11 de maio de 2010

Navio Amigo.

Conheci Pedro quando eu tinha sete anos. Nós fomos criados juntos e vivíamos um colado ao outro. Sempre. As lembranças que tenho dele não são poucas. Foi muito engraçado quando eu me mudei para a rua dele. Lá só tinha garotos e nenhuma garota. Incrível isso, né? Eu não queria me mudar de jeito nenhum, tinha minhas amigas na antiga rua. Sabe como é, criança não gosta de ser contrariada. Mas as circunstâncias e o destino me levaram para rua de Pedro. Chorei muito, mas foi inevitável. Chorei mais ainda ao saber que naquela rua só tinha garotos. Eu não gostava de garotos. Eu estava na época em que garotos e garotas eram “inimigos”. Eles, com seus joguinhos e nós com nossas bonecas. Eu tinha jurado que não falaria com nenhum garoto daquela rua. Todos pareciam bastante bobos e estúpidos. É, eu pensava assim deles aos sete anos. Quando eu ia para escola (a minha sorte foi que não mudei de escola), eu via os outros garotos indo também. Alguns com seus pais, de carro, outros mais velhos já iam de ônibus e alguns de condução, junto comigo. Sempre reclamei à mamãe que não gostava de ir de condução. Eu era a única que ia para outra escola, ou seja, ninguém da minha escola ia comigo. E tinha muitos garotos mais velhos que eu e às vezes, eles brincavam comigo e eu não gostava nem um pouco disso. Pedro era um deles. Ele tinha nove anos. Para mim, ele era bem mais velho que isso. Parecia ter uns treze anos pela altura que ele tinha. Pedro e seus amiguinhos brincavam com todos da condução. O motorista perdia a paciência com esses garotos, às vezes. Passaram duas semanas até que, muitos dos garotos da minha rua pegaram gripe, brincando na rua quando estava chovendo. Mas Pedro não. Nesse dia, sua mãe não o deixou sair de casa. E foi no outro dia que o conheci. Tinha poucas crianças na condução e eu me sentei no meu lugar predileto, lá na frente e ao lado da janela. Eu nunca conseguia aquele lugar e nesse dia tive a sorte. Era ali que Pedro sentava com os amigos. Engraçado é que as crianças costumam sentar atrás para bagunçar, mas eles faziam diferente. Pedro sentou ao meu lado. Nesse dia, ele estava muito quieto. Provavelmente por que seus amigos não estavam lá. Eu fiz cara feia quando ele sentou. Não queria que ele brincasse comigo de novo. Mas ele não fez nada disso. Ele falou comigo. Disse ‘Olá’. Eu não sabia se respondia ou não, mas mamãe me ensinou a ser educada. Eu disse ‘Olá’ de volta, bem tímida. Eu não era acostumada a conversar com garotos, muito menos com um sentado ao meu lado. Mas aí conversamos. Parecíamos adultinhos conversando.

- Porque você se mudou para lá? Aquela rua só tem meninos.
- Não sei. Mamãe não gostava da nossa antiga rua. E ela teve alguns desentendimentos com alguns vizinhos.
- Aaaah. – Disse admirado. – Mas e o seu pai, aceitou logo assim?

Mas eu não respondi nada. Meu pai tinha abandonado minha mãe quando eu nasci. Eu me sentia triste por pensar que ele a abandonou por causa da minha existência. Ele ficou olhando estranho para mim, sem entender por que eu me calei. Então, percebendo minha tristeza, ele mudou de conversa e logo descobri que ele não era muito mais velho que eu, como eu havia pensado antes. Então eu fiquei feliz em saber que não era tão criança assim. Os outros garotos da rua, ele me disse, só tinham cara de mais velhos. Tinha até garotos de cinco anos que andavam com eles. O mais velho da turma tinha dez. Fiquei impressionada e aliviada. Geralmente quando você é mais novo, todos te excluem ou nas brincadeiras dizem que você é café-com-leite. E então partimos cada um para a sua escola. Contei a novidade às minhas amigas e elas não gostaram nem um pouco. Diziam que os garotos se aproximavam de nós para saber os nossos segredos, o que nós pensávamos deles e tal. Mas eu não pensava assim, não de Pedro, pelo menos. Eu era criança, mas eu sabia como eram essas coisas. Não liguei para o que elas disseram, afinal, Pedro era o primeiro amigo que eu havia feito na rua.
A aula terminou e a condução chegou. Pedro não estava lá, mas ainda íamos passar na escola dele. Eu aproveitei novamente para sentar no meu lugar predileto. Ele chegou com mais algumas crianças e novamente sentou ao meu lado. Eu percebi que, a partir daquele dia, nasceria uma grande amizade. Ele me chamou para ir brincar com ele e os outros garotos na rua. Eles combinavam às quatro horas da tarde. Na verdade, as suas mães haviam combinado isso, para dar tempo de eles fazerem o dever de casa. Como eu era nova naquela rua, as mães não haviam combinado isso com a minha, mas Pedro disse que falaria com a mãe dele para ir à minha casa. A sua mãe era muito educada e a minha logo simpatizou por ela.
Quando deram quatro horas da tarde, eu já havia feito todas as minhas tarefas e minha mãe ficou bastante orgulhosa de mim. Corri para a casa de Pedro, que era praticamente na frente da minha e o chamei. Ele estava terminando a tarefa e a sua mãe me convidou para entrar. Esperei pouco tempo e logo ele veio. Chamou-me para ir até seu quarto para me mostrar seus brinquedos e jogos. De cara, achei o quarto dele um máximo. Ele tinha vários postes de super-heróis colocados na parede. Tinha um vídeo game e eu achei a coisa mais legal do mundo. Ele me mostrou sua coleção de carros e bonecos e eu até gostei. E então seu melhor amigo chegou e nós fomos para rua. Pedro nos apresentou e o nome dele era Dudu. Na rua conheci os outros garotos. Acho que alguns não foram com a minha cara, incluvise Dudu. Mas não estava nem aí para eles, eu queria mesmo era brincar. Éramos dez brincando de esconde-esconde. Nenhum café-com-leite, nenhum com vantagem alguma. Eu adorei aquilo. Na minha vez de contar, achei todos eles e eles me admiraram por causa disso. Ninguém tinha conseguido isso e eu me senti a tal. Uma garota no meio de nove garotos. Eu parecia a capitã do grupo. Às seis e meia, todos voltaram para casa e Pedro me chamou para jantar na sua. Era o primeiro dia de nossa amizade e ele já estava sendo muito legal comigo, mas respondi que não podia, pois pensei que mamãe não gostaria daquilo e ela jantaria sozinha. Disse que iria outro dia.
Nos outros dias após esse, nos encontrávamos sempre às quatro horas da tarde. Às vezes era ele que ia até minha casa, eu me atrasava um pouco. Era sempre assim, de segunda à sexta. Nos fins de semana, muitos garotos iam visitar suas famílias ou iam passear. Eu sempre ia à casa da minha vovó no sábado à tarde. Ela fazia um lanche da tarde maravilhoso. Aos domingos, mamãe me levava à praia, ou ao parque ou às compras. Eu adorava!
Eu não gostava quando chegava a segunda-feira por causa da escola, mas passei a gostar. Agora eu conhecia praticamente todos da condução, por causa de Pedro. Eu me sentava com os garotos da rua e Pedro guardava para mim o meu lugar predileto.
Após alguns dias, o pessoal da minha rua e da de trás marcou uma excursão a uma cachoeira em uma cidade não muito longe. Seria no sábado pela manhã e todos os garotos iriam. Pedi muito a mamãe e ela finalmente deixou. O guia explicou tudo a ela e falou que iam mais três guias juntos com nós e que não teria perigo nenhum.
No ônibus, Pedro sentou ao meu lado e deixou que eu ficasse na janela, admirando a paisagem. Dudu ficou um pouco chateado porque Pedro não tinha sentando ao seu lado. Mas eu era uma garota e não podia ficar sozinha. A excursão foi um máximo. Tiramos muitas fotos e conhecemos toda a história daquele lugar. Depois de tudo, o guia nos deixou tomar banho e isso foi mais legal ainda. Eu estava com vergonha e acabei mergulhando de roupa. Um garoto da rua de trás, que eu não conheci, pulou de uma pedra muito alta. Isso acabou com a nossa alegria, pois o guia mandou todos se recolherem, antes que acontecesse algo.
Só de me lembrar desse dia, me dá tanta saudade. Ainda tenho uma fotografia guardada. Eu e Pedro no ônibus, sorrindo. Acho que foi a única que me restou.

Crescemos e já não íamos mais de condução e sim de ônibus. Mas um ano letivo começou e eu me mudei para a escola de Pedro, pois na minha não tinha ensino médio. Agora eu era primeiro ano e ele terceiro. Já fazia oito anos que eu conhecia Pedro e nossa amizade não tinha mudado em nada. Pedro já era muito inteligente quando eu o conheci e agora era mais ainda. Ele queria ser engenheiro e estava estudando muito para isso. Eu achava tão fofo quando ele se oferecia para me ajudar nas matérias exatas. Ele era fera nisso, principalmente em Física, que eu detestava e ele não entendia o porquê. Em vez de nos reunirmos para brincar de esconde-esconde, nos reuníamos para estudar. Apesar de estudarmos em classes diferentes, isso não alterava em nada. O que eu estava aprendendo agora, Pedro estava revisando e então era ótimo para ele. Até Dudu se juntava com a gente para estudar, mas ele só ia para conversar e acabava atrapalhando. Uma vez eu comentei com Pedro que achava Dudu um gatinho e ele ficou meio com ciúmes. Disse que Dudu era mulherengo e que só pegava garotas mais velhas que ele. Mas eu sabia que esse seu ciúme era de irmão e o que ele queria era me proteger. Nossas mães achavam que, quando nós estivéssemos grandes, iríamos namorar. Acho que as pessoas não acreditam em amizade entre homem e mulher, mesmo quando se é criança. Eu nunca demonstrei que queria algo mais que a amizade de Pedro e nem ele fez isso. Crescemos como irmãos e permanecemos irmãos.
Na escola, muitas garotas queriam namorar Pedro. Ele era muito carinhoso e tinha um sorriso perfeito. As garotas tinham raiva de mim por que eu andava com ele. Eu conheci uma garota na minha sala que me revelou ser apaixonada por Pedro há dois anos e nunca teve coragem de chegar perto dele. Ela só me revelou isso depois que eu confirmei que era uma irmã para ele. Todos achavam que tínhamos um caso. Uma bobagem. Ela se chamava Alícia e era branca como a neve. Era muito linda por sinal. Ela me disse que muitos garotos olhavam para ela, menos Pedro. Ela se sentia invisível quando passar ao lado dele. Eu disse a ela que Pedro era muito desligado em relação a garotas e que esse ano ele não estava pensando muito nisso, pois o seu foco era o estudo. Ela ficou meio triste, mas eu prometi que falaria com ele.
Nesse dia, quando voltávamos de ônibus, eu disse a ele:

- Pedro, eu não sabia que você era tão popular entre as meninas.
- Deixe disso, Fernanda, elas nunca olham para mim.
- Mas você é cego mesmo, hein? Tem uma menina linda na minha sala, que acredito ser afim de você. Conhece Alícia?
- Alícia? Ela nunca olhou para mim. Ano passado, fui falar com ela, mas ela fugiu e até hoje eu não entendo.
- Acho que eu já entendi por que.
- Agora você lê a mente das pessoas, é?
- Não, Pedro, eu acho que ela realmente gosta de você e fugiu por que estava com medo.
- Medo de quê? Vocês garotas são tão malucas.
- Ah, você sabe, tem a timidez e tal. Quando a gente gosta de alguém, a gente não tem coragem para falar e quando esse alguém vem falar, a gente fica sem graça e tem medo de pagar mico, de falar besteiras.
- Sei. Você está gostando de quem, Fê? Você é minha melhor amiga e não me falou nada? Não acredito que seja o Dudu?
- Infelizmente é. Ah, Pedro, a gente não escolhe, né?
- Você vai de que horas lá pra casa? O “Dudu” vai pra lá hoje também. Quem sabe não... – Ele falou o nome Dudu com ironia.
- Acho que de quatro horas, pode ser? Tenho umas coisas para arrumar lá em casa.
- Pode sim.

Descemos do ônibus. Ele foi para a sua casa e eu para minha. Engraçado, eu marquei às quatro horas com ele, como antigamente. Cheguei uns vinte minutos mais cedo e ele estava dormindo. Um preguiçoso. Enquanto ele se ajeitava, Dudu tocou a campainha e eu mesma fui atender. Dudu estava com o cabelo todo bagunçado e eu achei isso muito engraçado. Provavelmente ele também estava dormindo e não se olhou no espelho. Mas continuava um gatinho. Nós ficamos conversando por um tempinho e Pedro chegou, com a cara de cínico que só ele fazia.
- O que vocês estavam conversando, hein?
- Ah, eu tava falando para ele que vocês são dois preguiçosos. Em vez de adiantar os estudos, ficam dormindo.
- Pois é. Fernanda é doida. Acha que eu vou ficar adiantando, enquanto eu tenho um amigo mestre que me ensina tudo.
- Você está mal acostumando, hein Dudu?
- Quem tem um amigo como você, Pedro, não precisa ter mais nada.
- Para de me encher, Eduardo.
- Nossa, eu nunca vi ninguém chamar Dudu de Eduardo. – Eu disse.
- Ele só fala assim quando é algo sério, mas eu sei que ele quer tirar onda com a minha cara.
- Vamos deixar de enrolação, EDUARDO? Cadê aquele livro que te pedi?
- Toma.

Nesse dia, nós estudamos até umas nove horas da noite. Tínhamos muita coisa e estávamos atrasados. Eu e Dudu jantamos por lá mesmo. Quando foi a hora de ir embora, Dudu foi comigo até em casa, coisa que não precisava, já que a casa de Pedro era a uns 10 metros da minha. Mas ele fez questão. Ficamos conversando um pouco no portão, e quando eu disse que precisava entrar, ele me deu um beijo. Não um beijo na bochecha, mas um beijo na boca. Eu fiquei sem saber o que fazer, eu nunca tinha beijado. Mas logo aprendi o que fazer e foi maravilhoso. Ele foi embora e eu entrei feliz da vida e corri pro telefone para ligar para Pedro. Eu não iria voltar a casa dele só para falar isso.

- Pedro, você não vai acreditar?
- Não vou mesmo. Mas pode falar. – Pedro sempre tinha esse senso de humor meio irônico.
- Dudu me beijou... Na boca!
- Ele teve coragem? Não acredito!
- Ei, como assim?
- Ah, ele falou para mim que estava gostando de você e eu disse a ele que você também tava.
- Não acredito que você falou! – Falei indignada e com um pouco de raiva. - Mas ei, eu estou com um pouco de medo. Você não disse que ele era...
- É. Eu disse. Mas eu acredito que está mesmo gostando de você. Ele não é de mentir para mim.
- Mas... Você me apóia? Se eu quiser mesmo ficar com ele?
- Oh Fê, é claro que eu apóio você. Você sabe que eu sempre estarei do seu lado. Só que é meio estranho para mim meus melhores amigos de infância, juntos!
- É também estranho para mim. A gente brigava tanto quando brincava na rua... É até engraçado isso.
- Olha, eu vou ter que desligar. Mamãe quer usar o telefone.
- Está certo, a gente se fala amanhã.

Minha mãe notou minha felicidade quando eu cheguei em casa. Fiquei até com medo que ela tivesse visto. Ela não viu, mas perguntou por que eu estava tão feliz e acabei contando a ela. Ela disse que o primeiro beijo a gente nunca esquece. E fui dormir bastante feliz nesse dia.

Eu comecei a namorar Dudu uma semana depois. A gente ficou e ele me pediu em namoro. Ele foi muito fofo e eu nunca iria recusar um pedido desses. Pedro também começou a namorar, só que um mês depois que eu e Dudu estávamos juntos. E adivinha com quem ele estava namorando? Com Alícia, claro. Depois daquele dia que Dudu tomou a iniciativa comigo, ele decidiu falar com Alícia e dessa vez ela não fugiu. Fiquei muito amiga de Alícia depois que ela começou a namorar Pedro. Eu adorava quando saímos juntos. Íamos ao cinema, à praia, ao teatro e a vários lugares. Juntos. O melhor de tudo era que Alícia e Dudu não sentiam ciúmes de mim e de Pedro.
Percebi com o tempo que eu era mais amiga de Pedro do que Dudu, apesar de eles se conhecerem antes. Quando eu e Dudu começamos a namorar, ele mal ligava para Pedro, mas eu sempre queria a presença dele. Às vezes eu achava que Pedro era meu irmão de sangue mesmo, por que havia um laço muito forte entre nós. Após um ano, Dudu teve que se mudar, mas não para muito longe, e sim para o bairro do lado. Eu fiquei um pouco triste porque não o veria todos os dias, mas me consolei, pois eu ainda veria Pedro. Apesar de estar apaixonada por Dudu, eu amava muito Pedro. Dudu poderia ir morar muito longe de mim, mas eu ficaria mais triste se fosse Pedro no lugar dele. Eu não poderia ficar longe dele. Das suas conversas, dos seus conselhos, suas risadas, sua alegria.
Namorei um ano e meio com Dudu e fui eu que acabei com ele. Ele tinha ficado estranho depois que tirou minha virgindade. Visitava-me pouco e eu não agüentava mais isso. Já Pedro, namorou quase três anos com Alícia. Quando eu terminei com Dudu, mal saia com Pedro, pois Alícia sempre estava junto e eu não gostava de segurar vela, mas eu sempre estudava com ele e ia sempre à sua casa. Sair era o de menos.

Quando eu fiz dezoito anos, eu e Pedro estávamos solteiros. Resolvemos sair para comemorar em uma boate. Seria uma noite dupla de estréia. Era a primeira vez que eu entrava numa boate e a primeira vez que eu ia beber. Eu nunca tive coragem de beber um gole sequer de álcool e dessa vez ele insistiu e eu aceitei. Tomei meu primeiro porre e logo fiquei bêbada. Tão bêbada que beijei dez caras naquela noite. Pedro ficou impressionado. Claro, eu nunca tinha mostrado esse meu lado louco para ele. Ele só havia beijado uma garota. Ele me carregou e me levou até sua casa, para minha mãe não me ver naquele estado. Nós chegamos meio cedo e eu iria para casa às cinco da manhã, quando voltasse ao meu estado sóbrio. Ele foi muito fofo e me deixou dormir em sua cama no seu quarto e foi dormir no sofá. Eu acordei quando o sol nasceu e fui para casa, sem acordá-lo. Eu deveria chamá-lo para o seu quarto, mas ele estava dormindo tão tranquilamente que fiquei com receio de acordá-lo.
Depois dessa noite, decidimos marcar sempre de sair assim, mas ele pediu que eu não fizesse isso mais. Ele tinha me dito que alguns caras se aproveitaram de mim e ele não podia impedir, com medo que rolasse alguma briga. E então toda a sexta-feira iríamos a boates. Tenho muitas saudades dessas noites.

Pedro se formou aos vinte e quatro anos e eu aos vinte e dois. Meu curso tinha três anos e o dele seis. Ele, é claro, passou de primeira no vestibular. Eu não passei na primeira vez, mas sim no ano seguinte. Ele me ajudou em tudo, mesmo ocupado com seu curso. O bom de tudo isso foi que nos formamos juntos. Uma incrível ironia do destino. Nós conseguimos um emprego e decidimos que depois de um ano, íamos morar juntos. E por um ano, juntamos dinheiro e deixamos a nossa rua. Eu senti muita falta de morar ali. As lembranças da infância e da adolescência ficariam ali.
Decidimos comprar um apartamento perto do trabalho. O trabalho de Pedro não era tão perto, mas ele tinha carro e isso facilitava. Quando saia mais cedo, ele me levava. Eu sempre dizia que não precisava e que podia ir a pé (era a dois quarteirões), mas ele insistia, com aquele seu cuidado.
Nossos vizinhos pensavam que éramos casados. Eu não os culpo. Éramos dois adultos morando juntos.

Um dia, Pedro encontrou sua antiga namorada e minha antiga amiga Alícia. Eles já estavam crescidos, maturos e voltaram a namorar. Alícia ficou surpresa, não só por eu ainda manter contato com Pedro, mas por que eu estava morando com ele. Um ano e meio depois, Pedro e Alícia ficaram noivos e depois de oito meses, se casaram. Ele me deixou o apartamento, não fazendo questão alguma de dividir nada. Os primeiros dias sem Pedro no apartamento foram terríveis. Eu sentia muita falta dele. Moramos três anos juntos e éramos amigos há dezoito anos. Eu até fiquei impressionada com esse número tão grande. Era quase uma vida e tínhamos uma vida em forma de amizade.

Eu também casei pouco tempo depois dele, e fui morar em outra cidade, por causa do trabalho do meu marido. Não era tão longe, mas eram cinco horas de viagem da minha antiga cidade. Pedi demissão do meu trabalho e meu marido, Charlie, arranjou um ótimo trabalho para mim e eu ganhava muito mais.
Quando fui me despedi de Pedro, não pude agüentar. Chorei muito e ele também. Nossas vidas estavam tomando rumos diferentes. Ele disse que me visitaria e eu também o visitaria, até porque mamãe não ia querer que eu deixasse de vê-la também.

Um ano se passou e minhas visitas à mamãe e a Pedro foram diminuindo. Eu não podia viajar por causa do trabalho e Pedro também, mas ele me ligava todo final de semana. Mamãe me visitava sempre que podia.

Fiquei casado com Charlie por três anos e me separei dele, ainda grávida. Ele havia me traído com sua colega de trabalho e eu descobri que isso acontecia há muitos meses. Não sabia o que fazer e voltei a minha antiga cidade para morar com mamãe. Logo quando cheguei, liguei para Pedro e contei o ocorrido. Ele ficou muito triste por mim e foi me visitar. Eu disse que ele seria o padrinho do meu filho e que o nome dele seria Pedro. Ele gostou muito do convite e me agradeceu pela homenagem. Ele e Alícia ainda não tinham filhos e um afilhado seria bem-vindo para os dois. Alícia também veio me ver. Estava muito diferente e tinha pintado o cabelo de preto (ela sempre foi galega).

Apesar de tudo pelo que eu passei, eu estava feliz de estar de volta a minha rua, que hoje tinha mais garotas do que garotos. Meu filho nasceu, lindo e saudável. Charlie queria a guarda, mas ganhei na justiça. Ele não havia gostado do nome que eu dei ao nosso filho. Charlie sempre teve um ciúme de Pedro e achava que ele tinha sido meu caso de adolescência.

A minha amizade com Pedro durou vinte e três anos. Até hoje sinto muitas saudades dele. Ele contraiu uma doença muito grave e faleceu logo depois de um ano. Fiquei muito abalada com a morte dele e por muito tempo não consegui sair de casa. Pedro era a minha alegria. Não conseguia parar de chorar. Todas as noites eu chorava por ele e rezava, pedindo que ele voltasse. Eu estava quase ficando louca. Um dia Alícia foi me visitar e me entregou um envelope que havia encontrado juntos com as coisas dele. Tinham duas cartas, e a primeira aparentava ser muito antiga. Pelo ano, eu percebi que tinha sido o ano em que nos conhecemos, há vinte e três anos. As duas cartas eram endereçadas a mim e eu não entendi por que ele não havia me entregado. Na primeira carta, Pedro dizia em letras tortas:

“Fernanda, você é a primeira garota que é minha amiga. Você é muito legal e eu gosto de você e quero ser seu amigo para sempre”.

A segunda carta era mais recente e ele dizia:

“Eu não sei por que eu nunca te entreguei essa carta, Fê. Eu tive muita vergonha e não tive coragem de jogar fora. Eu disse que queria ser seu amigo para sempre, né? Engraçado, eu escrevi isso com tanta convicção e até hoje somos amigos. Sou feliz em te ter na minha vida. Você é a irmã que eu nunca tive. Eu tenho certeza que a nossa amizade ainda vai durar uns cinqüenta anos, pode escrever. Eu só quero que você saiba que qualquer coisa que precisar, sabe que seu super irmão Pedro vai estar sempre ao seu lado. Eu nunca vou me esquecer de você. Eu te amo, Fê!”

Chorei muito ao ler essas palavras. Ele havia escrito a segunda carta antes de contrair a doença. Queria tanto que fosse verdade o que ele disse, que a nossa amizade duraria uns cinqüenta anos, mas não chegou à metade. Hoje tenho trinta e cinco anos e ainda sinto falta do sorriso de Pedro. Eu nunca me esquecerei dele. Nunca.

2 comentários:

  1. tão singelo! acho que disse tudo a vc por msn...
    mas acho que esse foi seu melhor texto...
    apesar de não ter entrado em detalhes e de ter sido uma estória corrida, me tocou bastante! demais!

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  2. Quer saber a verdade? Eu chorei.
    Velho, também me tocou muito. Que coisa mais linda. A merda é que eu ficava achando que eles iriam se envolver em um romance a qualquer momento, apesar de areditar sim em amizade entre homem e mulher. Mas a gente sempre espera uma linda historia de amor, né... hehe
    Ta muito de parabéns, Inercya :D

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