pessoais. Na verdade, quase ninguém sabe sobre isso, só a menina, claro, e um amigo nosso. Eu queria de novo, mas ela namora agora e eu ainda tenho muita vergonha. O Dr. PIIIII tocou no meu ponto fraco.

“... Eu não sei por que eu tenho vergonha, Dr. PIIII. Eu nunca falei abertamente sobre isso com ninguém. ... É, eu sei que é pra isso que o senh, você serve. Mas vamos mudar de assunto? Já falei demais sobre isso. ... Sim, a minha vida mudou muito depois que meus pais se separaram. Eu era o popular da escola, sabe? Já fiquei com muitas garotas de lá e como você pode ver, eu sou muito bonito e charmoso. ... É, ne? Às vezes eu tenho minha modéstia. Ainda bem que eu puxei à minha mãe. Aquele traste do meu pai... ... Ta, foi mal. A conversa sempre leva a ele. Mas sim, com isso que aconteceu, eu faltei muitas aulas e ainda falto hoje. Problemas de casa sempre me afetaram, acho que é porque eu não tenho um irmão ou irmã pra compartilhar essas coisas. Aí meus amigos acabaram me esquecendo e quando eu voltei, já tinha outro no meu lugar. ... É, outro. É porque eu era tipo o guia do grupo. Eles me seguiam o tempo todo. ... Não é ruim não, eu pelo menos nunca achei. Me sentia um líder. Tudo o que eu pedia, eles faziam. ... Eu nunca explorei ninguém, Dr. PIIIII. Eles que escolheram fazer isso e eu acabei me acostumando. Voltando, quando eu cheguei na escola, eles nem olhavam para mim direito, pareciam com raiva e eu não dei nenhum motivo para isso. Eles nem quiseram saber se eu estava bem, o que tinha acontecido para eu faltar tantos dias. ... Sim, eu tenho certeza, não fiz nada a eles. Acho que esse novo ‘líder’ tinha inveja de mim. Ele nem pertencia ao nosso grupo e aceitaram ele rapidinho. Eu quero sair de lá. ... Não, eu não vou me acostumar. E sem amigos, o que eu vou fazer? ... Arranjar outros? Eu só gostava deles, apesar de todos gostarem de mim, mas eram um bando de mesquinhos e eu sentia que eles tinham um pouco de interesse em mim, por que eu sou rico e tal. ... Não, eu não dava dinheiro pra ninguém. É que alguns fins de semana, eu fazia uma festinha lá em casa, quando meus pais iam pro motel. ... Eles me diziam, oras. Como eu ia adivinhar? Ai eu aproveitava e fazia a festinha e tudo era por minha conta. ... É claro que eu avisava a eles, ne? Tenho vizinhos fofoqueiros, eu não arriscaria minha pele. Sim, aí esses que se diziam meus amigos só ficavam perto de mim pra conseguir um convite. Mas se bem que nem precisava dessa babação toda, eu iria dá de qualquer forma, até porque quanto mais gente numa festa, melhor. ... Não, só música e algumas bebidas, nada de drogas e sexo. Eu que não iria deixar os pervertidos fazerem na minha casa.”

Conversei muito com ele ou conversei sozinho. É, eu ainda estou intrigado com essa história. A sessão acabou e eu tive que ir embora. Eu nem queria me levantar daquele divã. Mas levantei, ne? Quando me levantei, senti um clima diferente, pesado. Eu me sentia tão leve naquele divã que em uma hora eu já estava acostumado com ela. Ele me disse, novamente de boca fechada, que a gente teria uma próxima sessão na outra semana. Eu já estava ansioso, não para conversar com ele, mas pra me sentar naquele divã. Eu perguntei onde ele comprou, só que dessa vez ele não respondeu e me deu um risinho e abriu a porta pra mim. Minha nossa! Esse riso dele foi meio maléfico. E ele praticamente me expulsou dali. Ta bom, eu teria que sair dali a qualquer hora mesmo. E já estava ficando tarde. E eu percebi que eu fui o último paciente dele. Desci as escadas. É, esqueci de falar que o divã dele ficava no primeiro andar. Não tinha ninguém na recepção, nem a recepcionista. Pra variar, achei tudo muito estranho. Tava silêncio demais para uma hora daquelas, que todos largam do trabalho e vão para casa. Depois de um tempo, eu escutei alguns passos na escada e me escondi. Era o Dr. PIIII. Eu não tinha nada pra fazer em casa mesmo e decidi seguí-lo. Ele foi ao estacionamento e infelizmente estava de carro. Como eu ia seguí-lo até a sua casa? De repente, percebi que ele havia esquecido alguma coisa e voltou para buscar. Burro ele. Deixou o carro aberto e eu aproveitei para me esconder no banco de trás. Fiquei agachado lá e ele não conseguiria me ver, só se fosse lá trás. Temi que ele abrisse a porta para guardar alguma coisa, mas quando ele voltou com uma maleta, colocou-a no banco do lado.
Foi uma viagem muito grande até chegar a casa dele. Ele desceu do carro e soou o alarme. Como eu iria sair dali? Não sei como fiz, mas eu sai sem disparar o alarme. A casa era estranha e aparentava que ele morava sozinho. Fui espiar pela janela da sala. Acho que ele estava no quarto. Passei um bom tempo e não vi nada. Decidi ir embora, mas quando dei meia volta, dei de cara com ele. Levei um grande susto.

“... Me desculpe, Dr. PIIII. É que eu queria saber onde você morava. ... Não, ta certo, eu não venho mais aqui, me desculpe.”

Sai correndo dali. Ele tava uma cara muito mais estranha. Acho até que ele esqueceu a maleta de propósito, pra me fazer entrar no carro dele. Mas se ele não queria que eu soubesse onde ele morava, porque me deu aquela brecha? Decidi nunca mais ir naquele lugar, até porque eu falei a ele que não iria mais.
Na outra semana, na hora marcada, eu fui de novo para o consultório. Tive que esperar um pouco na recepção, pois ele não havia chegado. Mas a recepcionista me mandou subir, para esperar ele lá. Eu nem gostei da idéia, ne? Corri as escadas e quando cheguei lá, me joguei no divã. Agora eu estava mais tranqüilo, sentado ali. Se ele chegasse, e eu não estivesse ali, tremeria de medo. Depois de pouco tempo, ele lá chegou. Tinha um sorriso muito feliz estampado na cara. O que será que tinha acontecido?

“Mais uma vez, Dr. PIIIII, me desculpe por aquele dia, eu não queria lhe... ... Ta certo, então. Qual será o tema de hoje? ... Eu que escolho? Queria mais escutar hoje do que falar. ... É impossível? Ta bom, desculpe mais uma vez.”

Eu acho que ele achava que eu era um paciente pertinente. Eu não tinha a mínima intimidade com ele, mas ele tinha comigo. Eu não conseguia o fazer falar o que eu queria, mas ele conseguia.

“... Não, a semana foi tranqüila. Voltei para a escola, fiz uns amigos novos. ... É, me juntei com os nerds lá, já que meus amigos, que eu ainda tenho coragem de chamar de amigos, me rejeitaram. Mas estou indo bem. Foi até melhor conhecê-los. Minhas notas estavam baixas e eles me ajudaram e elas estão melhorando aos poucos. Teve prova essa semana e ainda tem semana que vem. ... Vestibular? Só ano que vem, ainda sou segundo ano. ... Eu ainda não sei o que fazer, mas penso em área de saúde.”

Ele parecia gostar da idéia quando falei que gostaria de fazer algo na área de saúde. Quando eu falei isso, ele levantou a sobrancelha, como que se admirando.

“Onde fica o banheiro, se é que aqui tem um? ... O senhor me espera um minuto? ... Desculpe, você... ”

Não sei por que, mas naquela hora eu precisava muito ir ao banheiro, mas não era necessidade fisiológica, era física mesmo. Masturbei-me no banheiro o mais rápido que pude. Eu já estava ereto, então seria fácil. Gozei rápido, me lavei e joguei água gelada para amenizar a situação. Do jeito que ele nota as coisas, ele me perceberia ereto.

“... Hã? Não, eu estava apertado, bebi muita água. ... Como você sabe que eu fui me masturbar? ... Eu tava precisando, desculpe. Essa semana eu não fiz e me deu vontade agora.”

A sessão desse dia acabou cedo. Ainda bem, eu estava encabulado com aquilo. Ele me fez ir ao banheiro? Foi ele que me fez ter essa vontade? Não sei, mas eu sinto que foi. Será que ele contaria para a minha mãe?
Cheguei em casa nesse dia muito cansado. Não sabia de onde tinha vindo esse cansaço. Pensei mais uma vez que tinha sido ele que colocou algum peso em mim para eu ficar cansado desse jeito. Dormi cedo e quando acordei no outro dia, mexi na minha mochila e tinha um bilhete do Dr. PIIII. Encaixei tudo. Ele me fez ir ao banheiro me masturbar, só para poder ter tempo de colocar esse bilhete:



Fiquei muito mais ansioso do que nunca. A semana iria demorar muito para acabar? Não sei. Fiz de tudo para me ocupar, mas não consegui. Eu finalmente iria descobri por que o Dr. PIIII era tão estranho.
A semana passou devagar, mas o dia chegou, finalmente. Cheguei da escola, tomei meu banho e nem almocei. Corri para o consultório. Cheguei lá, era outra recepcionista e ela disse que nunca houve algum Dr. PIIII naquele consultório. Eu disse a ele que tinha ido lá nas últimas duas semanas e pedi para ele checar. Meu nome não constava no cadastro de pacientes.
Decidi ir então à casa dele. Quando eu fui embora naquele dia que eu segui o Dr. PIIIII, anotei o endereço, claro. Ainda bem que eu tinha anotado e que estava com o endereço em mãos. Eu nunca poderia chegar lá sem o endereço. Fui de carro, mas não vi o caminho, então seria difícil me lembrar.
Peguei um táxi, seria mais rápido. Dei o endereço e ele foi correndo. Não demorou muito para chegar, como da última vez que eu fui de carro com o Dr. PIIIII. Contei as casas e justo aquele terreno que teria a casa dele estava vazio. Como assim vazio? Eu tinha ido lá há duas semanas, como uma casa pode desaparecer assim? Perguntei aos vizinhos e eles disseram que o terreno estava à venda há mais de quatro anos. Mas uma vez eu questionei, como havia questionado na recepção e eles disseram que nunca houve um vizinho chamado Dr. PIIIIII.
Peguei o bilhete e li diversas vezes, mas não consegui entender. Percebi que tinha pequenos riscos e então peguei uma lupa que eu tinha na minha mochila. É, parece que eu estava com sorte naquele dia. E eu vi o bilhete assim:



Ainda bem que eu não morri. Ele disse que "curiosidade mata". Nunca consegui desvendar o mistério do Dr. PIIIIII. Ele tinha poderes, isso eu sei. Ele falava sem mexer a boca, lia meus pensamentos, fazia com que eu falasse as coisas e ficasse encabulado, fazia com que eu fizesse coisas que eu não queria. Aquele divã tinha algo mágico e eu tenho certeza de que eles, o divã e o Dr. PIIIII existiram. Aposto que ele contratou aqueles vizinhos e aquela recepcionista para me dizer aquilo. Não é possível que alguém exista e depois deixe de existir dessa maneira. Eu fico pensando, será que aquele divã ainda existe naquele consultório? Eu iria até lá, mas depois desse mistério, tinha medo de voltar. Ainda mais com aquela frase que eu vi. Acho que vou enlouquecer. Só espero que minha mãe não me mande para outro consultório que nem esse.





No dia seguinte:

- Mãe, eu deixei de ir pro psicólogo. O Dr. que me atendia não está mais lá. Isso é estranho.
- Filho, eu marquei a consulta para você hoje, você ainda não foi ao psicólogo. Andou sonhando?
- Não, mãe. Eu fui semana pass...
- Isso é só pra se livrar, ne? Não conseguiu. Olha, você vai amanhã e eu vou lhe levar. O Dr. é ótimo. O nome dele é Dr. BIIIIIIII.


...

3 comentários:

  1. Preciso de um psicólogo já!
    tenho mais de 5 conclusões e_e
    to ficando doida já!
    medo de ir pro psicólodo do Dr. PIII, BIIII, MIIII, aah, não importa -.-'

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  2. Viajo demais com essa tua criatividade. E é criatividade MESMO. Tu cria coisas totalmente do zero, velho, como pode? São coisas das quais ninguém nunca falou ou escreveu, e tu vai lá e cria e fica muito bom.
    Adorei a história e o jeito como tu conseguiu descrever as sensações e os lugares. Ta cada vez melhor, Inercya :)
    A historia é bem viajada, coisa que gosto de ler. O melhor de tudo, com certeza é o nome do Dr. HAHAHA Como consegues pensar numa coisa dessas, menina? Demais demais.

    :*

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