14 de maio de 2010

Intrigas

Eu disse que não ia postar, mas acabei escrevendo ontem a continuação dessa história. Consegui o notebook. Não gostei muito dessa, mas como eu já havia escrito, não poderia deixar de postar ou simplesmente apagar.





1ª Parte: Descrição.

• Cenário.

Uma grande sala de estar em forma de L. Paredes brancas e com certos quadros coloridos pendurados. Uma mesa de jantar de vidro com quatro lugares perto de uma janela que dava para rua. Na mesa, uma bonita toalha de renda e um grande vaso com orquídeas verdadeiras. O perfume das orquídeas inundava todo o ambiente. Perto da porta que dava para a varanda, um lindo sofá e como a parede, era branco. Almofadas azuis e vermelhas se destacavam no belo sofá. Em frente ao sofá, uma estante não muito simples e nem muito exagerada, mas com uma grande televisão de plasma, home theater e vários CDs e DVDs nos seus devidos cantos. Cortinas azuis marinho na janela e na entrada da varanda. Próxima à mesa, havia uma bela estante de quase dois metros. Nela, havia diversos livros de estudo e de leitura, como também pratos, taças, utensílios de vidraria. O chão, como a parede e o sofá, branco. Impecavelmente branco. Límpido e brilhante.

• As personagens.

Maysa, 26 anos, solteira. Alta, 1,77 metros. Cabelos compridos, ondulados e castanhos. Belas coxas, seios enormes, cintura fina e barriga sequinha. Rosto rosado, lábios carnudos, olhos negros, nariz afilado. Estudante de Direito, último período de faculdade particular. Estagiária de um escritório de advocacia.

Bianca, 22 anos, solteira. Baixinha, 1,54 metros. Cabelos curtos, cacheados e pretos de tintura. Corpo magro e raquítico e pernas finas. Rosto branco, quase pálido, com sinais em cantos estratégicos. Olhos verdes e orelhas cheias de brincos. Estudante de Letras em faculdade pública. Não estagiária e dependente.

2ª Parte.

Bianca acordou cedo, mas não foi à faculdade. A preguiça sempre reinava para ela. Ficou deitada no sofá da sala vendo TV. Enquanto isso, Maysa, que achava ser a mais responsável da casa, se arrumava para a faculdade e depois de lá, iria para o seu estágio. Só voltaria às sete da noite. Maysa olhava com desdém para Bianca, e esta pouco se importa. Na verdade, Bianca se importava sim. Maysa de vez em quando passava na cara as coisas que ela fazia. Só por que ela estudava Direito, “um curso altamente significativo, em relação aos outros cursos mesquinhos que existem”. Era assim que May se referia a seu curso.
Eram irmãs e desde que sua mãe tinha morrido, elas moravam juntas. Maysa era a mais velha e colocava dinheiro em casa. Bianca recebia mesada do pai, que morava longe. Só assim para não depender muito do dinheiro de Maysa. Maysa pagava as contas e vivia reclamando quando Bianca levava alguma amiga sua da faculdade para fazer um trabalho ou algo do tipo. “Você vive trazendo essas suas amiguinhas para cá e leva toda a minha dispensa”. Ato de egoísmo sempre presenciado por Bianca. “Minha dispensa? Ela acha que só por que ela paga, tem que ser só dela?” Bianca não tinha ninguém para desabafar e não tinha coragem de falar na cara de Maysa. Desabafava com a parede mesmo.
Bianca ficou aliviada, pois sua irmã havia ido para a faculdade que ela tanto se gabava. “Eu não entendo como uma pessoa pode se gabar com uma faculdade particular. Qualquer um passa. Assim é muito fácil”, pensava Bianca. Desde sempre aturou as falações de sua irmã sobre o tal curso. Mas era difícil de aturar todos os dias as mesmas falações. “Porque ela não arruma um namoro rico e especificamente do curso de Direito, claro, para ela me deixar em paz? É muito justo!”
Maysa estava solteira há três anos e a falta de sexo a importunava a ponto de querer levar pra cama o primeiro que aparecesse. Ela poderia fazer isso, mas não faria. Dizia-se séria e não se daria para qualquer um. Bianca admitia: Maysa era linda! Só não entendia como ela podia estar solteira há tanto tempo. Provavelmente seria por que ela tinha se jogado tão adentro de seu curso que acabou esquecendo-se de relacionamentos. Mas ela nunca deu muito certo nos relacionamentos. Seus namorados morriam de ciúme, ela sempre dava bola para alguém que estivesse olhando-a. E sempre acaba assim, em crises de ciúme.
Bianca optou por ficar na sala mesmo, vendo TV, esperando o tempo passar, espiando os vizinhos do prédio da frente na varanda. Era a sua diversão para uma manhã calma sem a irmã para atrapalhar.
Enquanto isso, Maysa prestava muita atenção na sua aula com o professor mais gato da faculdade. Quando ele a fitava, ela jogava um olhar sensual e este nem percebia. Tonta! No término da aula, foi tirar dúvidas e jogou praticamente na cara do professor seus belos seios e desta vez ele notou. E como. Arregalou os olhos, mas se deteve à tentação. Ela sempre teve esse poder de sedução, sabia como usar, mas usava nas pessoas erradas.
Mergulhada em tédio, Bianca foi procurar algum livro na estante para ler. A maioria era livro de Direito. Seus livros de Literatura perderam espaço para tantos livros de códigos e leis. Achou seus clássicos em uma porta da estante. Escolheu o que escritor que ela mais adorava: José de Alencar. Lia Iracema pela décima vez e não enjoava de jeito nenhum. Sentou-se no chão da varanda e mergulhou em sua leitura.
Terminou as aulas e Maysa foi almoçar rapidamente para não se atrasar no estágio, que era muito perto dali. Ela tinha que chegar dez minutos antes para seu chefe ver que ela tinha pontualidade. Ele era carrasco e não admitia atraso de estagiários.
Bianca preparou seu almoço e comeu lendo seu livro. Era tão viciada em leitura que às vezes se alimentava dela. Mas estava muito magra e precisava se alimentar. Às três e meia da tarde, sua amiga da faculdade chegou para fazer um trabalho, que elas acabaram não fazendo. Procuraram filmes e foram assistir. Prepararam várias comidas e a amiga de Bianca havia trazido cachaça.
Maysa estava louca no escritório de tanto digitar relatórios. Não era bem o que ela queria na sua área, mas era o que tinha disponível para ela, apesar de estar no último período. Não tinha nem chegado à metade e já estava se cansando.
No apartamento, o sofá estava fora do lugar, havia copos em cima da mesa de jantar, pipoca no chão, almofadas e bebidas no chão, a parede com manchas pretas. As belas orquídeas não tinham sido regadas e estavam muchas. Bianca levou sua amiga até a porta e se jogou no chão, atrás do sofá. Sua tarde tinha ótima. Conversas, filme, pipoca, cachaça. Tudo resumido em diversão.
Maysa estava aliviada porque estava voltando para casa. Sua tarde no trabalho tinha sido estressante e nada melhor do que chegar em casa e descansar. Ao abrir a porta do apartamento, viu o caos que estava a sala que ela tanto gostava. Entrou com muita fúria e gritou por Bianca e esta nem ouviu. Procurou por Bianca e a achou jogada no chão, bêbada em plena terça-feira à tarde.

3ª Parte: Bianca Fala.

Maysa chegou na pior hora. Eu havia dormido e me esqueci totalmente de arrumar, sabendo que minha irmã se visse aquilo surtaria. Meu dia tinha sido um tédio e fiquei procurando o que fazer, já que eu não iria para a faculdade. Liguei para minha amiga e ela trouxe álcool, nada melhor para uma tarde de tédio. A sala perfeita que minha irmã criou estava um caos. Tudo praticamente fora do lugar. Embebedei-me muito e acabei dormindo e não ajeitei nada. Puta que pariu! Por que eu me esqueci de uma coisa dessas? Maysa chegou louca da vida e me carregou do chão, me colocou no sofá com grosseria e jogou água na minha cara. Acordei sem saber onde eu estava e quando olhei para a cara de Maysa me assustei.

- O QUE PORRA É ESSA AQUI, BIANCA!? – Eu percebi que ela estava irada. – Eu não acredito que você fez isso COM A MINHA SALA. PUTA QUE PARIU BIANCA. Você acha que pode fazer o que quiser quando eu não estou em casa, acha que pode bagunçar tudo, SUJAR tudo e deixar por isso mesmo? Você acha que pode trazer qualquer um pra minha casa?

Quando eu ouvi a expressão “minha casa”, fui eu que fiquei irada dessa vez e respondi quase sobriamente:

- Como é? Tua casa? Você tá louca, Maysinha? – Falei o nome dela ironicamente. – Só porque você rege essa casa sozinha, não quer dizer que ela é só sua. Eu chamo quem eu quiser para cá, você não é dona dessa MERDA aqui! Mamãe deixou esse apartamento em nosso nome, e não significa que é só seu.
- Ah, quer apelar para mamãe, é? Se ela soubesse como você é aqui, Bianca, ela não colocaria seu nome de jeito nenhum. E ela deve ta vendo como você se comporta aqui: não vai para a faculdade, fica VAGABUNDANDO o dia inteiro em casa, bebe em dia de semana, trás amiguinha pra cá, bagunça tudo e nem arruma NADA!

- Dá para falar direito comigo? Eu não sou nenhuma das suas coleguinhas fúteis lá da sua faculdade não, ouviu? E não, eu não estou apelando para mamãe não, só quis dizer que ela deixou isso para gente.

- Que é claro, é mais meu do que seu. Eu pago tudo desse apartamento, além de contas, a feira do mês...

- Você faz questão de passar na cara, né? Faz questão de fingir ser a certa.

- Claro! E você não faz por menos. Fica em casa, enquanto eu estou no trabalho. Eu estou fazendo Direito! Eu vou conseguir me sustentar e você não, não dá a mínima para isso, nem procura o que fazer. Fica dependendo do dinheiro de papai para poder ir pra as suas festinhas de merda.

- Eu faço o que eu quiser com o meu dinheiro. Você não tem o seu e faz o que quer? Pronto. Não interessa a você com o que eu gasto, oras.

Eu já estava de saco cheio dessa discussão idiota, mas não podia parar de falar.

- Faz né? Enquanto eu fico com pouco dinheiro para me divertir e gasto noventa por cento em pagamentos, você nem sequer se oferece para ajudar nas contas, porque ganha pouco e é mesada.

- Pois é, Maysa, eu não posso fazer nada quanto a isso.

- Ah, pode sim! Acha que vai viver sempre na boa vida, à custa dos outros? Acha que vai ficar vagabundeando o dia inteiro, em vez de estar trabalhando? Puta que pariu, viu! Acostumou-se, fudeu!

- Quem mandou ser a mais velha? É isso aí, menina. Trabalha e coloca porra de comida em casa. É pra isso que você serve. Por que você acha que eu ainda estou morando aqui? É pela vida boa mesmo. – Falei assim de propósito, para provocá-la.

- COMO É, BIANCA? – Ela ficou mais furiosa ainda. Consegui o que eu queria. – Se eu pudesse, eu enxotava você aqui dessa casa hoje mesmo, sua nojenta!

- Mas não pode né? Que peninha! E nojenta, eu? Não, infelizmente sou sua irmã, mas felizmente eu não sou igual a você. Mesquinha, ignorante, boçal, irritante, imbecil, idiota e egoísta!

E depois da última palavra que soltei, só senti uma tapa forte em meu rosto. Caí no chão com a força que ela teve. Os vizinhos do prédio da frente estavam assistindo a “novela” que era aquilo. Eu nem acreditei que ela fez aquilo. Senti meu rosto arder e imaginei estar bastante vermelho. Fechei a porta e a cortina da varanda, para ninguém mais ver e ouvir. Levantei-me com a mão no rosto e ela sorrindo.

- Você é muito otária, Maysa, otária. É isso o que você é. Não sabe discutir com palavras e já parte para briga. Engraçado, né? Você faz Direito, “um curso altamente significativo” e nem argumentar sabe. Quero ver como vai ser se você for advogada e sair às tapas com os promotores, juízes e o escambal! Uma advogada que não sabe argumentar. Vai ter que aprender, hein? Último ano na faculdade e ainda não sabe? Pelamordedeus, onde esse país vai parar com advogados formados em faculdade privada?

Ela ficou calada o tempo todo enquanto eu bombardeei tudo na cara dela. Estive me guardando muito tempo e hoje parecia o dia certo pra jogar tudo na cara dela também. Ela não dizia que pagava tudo e tal e que praticamente era a dona da casa? Pois bem, joguei tudo na cara dela mesmo, pra ver como ela ficaria. E ela ficou sem reação, sem saber o que dizer.

- Está vendo, eu tenho razão. E como foi fácil calar essa sua boca, que só sai porcaria. Falei a verdade e você se calou.

- Você é muito hipócrita mesmo. Fala de mim, mas é pior ainda. Me diz o que você aprende naquele curso, qual é mesmo o nome? Letras. Poxa, ela vai ser professora! Se não for boa, queridinha, vai viver trabalhando, corrigindo provas, de domingo a domingo, ganhando um salário mínimo. E sinto muito, eu sei argumentar bem melhor que você. Pra você que não sabe, participei de uma audiência e fui a melhor.

- E eu quero lá saber se você foi a melhor ou pior. Mas para você é importante, né? Sempre quer estar em primeiro lugar em tudo, achando que com isso tem muita competência.

- E tenho, bastante! Coisa que você não tem e se tem não exerce.

Essa discussão toda foi eu em pé e ela sentada no sofá, como se fosse uma lady. Antes eu estava sentada na cadeira, mas depois da tapa, não quis mais me sentar pelo dela. Tive que ficar o mais longe possível. E era grito de um lado e grito de outro. Tudo isso por uma sala desarrumada que em um minuto ficaria do jeito que estava antes. Maysa gosta muito de colocar as pessoas para trás, esfregar na cara mesmo. Além disso, as discussões dela são as piores. É cada merda que ela fala e eu, idiota, ainda respondo.

- Então vai testar sua competência em outro canto, vai. Que eu já estou por aqui de ouvi essa sua voz irritante.

- Não, eu não irei sair daqui enquanto esta merda não estiver arrumada. O que você usou meu, hein? – Ficou procurando pelo chão, pela mesa, pelo sofá, só pra falar mais alguma coisa. – Ah, meu filme, né? Eu vou querer outro, deve estar arranhado. Minha pipoca preferida. Eu quero outra igual amanhã na MINHA DISPENSA! Deixa-me ver mais o que... Sim, quero essa parede alva como a neve. O sofá no lugar, esses copos lavados e...

- Se exigir demais, não vai ter nada, viu?

- Quero só ver. – E foi para o seu quarto.

E assim acabou a nossa briga. Tudo, tudo por causa de uma simples bagunça. Mas deu muita vontade de esmurrar, chutar, amassar a fuça dela. Eu estava calma por fora, nem tanto, mas tava, porém por dentro eu parecia uma bomba-relógio, a ponto de explodir a qualquer momento e voar em cima dela. Mas eu não podia fazer isso, não podia me baixar ao nível dela. Eu sei que era isso que ela queria. Estava cansada de palavras e queria brigar com o físico. Mas eu iria perder, ela é bem mais forte que eu. Só que com palavras, eu ganho. Eu sempre ganho. Ela pode falar o que quiser do meu curso, pode me falar mal à vontade, mas ela nunca vai consegui me calar, nem com uma tapa, com um murro... Com nada!
Mas eu arrumei tudo, como ela pediu, por que ela nunca mandou em mim. Coloquei o sofá e as almofadas nos lugares certos, guardei o DVD dela no cantinho certo e nem estava arranhado. Limpei o chão e a parede, tirei os copos da mesa, lavei e guardei. E finalmente abri a cortina. Ainda tinha um vizinho ou outro olhando para o apartamento. Eu mostrei meu dedo e logo se foi embora. A sala estava como antes, limpa e arrumada. Mais a história não iria acabar por aí. Eu peguei todos os livros dela de Direito que estava na estante, fui até o lixo e joguei. O zelador passaria naquela noite, para levar todo o lixo lá pra baixo. Ela estava tomando banho quando eu fiz isso e só ia notar quando saísse para estudar. Eu, claro, fui embora para casa da minha amiga que foi lá mais cedo. Nem imagino o que aconteceu quando ela descobriu. Se eu estivesse lá, era capaz de ela me jogar pela varanda. A gente tem que prezar a vida quando se tem uma irmã louca dentro de casa.

Um comentário:

  1. Inercya, adoro tua criatividade. SÉRIOW!
    Como tu consegue ter um ponto de partida? De onde tu cria essas coisas?
    O texto tá muito bom, gostei muito da maneira que tu fez no começo, dividindo por partes e tal :)
    Muito bom mesmo. Vamo ve agora se com esse notebook as historias não decolam, hein? Quero ler mais coisas suas :D

    :*

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