31 de maio de 2010

Correspondências (2ª Parte)

Passou-se alguns dias e eu recebi a resposta de Lucas.

Dessa vez, ele não disse que me amava. Claro, depois da frieza que recebeu como carta, não era para menos. Eu sei que ele estava sendo sincero quanto aos seus sentimentos. Lucas ainda me amava e eu o amava também. Mas estávamos longe do outro e ele tinha um filho recém nascido. Eu não sabia mais o que fazer. Não estava com cabeça para responder a carta dele e resolvi responder no outro dia.

Escrevi essa carta em lágrimas e não agüentei continuar. Fiquei muito fraca com as palavras dele e eu já estava triste de qualquer forma. Eu não queria deixá-lo mais triste ainda também. Eu fui sincera e como ele, disse a verdade. Eu sei que isso não seria bom, mas era impossível fingir que ele não fazia falta em minha vida.

Passamos meses nos correspondendo assim. Enquanto isso, Raul não deixava de me visitar. Eu estava começando a ficar confusa. Dois homens loucos por mim. Um estava muito longe de mim e o outro estava mais perto do que nunca. Até que, um dia, Raul se declarou para mim. Eu já estava confusa e desse vez fiquei mais ainda. Eu não sabia o que fazer. Eu amava muito Lucas ainda e estava me correspondendo com ele toda semana, mas admito que fiquei balançada com a declaração de Raul. Eu sabia que nossa relação garota de programa-cliente já estava passando para outro tipo, mas não esperava que fosse assim.

Raul disse que se apaixonou logo de cara por mim, mas não queria revelar, precisava ter certeza. Ele me pareceu muito sincero quando se declarou. Disse que me tiraria daquela vida e que eu seria a mulher mais feliz do mundo com ele. Disse também que se eu o quisesse, naquele mesmo dia, eu me mudaria para a casa dele. Eu não sabia o que dizer, então disse que eu ia pensar. Ele aceitou, pois tinha sido muito direto e me deu o tempo que fosse preciso.

Cheguei em casa com um turbilhão de dúvidas. Será que eu estava tendo realmente a chance de ser feliz, dessa vez para sempre? Não sei, mas esse dia não tinha acabado com as surpresas que ele havia trazido para mim. A carta que recebi de Lucas nesse dia me deixou perplexa.

Quase caí enquanto lia a carta, por isso me sentei. Lucas havia se separado da mulher e a iniciativa partiu dela e não dele. Ele estava voltando para cá, voltando para mim e com seu filho. Eu havia esperado por isso há muito tempo. Estava louca para ver Lucas novamente e eu nem imaginava que isso iria acontecer tão rápido assim.

Eu estava em um dilema. Mesmo me correspondendo com Lucas e ainda o amando, eu estava começando a gostar de Raul e ele me havia feito uma proposta. Pensei muito e me decidi. Eu conhecia Raul há sete meses e tudo ocorreu muito rápido entre a gente. Eu gostava muito dele, sempre foi carinhoso, mas eu não o amava. Amava Lucas. Enviei a carta o mais rápido que pude.

Eu estava muito feliz. Senti que tinha tomado a decisão certa, mas não sabia como dizer isso a Raul. Eu havia dado esperanças a ele, falei que ia pensar. Tive que ter coragem quando ele chegou eufórico, esperando que eu dissesse sim.

- Raul, eu pensei muito no que você me disse. Eu gosto de você, Raul.Mas eu sou uma garota de programa, você não deve me amar. Na verdade, você não deveria ter se arriscado assim. Nossas noites foram maravilhosas, mas era apenas meu trabalho. Sinto muito se te dei a idéia errada...

Não esperei que ele respondesse e fui-me embora. Eu não fui sincera dessa vez, mas tive que mentir. Eu não poderia dizer-lhe que estava apaixonada por outro, isso lhe partiria o coração. Ele era um cliente especial e como eu disse, sempre me tratou bem e então nada mais justo do que eu fazer o mesmo. Eu estava gostando dele e nossa relação não era apenas meu trabalho, como eu havia contado para ele. Ele não poderia saber. Mas ele deve saber que com garotas de programa é assim.

Lucas me respondeu urgentemente e disse que em menos de uma semana estaria aqui. Contou que conhecia uma ama de leite e que a contrataria para ficar cuidando de Emanuel. Estava correndo com a mudança, os papéis e tudo o mais. Me informou o dia e a hora que o vôo iria chegar e pediu que eu fosse recebê-los.

A semana passou devagar, mas chegou finalmente o dia. Me arrumei perfeitamente para Lucas. Ele ia me achar diferente, eu havia cortado o cabelo, mas acho que ele ia gostar da minha nova aparência. Cheguei ao aeroporto meia hora antes. Eu estava tão nervosa que não agüentaria esperar em casa, ainda mais com Jimmy no meu pé.

O vôo atrasou e eu fiquei mais nervosa ainda, mas finalmente chegou. Fui correndo ao portão de desembarque esperar por Lucas. Muita gente saiu, mas nada de Lucas. Até que o portão fechou e ninguém mais apareceu. Fui pedir informações, mas disseram que não poderiam me dá. Fui-me embora do aeroporto desconsolada. Eu não acreditava que Lucas havia feito isso comigo, não mesmo. Como ele pôde me enganar desse jeito? Estava triste e ao mesmo tempo com muita raiva. Peguei um táxi e fui para casa. A minha sorte era que eu não tinha ainda me demitido da Casa Oito. Se eu tivesse feito isso ia ser pior para mim. Eu prometi a mim mesma que não seria mais enganada facilmente.

...

28 de maio de 2010

Correspondências. (1ª Parte)

Foi triste, muito triste mesmo ter que dá adeus a Lucas. Infelizmente ele teve de se mudar e pra muito longe de mim com a bruaca da esposa dele, Mirian. Ele teve uma ótima proposta de trabalho e não podia recusar, até porque uma criança vinha aí. Pois é, Mirian estava grávida. A notícia era ótima para ele, mas não para mim. Eu estava apaixonadíssima por ele e ele por mim também, mas acho que a idéia de ser pai faz ele se esquecer de mim. Acho isso tão incrível. Como ele pôde esquecer de nós dois e tudo o que passamos? Depois daquela noite no Hotel Rystory, ele havia se declarado para mim e eu acabei confessando que sentia o mesmo. E eu tinha certeza que ele largaria Mirian por mim. Ele largaria mesmo. Eu sabia que ele não era feliz com ela. Ele não precisava me dizer, eu via isso nos olhos dele. É incrível como o mundo dá voltas. Mas ele tinha responsabilidades como pai e eu não podia culpá-lo.

Tive que superar a perda de Lucas e voltar à ativa na Casa Oito. Jaime e Mateus ainda eram loucos por mim e eu por eles. Afinal, eram meus prediletos, além de Lucas, claro. Mas garotas de programa, como eu, não têm futuro mesmo. Nós somos condenadas a viver vendendo nosso corpo e só. Achamos que um dia um ricaço irá se apaixonar por nós e nos pedir em casamento. Isso é pura ilusão de garotas sonhadoras. Qual o homem que vai se casar com uma garota de programa? Nós nos deitamos com mais de dez homens por semana. Imagina encontrar um homem com quem eu já deitei e ele me ver compromissada? Não, não cola de jeito nenhum. Eu me iludir mesmo com Lucas e hoje ainda não superei a perda dele. Fico pensando se ele ainda se lembra de mim, se ainda gosta de mim? Acho que não. A essa altura, o filho dele já nasceu. Deve estar com alguns meses e deve ser lindo como o pai. Quem ligaria para uma garota de programa enquanto está numa cidade nova, emprego novo, casa nova e um lindo filho? Acho mesmo que me esqueceu.

Minha vida depois que Lucas partiu não foi muito feliz. Eu fazia programas sem muita vontade e meus clientes percebiam e contavam para Marlene. Ela já meu deu altas broncas, até porque eu era a melhor garota que ela tinha lá. Eu nunca ficava parada e sempre vinham homens e mais homens me procurar. Acabei percebendo que Lucas estava atrapalhando meu trabalho, então tive que deixar ele de lado, de vez. Comprei várias roupas e lingeries sexy para agradar meus clientes e acabei conseguindo. Marlene até elogiou a minha atitude. Jaime e Mateus passaram a me visitar mais vezes durante a semana.

Minha vida melhorou muito depois que eu parei de pensar em Lucas. Novos clientes surgiram. Eu digo novos nos dois sentidos da palavra. Eu quase não parava em casa. Saía logo ao anoitecer para chegar cedo na Casa Oito. Marlene decidiu que abriria a Casa Oito mais cedo, para conseguir mais clientes. E não é que deu certo! Às sete da noite, já estávamos de portas abertas e pernas também. Tinha um grande prédio empresarial perto da Casa Oito e a maioria dos clientes vinham de lá, logo após o trabalho. Muitos enrolavam suas mulheres, dizendo que teria reuniões e elas acreditavam. É obvio! Um empresário está sempre ocupado com reuniões e afins.
Numa semana, a Casa Oito esteve lotada. Era a mais popular da cidade e a que mais tinha garotas bonitas. É, Marlene não era besta. Ela conseguia os melhores clientes com a nossa beleza. Acontece que chegou um novo cliente, como eu disse, nos dois sentidos. Raul era o nome dele. Raul era muito belo e charmoso e eu tive a sorte de ser escolhida por ele. Era solteiro, rico, bonito e tinha quase a minha idade. Achei até incrível, pois era difícil encontrar um cliente solteiro. A maioria que vinha nos visitar era por insatisfação ou por aventura mesmo. Creio que Raul não tinha nenhum desses motivos. Como eu disse, era jovem, lindo e rico e não precisava ir a um prostíbulo para conseguir sexo. Muitas garotas por aí iriam querer um partido como ele. Então era fácil para ele conseguir o que queria, mas não entendo.
Mas enfim, desfrutei daquela beleza de homem que era. Ele parecia ter gostado muito do programa e prometeu voltar.

- Eu estou acostumada a receber promessas de clientes. Não precisa ser preocupar.

- Você não me conhece, dama. Eu voltarei.

Ele foi bastante gentil comigo e até me chamou de dama. Eu nunca havia sido tratada tão bem assim por um cliente, além dos meus prediletos. Claro que nenhum me tratava mal, mas Raul me deixou fazer tudo o que eu queria e esperou que eu gozasse junto com ele. Os outros, claro, não se importam com isso. Mas ele foi diferente de todos eles, até de Lucas e o que ele falou foi com convicção.
Depois dessa noite, Raul virou meu cliente fixo. Ofereceu a Marlene uma bela quantia de dinheiro para reservar a Sexta-Feira e o Sábado só para ele. É claro que ela não recusou. Alguns clientes não gostaram disso, mas ele já tinha pago um mês inteiro.
Às vezes, quando ficávamos até tarde na Casa Oito, Raul me oferecia carona até em casa. É claro que eu não recusava. Mas um dia ele me levou a seu apartamento. Ele morava sozinho e na cobertura. A vista era maravilhosa e estava quase amanhecendo. Creio que ele me levou até lá para termos mais tranqüilidade e até para conversar. Então, eu decidi falar.

- Eu não entendo você. Tão jovem, rico e procurando prazer num prostíbulo.

- Não é para isso que o prostíbulo serve? Eu enjoei de garotas mimadas e elas nunca estão satisfeitas. Sempre querem presentes, jóias, restaurantes e quase nunca me oferecem prazer. – Agora eu entendia o lado dele.

- Mas por que você me trouxe aqui? Eu sou uma garota de programa. Nenhum homem, nem mesmo o que eu fui apaixonada, me levou até a casa dele. E eu acho que se sua família descobrir, não vai gostar nada disso.

- Eu não sou qualquer cliente, Morgana. Sei que te conheço há pouco tempo e sei que você também não é uma qualquer. Achei você especial. E eu não tenho família, tenho alguns parentes que moram logo e faz muito tempo que não os vejo. Isso não interessa a eles.

Conversamos um pouco ainda e ele me levou até seu quarto. A cama que havia lá era a maior que eu já tinha visto. Foi maravilhoso. Ele, como sempre, foi muito gentil comigo. E eu estava começando a gostar dele.
Me deixou em casa logo cedo, apesar de não trabalhar em dia de Sábado. Disse que precisava resolver algumas coisas, mas achei que ele não precisava me dá explicações.
Cheguei em casa e Jimmy estava morrendo de saudades. Me parecia estar muito assustado. Percebi que havia chovido noite passada e imagino como ele ficou. Mal havia entrado em casa e já tinha gente batendo na minha porta. Era o carteiro e me entregou as cartas, que na maioria eram contas para pagar. Meu coração gelou ao ler o remetente da única carta entre as contas: Lucas Jean Ferraza.















Eu pensei muito, mas logo abri a carta dele.












Fiquei boquiaberta com aquela carta. Na verdade, não sei o que eu senti lendo as poucas palavras de Lucas. Não sei se raiva, amor, saudade ou nada. Mas acho que as últimas palavras balançaram meu coração. Eu não podia negar para mim mesma que ainda amava Lucas, isso eu sabia. Resolvi responder a carta dele naquele mesmo dia. Eu não tinha nada mesmo para fazer e era mais fácil eu me livrar logo daquilo.












Minhas palavras foram meio frias, eu sei. Mas eu não podia ser vulnerável de jeito nenhum. Tive que ser forte. Escrevi essa carta à tarde e logo enviei ao endereço que ele pediu. Eu não queria que ele desse o endereço da sua casa, isso não me interessava.
A tarde toda fiquei pensando em Lucas e em suas palavras. Li mais uma vez a sua carta e percebi que eu ainda o amava. Eu estava muito bem, mas Lucas veio como um furacão, para me arrasar. Relaxei um pouco e respirei fundo, afinal, hoje eu iria me encontrar com Raul novamente.
Não esperei que ele viesse me buscar e fui logo cedo à Casa Oito. Me arrumei lá mesmo. Marlene me elogiou mais uma vez, disse que eu estava impecavelmente linda. Ela não largava do meu pé. Claro, ela não gostaria de me perder. Eu era a que mais atraia homens para lá.
Raul chegou e eu o levei para o quarto principal. Pois é, Marlene reservou esse quarto para as minhas noites com ele. Foi bom, mas não tanto quanto antes. Enquanto estava com ele, pensei em Lucas. Ele percebeu que eu estava estranha, mas eu disse que não era de mais. Ele se ofereceu para me deixar em casa, mas eu disse que tinha que resolver algumas coisas por lá. É claro que era mentira, mas eu não queria ter que conversar com ele. A nossa relação era só sexo e estava quase passando disso. Eu não queria que acontecesse o que aconteceu entre mim e Lucas.

Passou-se alguns dias e eu recebi a resposta de Lucas.

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27 de maio de 2010

“Mal” necessário ou Tutorial de como mentir.

Mentira. Quem é que nunca mentiu nessa vida? Quem diz que nunca mentiu já está mentindo. É verdade. Não existe ninguém nessa vida que nunca utilizou esse ‘método’ para alguma coisa.
A mentira é um mal necessário, ou até um bem necessário. Pra mentir, você usa várias artimanhas. É toda aquela concentração para mentir. Você precisa estar sério para mentir. Primeiro, quando você quer mentir sobre algo muito sério, você tem que estar sério, SERÍSSIMO. Não pode soltar um risinho sequer. Segundo, seu olhar deve estar fixo, não pode se desviar. O desvio acaba revelando o grande mentiroso que tem por trás da carapuça. Terceiro, a mentira deve ser muito bem contada para pegar o besta que escuta. Não pode ser deslavada. Quarto, você não pode inventar coisas que não existem ou que estão fora do padrão. A mentira tem que ser a mais verdadeira possível.
Mentir, em certos casos, é errado. Ou esse errado é relativo? Não sei, mas não acho que seja errado. É, mas depende, né? Eu não vivo por aí mentindo, inventando histórias mal contadas etc. Eu uso a mentira por necessidade. Mas é sério mesmo. As minhas mentiras são as mais bestas possíveis. Não é o caso de mentir no tribunal e se eu for descoberta, eu estou ferrada. Não é isso.
Quando, por exemplo, alguém fala para eu fazer algo e eu acabo esquecendo, e a pessoa pergunta depois de algum tempo se eu já fiz, eu digo que sim, mesmo sem ter feito. Eu disse, é necessário mentir nesses casos. Eu prefiro mentir do que causar intriga, stress e blábláblás. Eu uso a mentira praticamente para isso. É tão fácil mentir assim. Você não precisa se preocupar muito. Quer dizer, precisa até um pouquinho. Se isso o que a pessoa te pediu pra fazer for urgente, você não pode andar por aí quem nem geladeira ambulante. Para a sua mentira ter um pouco de veracidade (contraditório, não?), você precisa correr.
“Você fez isso, Fulano?” “Não, claro que não, foi Sicrano”. Esse tipo de mentira não é muito fácil. Quando Beltrano pergunta a Fulano se foi ele que fez algo e ele responde que foi Sicrano, a coisa se complica para Sicrano. Mas se Sicrano diz que não foi ele de jeito nenhum e que foi Fulano, aí lascou. Só um está falando a verdade. E agora? Como Fulano é mais esperto, ele deixou pistas de que foi Sicrano que fez aquilo e agora ele ta livre de suspeitas. Sicrano não tem como provar que não foi ele, mas ele já deve ter cartas na mesa para se vingar. Cuidado com esse tipo de Sicrano. Não dê todas as suas culpas para ele. Um dia você pode cair na mentira de Sicrano e vai ter votação para quem é o mais mentiroso.
O que eu não acho muito legal é usar a mentira pra inventar histórias do tipo: “Eu viajei pra França e blábláblá”. Esse é quase o pior tipo de mentira. Se você mente desse jeito, tem que ter uma prova que é uma mentira verdadeira, como por exemplo, ter uma foto na França. Mas aí você vai ter que usar muito photoshop para isso e tem que ser profissional, ou se não, ninguém vai acreditar que você foi à França. Mas eu não vejo muita graça nesse tipo de mentira. Os outros podem até acreditar, mas você sabe que, no fundo, no fundo, isso não é verdade e que você nunca foi à França na sua vida.
Se você quer ir a algum lugar e esse tal lugar seus pais não curtem muito e diz que você não vai de jeito nenhum, o que você faz? Diz que vai ao shopping ou coisa parecida. Mas tome muito cuidado. No lugar que você foi, pode ter gente conhecida e que podem comentar que viu você. Você tem que ficar muito alerta e se esconder. Se essa pessoa realmente te viu, você diz que era muito parecida com você, que nesse dia tava no shopping ou sei lá por onde... Leva na bolsa ou vista por cima uma blusa. As pessoas tem uma boa memória. “Mas você estava com aquela blusa roxa de florzinha ou com aquela bermuda de surfista, não estava?” Seus pais viram que você saiu com uma blusa roxa de florzinha ou com a bermuda de surfista. Então você não foi ao shopping. Mas e se alguém te liga e diz que está no shopping também e que precisa te encontrar? Calma, se você está no shopping, pode dizer que está no cinema. Mas pra isso, tem que estar em um lugar muito silencioso. Um banheiro resolve o problema, ou não. E se a pessoa pergunta em que sala e qual filme você está assistindo? Diga que o filme acabou de começar e tem duas horas e meia de duração e que precisa prestar atenção no filme e desligue o celular imediatamente. Ela vai entender, se ligar de novo e ver que seu celular está desligado. Você estava num filme e não podia deixar ligava, porque te atrapalharia.

Enfim, algumas mentiras são necessárias e outras não, mas use sempre com moderação e sabia usar direito. Lembre-se: a mentira tem pernas curtas e você pode ser desmascarado(a). Invente o máximo que você puder e até onde der. Só não minta tanto, tanto assim. Se for descoberto, você pode se ferrar por causa disso e pegar trinta anos em clausura (exagero).

Essa postagem pode ser uma mentira, ou não. Eu posso estar mentindo, ou não. Eu posso usar o ‘ou não’ para mentir, ou não. Mas na verdade (que verdade?), eu sou a mentira em pessoa. Eu tenho pernas curtas.

25 de maio de 2010

LOST


É triste ter que falar que acabou. Acabou e não mais vai ter, pelo menos algo de novo. Lost foi a única série que eu acompanhei fielmente, da primeira temporada até a última. Por um tempo, eu parei de assistir, mas sabendo que o fim estava próximo, corri pra ver. Consegui chegar a tempo de ver o final junto com o final. Eu estava louca para ver os comentários, mas eu não gosto de spoiler e por isso tive que me guardar.

Lost: ame ou odeie. É assim. As pessoas que acompanharam durante esses seis anos, até hoje amam a série. As que só viram uma ou duas vezes, ou uma temporada, sei lá, diz que é uma merda. Eu não posso falar, pois eu sempre gostei muito. Mas de jeito nenhum essa série foi uma merda. Tem gente que nunca assistiu e está aliviado com o final da série. Eu não entendo essas pessoas. A série não fazia diferença pra eles mesmo.

Muita gente esperava mais do final, mas eu ainda não tenho uma opinião concreta sobre o final. Posso dizer que não foi previsível, mas sei lá, acho que certas coisas eu não entendi. Mas me diga quem é que entendeu a série todinha até hoje? A crítica falava muito dos mistérios não desvendados e muita gente não gostou porque faltou muita coisa a se revelar. Mas como eu li em alguns lugares, a graça da série foi essa: não desvendar os mistérios.

Ok, se por exemplo, os diretores resolvessem dizer tudo sobre a série, todos os mistérios? Creio que a série não acabaria na sexta temporada, mas também não teria tanta graça assim. A série com oito ou dez temporadas? Acho que as pessoas iriam se cansar de assisti e os diretores se cansar de encher lingüiça. A graça tá no mistério. A série acaba, mas continua “viva”, pois os fãs ainda discutirão muito sobre isso e novos fãs vão entrar nesse mundo ainda.

Para mim e para tantos outros, Lost foi a melhor série de todos os tempos. Está pra “nascer” alguma que substitua Lost. Só loucos mesmo com Lindelof e Abrams poderiam ter inventado uma série desse porte. Onde já se viu urso polar em uma ilha? Uma fumaça preta que tem som de dinossauro matar gente? Mover a ilha, desaparecer, mudar de lugar? Viagem no tempo? Universo paralelo? Viver pra sempre? Enfim, a graça é essa! Coisas que não existem ou possivelmente existem, ser tornadas “realidade”.

Não vou negar que isso é muita viagem. Mas eu quase nunca ouço por aqui alguém dizer que vampiro não é viagem também. Inventam cada coisa por aí e ninguém fala que é viagem. Certo, tudo que é criado, como filmes, séries, novelas, tudo isso não passam de mentiras, principalmente em filmes. Mas as pessoas que criam isso têm uma ótima criatividade, não é mesmo? E por que não pô-las em prática?
Lost foi, de todas as (poucas) séries que assisti, a melhor. Agora que não ‘existe’ mais Lost, vou procurar alguma série que seja tão interessante e que prenda a atenção. Mas eu ainda tenho os DVDs e quando eu quiser assistir novamente, poderei. É sempre bom relembrar.

Eu não posso dizer que fui Lostmaníaca, como muitos são. Ainda tem coisas sobre as quais eu preciso saber e quem é um Lostmaníaco sabe tudo e muito mais. O que eu posso dizer e vou revelar é que eu chorei, coisa que é muito rara. Eu nunca choro com livros, com filmes, mas no penúltimo episódio eu chorei. As lembranças, a música, foi tudo feito pra gente chorar. Não chorei no último por que eu não estava sozinha, mas tive vontade. Não só porque foi emocionante, mas porque ali era o final e pronto. Não vai haver mais nada. Acabou! E pronto.


Os personagens me conquistaram e quase nenhum eu odiei, ou nenhum, ou odiei por um tempo. Eu desde sempre gostei de Jack, mesmo ele querendo ser o cabeça do grupo, querer mandar em tudo e fazer coisas erradas. A partir da terceira temporada, muita gente deixou de gostar dele, ou até antes. E eu, mesmo assim, continuava gostando dele. Hurley foi o que sempre me rendeu boas risadas, com aquele seu jeito de abestalhado, falando besteiras e coisas sem ou com sentidos. Um fofo, literalmente. Kate eu achava legal, mas nunca fui de “amá-la”. Sempre preferi ela com Sawyer do que com Jack. John Locke, o quase filósofo. Eu adorava as falas dele e o jeito que ele tinha de caçador, de inteligente, de um líder melhor que Jack. O papel dele na última temporada digamos que arrazou! Fazer personagens diferentes não deve ser fácil. Eu simplesmente adorei.
O casal Kwon, Jin e Sun, era lindo. No começo, Jin era muito chato, mas ele acabou ficando legal e aprendeu inglês. Charlie entristeceu todo mundo quando ele morreu na terceira temporada. Eu torcia tanto para ele ficar com Claire e eles ficaram mais como amigos. Daniel Faraday apareceu na quarta, quinta e teve participação na sexta. Logo quando apareceu na série, eu gostei dele. Seu jeito de nerd, louco por Física. Acho que os melhores episódios ele estava presente. Todas aquelas idéias sobre tempo e viagem, enfim. Tem ainda quem goste de Ben e por incrível que pareça, eu gosto dele. Foi o que mais matou na série e também o que mais apanhou. Ele sempre foi esperto e sempre se safou. Poderia ter morrido rapidinho na segunda temporada, mas permaneceu até a sexta, e sempre fazendo maldade, de uma forma ou de outra. Desmond foi outro que eu super adorei. Ele aparecia e desaparecia. A atuação dele, pra mim, foi mais que necessária. Não teria graça sem ele, ainda mais com aquele jeito de ele falar: “Brother”.
E por último, o meu “amado” James Ford, mais conhecido com Sawyer. Eu gostava dele não só porque ele era lindo e charmoso, mas por ele ser cínico, muito cínico e engraçado. Adorava quando ele colocava apelidos nos outros, principalmente quando ele soltava um “Son of a bitch!”
Enfim, uma série que vai muitas saudades. E o que eu vou ter mais saudade é de ouvir: “Previously on Lost”.



E o melhor era sempre no final:

24 de maio de 2010

Cores.

Tava dando uma olhada no Picasa hoje e "roubei" essas fotos pra mim. Achei lindas!










O alinhamento das fotos é meio complicado, então eu preferi mesmo centralizar todas.







Não, essa não é do Picasa, mas quis incluí-la nesse post porque hoje ele faz 58 aninhos. *-*

21 de maio de 2010

No divã do Dr. PIIIIII

Minha mãe dizia que eu era louco e que precisava ir ao psicólogo. Assim, não louco que precise de um psiquiatra, mas um louco ameno, que precisa ir ao psicólogo. Um louco com problemas é isso! Eu tenho dezessete anos e nunca tive problemas graves que precisasse de ajudas alheias, tipo, ajuda médica. Mas essa época da minha vida andava meio complicada mesmo. Eu tinha muitos amigos, sabe. Eu era praticamente o popular da escola. Todos me adoravam, as garotas eram loucas por mim. Eu tinha meu charme. Eu tinha, não tenho mais. Acontece que, não sei realmente o que aconteceu. Fui perdendo meu espaço e assim, perdendo meus amigos. Isso na época que meu pai trocou minha mãe por uma vagabunda. É, às vezes a separação afeta mais os filhos do que os pais. Na verdade, só afeta os filhos mesmo, porque quando eles querem se separar, já não se amam mais e estão felizes pois não vão precisar conviver mais alguns anos. Mas minha mãe mesmo não ficou feliz, claro. Ser trocada por uma vagabunda não é fácil. Mas ela supera rápido as coisas. Eu não. Hoje eu odeio muito meu pai. Não faz nem um ano que ele nos deixou, mas é como se fosse há muito tempo. Ele nem sequer vem nos visitar, pra saber como estamos. Só manda o dinheiro. É a obrigação dele, pelo menos. Ano que vem eu faço dezoito anos e não quero nem saber. Quero que ele gaste todo o dinheiro que ele gasta com a vagabunda e me compre um carro. Minha mãe diz para eu não extorquí-lo, mas esse vai ser meu trabalho a partir de hoje. Ele não dá a mínima, então nada melhor do que sugar o dinheiro de um pai idiota.
Como eu disse, minha mãe disse que eu precisava de um psicólogo. Até pensou em falar com meu pai, mas eu pedi que não fizesse isso. Eu combinei com ela de pedir o dinheiro a ele e com isso, ela pagaria. Eu não queria que soubesse que ele era a causa principal de estar indo ao psicólogo. Fora isso, minha mãe dizia que eu estava louco com essa idéia de extorquir meu pai. Tá, pode até ser loucura, mas eu sempre vivi no conforto quando ele estava aqui e não é por causa disso que eu vou deixar de viver assim.
Num belo dia, de belo não tinha nada, eu fui com minha mãe num consultório de um doutor muito louco. O nome dele era Dr. PIIIIII. Deixa-meeu falar de novo, Dr. PIIIIIIIIII. Nossa, o nome dele não saia de jeito nenhum. Era só Dr. PIIIIIIII mesmo e cada vez com mais Is.
Ele me parecia gente finíssima. Er, assim, gente finíssima não na aparência, sabe? Isso era o contrário. Era tão gordo que tinha um sofá de ferro. Nem cadeira era. Para falar a verdade, eu nunca tinha ido antes ao psicólogo, então tudo era novo para mim. Eu pensei que eu que sentaria no sofá e não ele. É, tudo bem, eu não fazia questão mesmo. Mas como eu tava falando, ele era muito legal. Recebeu-me super bem e disse que nossas conversas iam ser bem interessantes. Disse isso com os olhos arregalados e com a boca fechada(?) e eu tive medo nessa hora. Eu, sozinho, com um gordo louco feito ele, tendo conversas interessantes? Tive vontade de escapar naquela hora, mas já era tarde demais. Então, ele me guiou até o divã que aparentava ser confortável e que era muito grande que tinha perto do sofá dele. Acho que ele fez grande porque poderia aparecer um paciente tão gordo quanto ele ou mais. Aí acho que os dois teriam que dividir o sofá, ou não. Eu fico imaginando como seria se um gordão viesse se consultar. Acho que se tivesse dois dele naquele sofá, o sofá afundaria. E olhe, não é exagero meu. Ele era muito gordo mesmo, pra caramba. Nem imagino quanto que ele pesava. Deve ser na faixa dos duzentos.
Ah, eu penso muita besteira, principalmente quando conheço gente nova. Mas ele era só meu psicólogo, não seria meu amigo. É, até que poderia ser meu amigo sim. Eu teria que confessar para ele tudo o que eu sentia, pensava e achava. Sobre tudo. Eu não sei se eu conseguiria fazer isso, apesar de ele ser experiente, ele era estranho para mim e eu não contaria meus segredos para um estranho. Mas se eu tava ali, eu teria que contar.
Sentei-me no divã e era mesmo confortável. Eu fiquei tão bem lá que pensei em nunca sair, mas nós tínhamos apenas uma hora para conversar. Mesmo antes de a gente começar, eu já estava pensando em voltar lá toda a semana, só por causa do divã. Acho que ele pôs alguma coisa ali, alguma sensação, para quem sentasse nunca deixar aquele lugar. Será que ele seria capaz de fazer isso? Ele teria clientes a vida toda e não precisava se preocupar mais. Cliente fixo é sinônimo de dinheiro.
Como eu disse, eu penso muita besteira e o Dr. PIIIIII percebeu que eu estava pensando algo. Será que ele leu minha mente e agora sabe o que eu penso dele? E eu ainda não entendo, toda vez que eu vou falar o nome dele, eu não consigo e só sai PIIIII. Ta, dessa vez eu tentei falar o nome e não saiu de jeito nenhum. O nome dele nem é feio. Será que ele fez um feitiço para eu nunca conseguir dizer o nome dele? Ah, sei lá. Se eu pudesse dizer o nome dele, eu poderia indicá-lo a alguém. Mas será que ele quer se indicado? Não sei. Estou num dilema tentando descobrir isso. Fico até pensando que ele é um mágico ou sei lá o que, que me trouxe até aqui com seus poderes. Porque se ele não pode ser indicado, como minha mãe o descobriu? Acho que foi uma amiga dela, mas acho que essa amiga indicou esse consultório, que tem vários psicólogos e eu caí bem no divã desse louco e gordo.
O Dr. PIIII me olhava com uma cara de quem ia me comer. Mesmo estando nesse divã, eu queria sair daqui. E levar comigo o divã, claro. Mas onde eu colocaria? Tudo bem que minha casa é grande, mas é cheia de móveis e trecos que minha mãe espalha por lá. Eu acho que cabe no meu quarto. Éééé! No meu quarto cabe. É só eu tirar um trambolho velho lá que a minha mãe tinha coragem de chamar de divã e que era apenas uma cadeira. Divã é isso que eu coloquei minha bunda agora, aquilo no meu quarto não é divã. Ah, mas é só um sonho. Eu nunca conseguiria levar esse divã para minha casa, nem que eu derrubasse o Dr. PIIIIIII no chão. Só de pensar vendo o Dr. PIIII caindo no chão, me dá vontade de gargalhar. Imagina uma coisa gorda caindo no chão? Eu penso que essa imagem seria em câmera lenta e uma imagem sem som, surda. Só na hora que ele alcançasse o chão, iria fazer um barulho. BUUUUUUM! Não, né? Derrubar o Dr. PIIIIII era impossível. Se eu pensasse nisso, ele já estaria em cima de mim, me esmagando. Esse cara era esperto. Ele parecia ler minha mente mesmo.
Fiquei sentado por um bom tempo, calado, enquanto ele lia minhas fichas. Que fichas? Pra quê porra de ficha, se é só uma conversa entre homens? Eu estou sendo muito ignorante quanto a isso, ne? É porque eu nunca fui a um psicólogo e não entendo nada disso, essas burocracias, se é que se chama assim.
Ele falou alguma coisa para mim, que eu ouvi, mas não vi a boca dele se mexer, de novo. Ele continuou falando, eu continuei ouvindo e a boca dele continua do mesmo jeito. Será que ele se comunica comigo por pensamento? Coisa mais estranha.
Então ele deixou sua cadeira, também de ferro, e sentou-se no sofá. E eu percebi que ficaria de costas para ele. Bem melhor do que falar e olhar para aquela cara de louco dele. Eu comecei a falar mesmo sem ele me pedi. Acho que ele me pediu telepaticamente.

“Dr. PIIIIIII. Olá, meu nome é ... Ah, eu sei que você já sabe meu nome. Eu pensei que queria ouvi da minha própria boca. ... Ta, ta bem, vou direto ao assunto. Mas peraí, posso perguntar uma coisa? ... Posso mesmo? ... Ok, porque toda vez que eu vou falar o nome do senhor ... Ah, desculpe, você não gosta que chamem o senhor de senhor? ... Eeeer, desculpe novamente, me descuidei. Mas continuando... O que? Se eu to com calor? Não, não. Aqui tá ótimo. Por que eu não posso pronunciar o seu nome? Quer dizer, por que eu não consigo pronunciar o seu nome? ... Não, eu não consigo. Eu sempre tento falar o nome do senh, ops, o seu nome, mas sempre sai um PIIII. ... Você não quer falar sobre isso? ... É, desculpe, o paciente aqui sou eu, é verdade. ... Ta, eu vou começar. Como você sabe, meu pai deixou minha mãe. ... O que? Você não sabe? ... Ah é verdade, eu estou contando agora, pensei que sabia. ... Vou prosseguir. Certo, meu pai deixou minha mãe por uma vagabunda há um ano e eu não estou nem afim de perdoá-lo por isso. Ele quase nos deixou na mão, por sorte, minha mãe tinha economias. Éramos ricos e felizes, até ele fazer isso. Eu ainda não vi a cara dele desde que ele deixou a minha casa e nem quero. Acho ele um idiota. ... Eu sei que é meu pai, mas ele nem liga pra mim. ... Falo com ele sim, mas só por telefone. ... Ele pergunta se eu to bem, mas ele sabe a resposta. Acho que pergunta só por ironia. ... A vagabunda? Não quero ver na minha frente nem pintada de ouro. Mas enfim, quando ele liga, eu cobro o dinheiro. E exijo muito dinheiro. Pra manter aquela casa, minha mãe teria que trabalhar o triplo, ou mais. ... Vender? Nunca. Eu sempre morei ali e não quero deixar o conforto. E morando naquela casa, eu tiro mais dinheiro dele. ... Eu não me importo não. Ele já gastou muito mais só com ele e com a vagabunda. Já fizeram viagem e tudo mais para fora do país. ... Se eles tiverem um filho, eu vou fingir que eu não tenho irmão. Eu não agüentaria saber disso. A culpa é toda dele, que a minha vida tá assim. ... É claro que eu tenho certeza! Ele estragou a nossa vida, a minha e a da minha mãe. ... É, ela não parece bem, ela está bem. Ela se livrou dele, ne? Admito que foi melhor para ela, mas eu não queria que a separação fosse dessa forma. Se pelo menos ele disfarçasse...”

E lá vai o trem. Eu falei muita coisa sobre a separação dos meus pais, o quanto eu odiava meu pai, e o quanto eu o extorquia. E ele, como sempre, falava, mas não mexia a boca. Eu até me acostumei com isso, mas ainda me é estranho. Depois de conversar sobre meus pais, começamos outras conversas e acho que foi até interessante. Não, não foi interessante, ele me fez achar isso, com seu poder de manipular as mentes. Estou achando que cada vez mais que eu converso com ele, eu percebo outros poderes.

“... Se eu já transei? Essa é uma pergunta muito pessoal, Dr. PIIII. ... Eu sei que é normal, mas eu não sei falar sobre isso com ninguém. ... Tá louco que eu falaria para minha mãe? Ela ainda pensa que eu sou o bebê dela, imagina se descobrisse que eu já transei. ... É, acabei falando, ne? Como você consegue isso, persuadir as pessoas a falarem o que não quer? ... Eu não queria falar isso, e o senh.. você acabou me fazendo falar. ... É, eu admito que falei, ok. ... Ah sim, perdi com dezesseis anos. No ano passado, na verdade. Foi com uma amiga minha. ... Não, só foi essa vez mesmo. ... Quase todo o dia eu me masturbo. Mas pra que você quer saber isso? ... Interessante pra você, ne Dr. PIIIII. Eu morro de vergonha de falar essas coisas.”

Tá, eu nem acredito que o Dr. PIIII me fez falar sobre essas coisas. Ele é mesmo um louco. E mais louco sou eu, que respondo essas perguntas pessoais. Na verdade, quase ninguém sabe sobre isso, só a menina, claro, e um amigo nosso. Eu queria de novo, mas ela namora agora e eu ainda tenho muita vergonha. O Dr. PIIIII tocou no meu ponto fraco.

“... Eu não sei por que eu tenho vergonha, Dr. PIIII. Eu nunca falei abertamente sobre isso com ninguém. ... É, eu sei que é pra isso que o senh, você serve. Mas vamos mudar de assunto? Já falei demais sobre isso. ... Sim, a minha vida mudou muito depois que meus pais se separaram. Eu era o popular da escola, sabe? Já fiquei com muitas garotas de lá e como você pode ver, eu sou muito bonito e charmoso. ... É, ne? Às vezes eu tenho minha modéstia. Ainda bem que eu puxei à minha mãe. Aquele traste do meu pai... ... Ta, foi mal. A conversa sempre leva a ele. Mas sim, com isso que aconteceu, eu faltei muitas aulas e ainda falto hoje. Problemas de casa sempre me afetaram, acho que é porque eu não tenho um irmão ou irmã pra compartilhar essas coisas. Aí meus amigos acabaram me esquecendo e quando eu voltei, já tinha outro no meu lugar. ... É, outro. É porque eu era tipo o guia do grupo. Eles me seguiam o tempo todo. ... Não é ruim não, eu pelo menos nunca achei. Me sentia um líder. Tudo o que eu pedia, eles faziam. ... Eu nunca explorei ninguém, Dr. PIIIII. Eles que escolheram fazer isso e eu acabei me acostumando. Voltando, quando eu cheguei na escola, eles nem olhavam para mim direito, pareciam com raiva e eu não dei nenhum motivo para isso. Eles nem quiseram saber se eu estava bem, o que tinha acontecido para eu faltar tantos dias. ... Sim, eu tenho certeza, não fiz nada a eles. Acho que esse novo ‘líder’ tinha inveja de mim. Ele nem pertencia ao nosso grupo e aceitaram ele rapidinho. Eu quero sair de lá. ... Não, eu não vou me acostumar. E sem amigos, o que eu vou fazer? ... Arranjar outros? Eu só gostava deles, apesar de todos gostarem de mim, mas eram um bando de mesquinhos e eu sentia que eles tinham um pouco de interesse em mim, por que eu sou rico e tal. ... Não, eu não dava dinheiro pra ninguém. É que alguns fins de semana, eu fazia uma festinha lá em casa, quando meus pais iam pro motel. ... Eles me diziam, oras. Como eu ia adivinhar? Ai eu aproveitava e fazia a festinha e tudo era por minha conta. ... É claro que eu avisava a eles, ne? Tenho vizinhos fofoqueiros, eu não arriscaria minha pele. Sim, aí esses que se diziam meus amigos só ficavam perto de mim pra conseguir um convite. Mas se bem que nem precisava dessa babação toda, eu iria dá de qualquer forma, até porque quanto mais gente numa festa, melhor. ... Não, só música e algumas bebidas, nada de drogas e sexo. Eu que não iria deixar os pervertidos fazerem na minha casa.”

Conversei muito com ele ou conversei sozinho. É, eu ainda estou intrigado com essa história. A sessão acabou e eu tive que ir embora. Eu nem queria me levantar daquele divã. Mas levantei, ne? Quando me levantei, senti um clima diferente, pesado. Eu me sentia tão leve naquele divã que em uma hora eu já estava acostumado com ela. Ele me disse, novamente de boca fechada, que a gente teria uma próxima sessão na outra semana. Eu já estava ansioso, não para conversar com ele, mas pra me sentar naquele divã. Eu perguntei onde ele comprou, só que dessa vez ele não respondeu e me deu um risinho e abriu a porta pra mim. Minha nossa! Esse riso dele foi meio maléfico. E ele praticamente me expulsou dali. Ta bom, eu teria que sair dali a qualquer hora mesmo. E já estava ficando tarde. E eu percebi que eu fui o último paciente dele. Desci as escadas. É, esqueci de falar que o divã dele ficava no primeiro andar. Não tinha ninguém na recepção, nem a recepcionista. Pra variar, achei tudo muito estranho. Tava silêncio demais para uma hora daquelas, que todos largam do trabalho e vão para casa. Depois de um tempo, eu escutei alguns passos na escada e me escondi. Era o Dr. PIIII. Eu não tinha nada pra fazer em casa mesmo e decidi seguí-lo. Ele foi ao estacionamento e infelizmente estava de carro. Como eu ia seguí-lo até a sua casa? De repente, percebi que ele havia esquecido alguma coisa e voltou para buscar. Burro ele. Deixou o carro aberto e eu aproveitei para me esconder no banco de trás. Fiquei agachado lá e ele não conseguiria me ver, só se fosse lá trás. Temi que ele abrisse a porta para guardar alguma coisa, mas quando ele voltou com uma maleta, colocou-a no banco do lado.
Foi uma viagem muito grande até chegar a casa dele. Ele desceu do carro e soou o alarme. Como eu iria sair dali? Não sei como fiz, mas eu sai sem disparar o alarme. A casa era estranha e aparentava que ele morava sozinho. Fui espiar pela janela da sala. Acho que ele estava no quarto. Passei um bom tempo e não vi nada. Decidi ir embora, mas quando dei meia volta, dei de cara com ele. Levei um grande susto.

“... Me desculpe, Dr. PIIII. É que eu queria saber onde você morava. ... Não, ta certo, eu não venho mais aqui, me desculpe.”

Sai correndo dali. Ele tava uma cara muito mais estranha. Acho até que ele esqueceu a maleta de propósito, pra me fazer entrar no carro dele. Mas se ele não queria que eu soubesse onde ele morava, porque me deu aquela brecha? Decidi nunca mais ir naquele lugar, até porque eu falei a ele que não iria mais.
Na outra semana, na hora marcada, eu fui de novo para o consultório. Tive que esperar um pouco na recepção, pois ele não havia chegado. Mas a recepcionista me mandou subir, para esperar ele lá. Eu nem gostei da idéia, ne? Corri as escadas e quando cheguei lá, me joguei no divã. Agora eu estava mais tranqüilo, sentado ali. Se ele chegasse, e eu não estivesse ali, tremeria de medo. Depois de pouco tempo, ele lá chegou. Tinha um sorriso muito feliz estampado na cara. O que será que tinha acontecido?

“Mais uma vez, Dr. PIIIII, me desculpe por aquele dia, eu não queria lhe... ... Ta certo, então. Qual será o tema de hoje? ... Eu que escolho? Queria mais escutar hoje do que falar. ... É impossível? Ta bom, desculpe mais uma vez.”

Eu acho que ele achava que eu era um paciente pertinente. Eu não tinha a mínima intimidade com ele, mas ele tinha comigo. Eu não conseguia o fazer falar o que eu queria, mas ele conseguia.

“... Não, a semana foi tranqüila. Voltei para a escola, fiz uns amigos novos. ... É, me juntei com os nerds lá, já que meus amigos, que eu ainda tenho coragem de chamar de amigos, me rejeitaram. Mas estou indo bem. Foi até melhor conhecê-los. Minhas notas estavam baixas e eles me ajudaram e elas estão melhorando aos poucos. Teve prova essa semana e ainda tem semana que vem. ... Vestibular? Só ano que vem, ainda sou segundo ano. ... Eu ainda não sei o que fazer, mas penso em área de saúde.”

Ele parecia gostar da idéia quando falei que gostaria de fazer algo na área de saúde. Quando eu falei isso, ele levantou a sobrancelha, como que se admirando.

“Onde fica o banheiro, se é que aqui tem um? ... O senhor me espera um minuto? ... Desculpe, você... ”

Não sei por que, mas naquela hora eu precisava muito ir ao banheiro, mas não era necessidade fisiológica, era física mesmo. Masturbei-me no banheiro o mais rápido que pude. Eu já estava ereto, então seria fácil. Gozei rápido, me lavei e joguei água gelada para amenizar a situação. Do jeito que ele nota as coisas, ele me perceberia ereto.

“... Hã? Não, eu estava apertado, bebi muita água. ... Como você sabe que eu fui me masturbar? ... Eu tava precisando, desculpe. Essa semana eu não fiz e me deu vontade agora.”

A sessão desse dia acabou cedo. Ainda bem, eu estava encabulado com aquilo. Ele me fez ir ao banheiro? Foi ele que me fez ter essa vontade? Não sei, mas eu sinto que foi. Será que ele contaria para a minha mãe?
Cheguei em casa nesse dia muito cansado. Não sabia de onde tinha vindo esse cansaço. Pensei mais uma vez que tinha sido ele que colocou algum peso em mim para eu ficar cansado desse jeito. Dormi cedo e quando acordei no outro dia, mexi na minha mochila e tinha um bilhete do Dr. PIIII. Encaixei tudo. Ele me fez ir ao banheiro me masturbar, só para poder ter tempo de colocar esse bilhete:



Fiquei muito mais ansioso do que nunca. A semana iria demorar muito para acabar? Não sei. Fiz de tudo para me ocupar, mas não consegui. Eu finalmente iria descobri por que o Dr. PIIII era tão estranho.
A semana passou devagar, mas o dia chegou, finalmente. Cheguei da escola, tomei meu banho e nem almocei. Corri para o consultório. Cheguei lá, era outra recepcionista e ela disse que nunca houve algum Dr. PIIII naquele consultório. Eu disse a ele que tinha ido lá nas últimas duas semanas e pedi para ele checar. Meu nome não constava no cadastro de pacientes.
Decidi ir então à casa dele. Quando eu fui embora naquele dia que eu segui o Dr. PIIIII, anotei o endereço, claro. Ainda bem que eu tinha anotado e que estava com o endereço em mãos. Eu nunca poderia chegar lá sem o endereço. Fui de carro, mas não vi o caminho, então seria difícil me lembrar.
Peguei um táxi, seria mais rápido. Dei o endereço e ele foi correndo. Não demorou muito para chegar, como da última vez que eu fui de carro com o Dr. PIIIII. Contei as casas e justo aquele terreno que teria a casa dele estava vazio. Como assim vazio? Eu tinha ido lá há duas semanas, como uma casa pode desaparecer assim? Perguntei aos vizinhos e eles disseram que o terreno estava à venda há mais de quatro anos. Mas uma vez eu questionei, como havia questionado na recepção e eles disseram que nunca houve um vizinho chamado Dr. PIIIIII.
Peguei o bilhete e li diversas vezes, mas não consegui entender. Percebi que tinha pequenos riscos e então peguei uma lupa que eu tinha na minha mochila. É, parece que eu estava com sorte naquele dia. E eu vi o bilhete assim:



Ainda bem que eu não morri. Ele disse que "curiosidade mata". Nunca consegui desvendar o mistério do Dr. PIIIIII. Ele tinha poderes, isso eu sei. Ele falava sem mexer a boca, lia meus pensamentos, fazia com que eu falasse as coisas e ficasse encabulado, fazia com que eu fizesse coisas que eu não queria. Aquele divã tinha algo mágico e eu tenho certeza de que eles, o divã e o Dr. PIIIII existiram. Aposto que ele contratou aqueles vizinhos e aquela recepcionista para me dizer aquilo. Não é possível que alguém exista e depois deixe de existir dessa maneira. Eu fico pensando, será que aquele divã ainda existe naquele consultório? Eu iria até lá, mas depois desse mistério, tinha medo de voltar. Ainda mais com aquela frase que eu vi. Acho que vou enlouquecer. Só espero que minha mãe não me mande para outro consultório que nem esse.





No dia seguinte:

- Mãe, eu deixei de ir pro psicólogo. O Dr. que me atendia não está mais lá. Isso é estranho.
- Filho, eu marquei a consulta para você hoje, você ainda não foi ao psicólogo. Andou sonhando?
- Não, mãe. Eu fui semana pass...
- Isso é só pra se livrar, ne? Não conseguiu. Olha, você vai amanhã e eu vou lhe levar. O Dr. é ótimo. O nome dele é Dr. BIIIIIIII.


...

20 de maio de 2010

As teclas.

Letra A: Gente, vocês sabem que todos os dedos vêem até mim. Eles precisam muito de mim.

Alt: Como você é boçal, Letra A. Eu sou mais útil.

Letra A: É? Pra que você serve mesmo?

Alt: É, é...

Ctrl: Eu sou bem útil, gente. Os dedos me usam como comando. É bem mais fácil me usar.

Letra P: É, os dedos me usam em conjunto com o Ctrl para imprimir algum texto.

Caps Lock: Nossa, Ctrl. Quanta utilidade. Eles nunca usam vocês sozinho. Sempre precisa de um auxilio de alguma letra. Puft! Eu que sou útil. Eu deixo todas as letras maiúsculas.

@: Eu sirvo para emails. Quem hoje em dia vive sem email? E ah, no Twitter eu sou bem útil.

$: Eu sou o mais rico de todos! Hahaha

Barra de Espaço: Quem é que não me usa? Em qualquer lugar, todos me usam. Imagina se eu não existisse? Iasairtudojuntoeninguémentederiaoqueestáescrito.

Shift: Ei, Ctrl. Eu também sirvo para comandos, não é só você.

F1: Ei, pra quê eu sirvo mesmo? Como é que eu não sei minha função? Ninguém me usa.

+: É melhor assim, F1. Eu sei que sirvo para somar, mas não me usam tanto assim, só quando precisam de calculadora. Ainda bem, sabe? Senão eu estava muito afundado hoje.

F5: Eu gosto da minha função. Atualizo tudo o que é antigo. Sou uma tecla do presente, gente. Nada velho me leva.

Del: Eu sou o melhor de todos. Apago tudo o que tiver pela frente, até essas letrinhas rabugentas.

Letra Z: Rabugentas? Eu sou uma letra muito importante. Eu fecho o alfabeto. E sem nós, letras, você não existiria.

Del: E por que não?

Letra Z: Porque seu nome não seria Del. Seria o nada. As letras D, E e L ajudam você nisso. Você não pode chamá-las de rabugentas.

Letras D, E, L: É verdade. Nos sentimos ofendidas com isso.

Esc: Ninguém é mais importante que ninguém, gente. Nós somos teclas, somos todas úteis. Cada um tem sua função e pronto. Não adianta brigar por causa disso.

Enter: Mas não vamos negar, ne? Os usuários vivem me usando. Quando me apertam, eu posso pular uma linha, dizer a verdade, abrir um documento.

?: No final de uma frase, eu sempre sou usada quando se trata de uma pergunta. Eu tenho o corpo tão bonito.

!: Eu sou usada principalmente quando as pessoas estão espantadas.

>: Eu sou o sinal maior.

<: Eu sou o sinal menor.

Número 1: Sou número. Eu faço parte de contagem de qualquer tipo. Quando se trata de dinheiro, eles me adoram.

Número 0: Eles me preferem em relação a dinheiro. Pense bem, quando estou do lado direito, quanto mais irmãos gêmeos eu tiver, melhor.

(): Mercenários!

Letra B: Vocês são namorados?

)(: É claro que não.

¬¬: Eu tenho cara de que pareço uma cara de tédio?

“”: Nós adoramos a nossa função. Ficamos entre frases e isso é tão legal!!!

Letra Y: Ei, o estilingue se inspirou em mim. Vê se eu não pareço um estilingue?

Letra U: Eu pareço uma ferradura.
^: Eu pareço um chapeuzinho. Haha, haha, hehe, hihi, hoho, huhu. Kkkkkkkkkkk Tiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiixxxxx!

~: Esse cara ta doente, ou é? Eu sou lindo e meu nome é Til. Cadê minhas sobrinhas? Haha!

,: É cada um mais louco que o outro. Eu sirvo para não deixar as frases ambíguas, ou não, hein?

F4: Ei Alt, vamos nos juntar, pra fechar esse Word. Eles falam muita besteira. É melhor agora, antes que as outras teclas se manifestem.

Home: Eiiii, não façam isso. Deixa eu falar primeiro...

Alt: Boa idéia, F4. Vamos logo. 1, 2, 3 e já!

ALT F4!



Mouse: Eita, gente! Desculpa. Vou ajudar vocês.




O Word fechou.

19 de maio de 2010

Seres inanimados no quarto.

Travesseiro: Estou irritado! Esse cabeção todo dia deita em mim. É um peso...

Colchão: Para de reclamar você aí. Você só suporta o peso da cabeça dele. E eu que tenho que aturar aquele corpo cheio de banha.

Madeira: Eita que esse povo hoje tá cheio de frescura. Eu suporto vocês dois e ele. O peso é beeeem maior.

Cama: Chega de conversa. Sou eu que suporto o peso maior. Meus quartos vivem doendo. Eu tenho que segurar os três e aquele barrigudo, ora essa. O que menos sofre é você, Travesseiro.

Travesseiro: É, é. Verdade. Mas você não viu como ele me deixa brega? Olha só essa fronha cheia de flores. Ó como sofro!

Chão: Vocês são muito idiotas. Vocês só suportam ele na hora de dormir, que é no máximo oito horas. Eu sustento esse balofo toda a hora do dia, e até quando ele está dormindo, que é o triplo, ou mais. Ele, Travesseiro, Colchão, Madeira, Cama. Vocês reclamam da boa vida que tem.

Cama: Eu sou muito pesada para você, Chão?

Colchão: É, coitado de Chão. Vive sujo e ainda suporta o peso de todos nós.

Chão: Só de vocês não. O Guarda-roupa, o Ventilador, a Cômoda, o Cabide, e por aí vai. Isso só no quarto. Imaginem pelo resto da casa. Eu sou o escravo daqui.

Guarda-roupa: Eu tenho que suportar tanto treco. Esse balofo só guarda besteira. Pior é quando ele guarda comida em mim e esquece. Eu tenho que aturar o mal cheiro até que ele lembre e jogue fora.

Ventilador: Eu não paro um minuto para ele. Tenho que ficar rodando oito horas sem parar. E não é só isso. Quando ele não está no quarto, vai para outro lugar e me leva junto.

Cômoda: E esse porta-retrato brega que ele me manda sustentar? Minha nossa!

Cabide: Ainda bem que eu sou magrinho e ele não coloca quase nada em mim.

Cama: Eu também sou magrinha, mas agüento muita coisa, viu?

Madeira: Um dia eu quase que fui partida ao meio. Tive medo de morrer. E não tenho escapatória. Nem o Chão pode me salvar.

Chão: E mesmo que eu pudesse. Já não basta sustentar vocês. Eu vivo sujo. Derramam em mim água, suco, comida, um monte de porcaria. E quando cai um copo de vidro? Eu mesmo não salvo. Deixo ele se espatifar todo.

Ventilador: Nossa, Chão, que maldade.

Chão: Eu não tenho obrigação com ninguém aqui. Sou escravo sem carta de alforria. O meu destino é esse. Nunca vou sair daqui. Vocês podem sair, se ele se mudar. Ver novos ares. Eu não, estou condenado aqui, portanto não poupo ninguém.

Cama: Nem eu, Chão, que sou sua melhor amiga?

Chão: Você pode se defender.

Guarda-roupa: Você é muito dramático, Chão. Não é só você que está condenado. Eu também estou. Não vê que estou preso à parede?

Cabide: É verdade, Guarda-roupa. Se o balofo se mudar, eu vou sentir tanto sua falta. A gente compartilha quase as mesmas coisas, como roupas, bolsas... Não quero me separar de você.

Colchão: To vendo clima de romance aqui. Hahaha

Madeira: E não é, Colchão? Eu sempre desconfiei que o Cabide era gay e apaixonado pelo Guarda-roupa. Quando o balofo colocava os dois lado a lado, eles ficavam cochichando para ninguém ouvir.

Cabide: Ei, parem com essa fofoca. O Guarda-roupa é só um amigo para mim. E eu não sou gay coisa alguma.

Cômoda: Gente, ele não gostou nada disso. Tá estressadinho, olha!

Todos, menos o Cabide e o Guarda-roupa riram.

Guarda-roupa: Vocês estão é com inveja da nossa amizade. Só por que a gente se conheceu primeiro.

Chão: Até que vocês fazem um casal bonitinho. Daqui de baixo eu vejo.

Cabide: Ah, mas eu vou revelar algo aqui que vocês não vão acreditar! O Chão está apaixonado pela Cômoda.

Cômoda: O que é que tem eu aí? Pode repetir?

Colchão: Tão dizendo aqui, Cômoda, que o Chão é apaixonado por você. Você sabia disso? Você é a única que ele suportaria a vida inteira sem reclamar.

Cômoda: Isso é verdade, Chão?

Chão: Você não está vendo que ele está inventando? É tudo mentira. Mas eu suportaria você pelo tempo que você quisesse.

Cama: Com essa, ele assumiu!

Madeira: Não adianta negar.

Chão: Cabide falou isso para vocês perderem a atenção nele e no Guarda-roupa.

Cabide: Foi o que eu ouvi por aqui.

Travesseiro: Vamo deixar de palhaçada!

Ventilador: É, né? Eu to cansado de ouvir vocês falando besteiras.

Madeira: Calem-se!

Guarda-roupa: O que foi?

Colchão: Acho que ela ouviu alguma coisa. É, acho que são vozes.

Porta: EEEEEEEEEI, silêêêncio! O balofo ta vindo!

...

Balofo: Vem, meu amor. A cama nos espera.

Balofa: Estou indo, amor.

...

Cama: Me ferrei! Dois balofos! AAAAAAAH!

Travesseiro, Madeira, Colchão, Chão: Nós também! Nããããão!

Guarda-roupa, Ventilador, Cômoda, Cabide: Boa sorte, gente! Hahaha

16 de maio de 2010

Vá se foder.

- Vá se foder!
- Ah, vá se foder você!
- Vem-me foder?
- Eu não, vá se foder com sua mãe!
- E você, vá se foder com seu pai! Hahaha!
- Vá você se foder com sua vó desdentada.
- Vá ser fodido pelo seu cachorro.
- Que o cavalo lhe foda.
- Então vá deixar um elefante lhe penetrar.
- O tiranossauro rex quer lhe foder.
- Nem pinto ele tem.
- E nem você. Hahahaha!
- Você é que não tem... Ah, vá se foder!
- Vá você foder sua irmã, tia, sobrinha, prima. Ah, que você seja fodido também.
- Até que não é má idéia foder minha irmã, tia, pri..Ah, te fode, caralho.
- Com caralho não, foder com bocet...
- Te fode, biba!
- Te fode, corno.
- SE FODA!
- Tá... Você também. FODA-SE!

QUE SE FODA O MUNDO!

14 de maio de 2010

Intrigas

Eu disse que não ia postar, mas acabei escrevendo ontem a continuação dessa história. Consegui o notebook. Não gostei muito dessa, mas como eu já havia escrito, não poderia deixar de postar ou simplesmente apagar.





1ª Parte: Descrição.

• Cenário.

Uma grande sala de estar em forma de L. Paredes brancas e com certos quadros coloridos pendurados. Uma mesa de jantar de vidro com quatro lugares perto de uma janela que dava para rua. Na mesa, uma bonita toalha de renda e um grande vaso com orquídeas verdadeiras. O perfume das orquídeas inundava todo o ambiente. Perto da porta que dava para a varanda, um lindo sofá e como a parede, era branco. Almofadas azuis e vermelhas se destacavam no belo sofá. Em frente ao sofá, uma estante não muito simples e nem muito exagerada, mas com uma grande televisão de plasma, home theater e vários CDs e DVDs nos seus devidos cantos. Cortinas azuis marinho na janela e na entrada da varanda. Próxima à mesa, havia uma bela estante de quase dois metros. Nela, havia diversos livros de estudo e de leitura, como também pratos, taças, utensílios de vidraria. O chão, como a parede e o sofá, branco. Impecavelmente branco. Límpido e brilhante.

• As personagens.

Maysa, 26 anos, solteira. Alta, 1,77 metros. Cabelos compridos, ondulados e castanhos. Belas coxas, seios enormes, cintura fina e barriga sequinha. Rosto rosado, lábios carnudos, olhos negros, nariz afilado. Estudante de Direito, último período de faculdade particular. Estagiária de um escritório de advocacia.

Bianca, 22 anos, solteira. Baixinha, 1,54 metros. Cabelos curtos, cacheados e pretos de tintura. Corpo magro e raquítico e pernas finas. Rosto branco, quase pálido, com sinais em cantos estratégicos. Olhos verdes e orelhas cheias de brincos. Estudante de Letras em faculdade pública. Não estagiária e dependente.

2ª Parte.

Bianca acordou cedo, mas não foi à faculdade. A preguiça sempre reinava para ela. Ficou deitada no sofá da sala vendo TV. Enquanto isso, Maysa, que achava ser a mais responsável da casa, se arrumava para a faculdade e depois de lá, iria para o seu estágio. Só voltaria às sete da noite. Maysa olhava com desdém para Bianca, e esta pouco se importa. Na verdade, Bianca se importava sim. Maysa de vez em quando passava na cara as coisas que ela fazia. Só por que ela estudava Direito, “um curso altamente significativo, em relação aos outros cursos mesquinhos que existem”. Era assim que May se referia a seu curso.
Eram irmãs e desde que sua mãe tinha morrido, elas moravam juntas. Maysa era a mais velha e colocava dinheiro em casa. Bianca recebia mesada do pai, que morava longe. Só assim para não depender muito do dinheiro de Maysa. Maysa pagava as contas e vivia reclamando quando Bianca levava alguma amiga sua da faculdade para fazer um trabalho ou algo do tipo. “Você vive trazendo essas suas amiguinhas para cá e leva toda a minha dispensa”. Ato de egoísmo sempre presenciado por Bianca. “Minha dispensa? Ela acha que só por que ela paga, tem que ser só dela?” Bianca não tinha ninguém para desabafar e não tinha coragem de falar na cara de Maysa. Desabafava com a parede mesmo.
Bianca ficou aliviada, pois sua irmã havia ido para a faculdade que ela tanto se gabava. “Eu não entendo como uma pessoa pode se gabar com uma faculdade particular. Qualquer um passa. Assim é muito fácil”, pensava Bianca. Desde sempre aturou as falações de sua irmã sobre o tal curso. Mas era difícil de aturar todos os dias as mesmas falações. “Porque ela não arruma um namoro rico e especificamente do curso de Direito, claro, para ela me deixar em paz? É muito justo!”
Maysa estava solteira há três anos e a falta de sexo a importunava a ponto de querer levar pra cama o primeiro que aparecesse. Ela poderia fazer isso, mas não faria. Dizia-se séria e não se daria para qualquer um. Bianca admitia: Maysa era linda! Só não entendia como ela podia estar solteira há tanto tempo. Provavelmente seria por que ela tinha se jogado tão adentro de seu curso que acabou esquecendo-se de relacionamentos. Mas ela nunca deu muito certo nos relacionamentos. Seus namorados morriam de ciúme, ela sempre dava bola para alguém que estivesse olhando-a. E sempre acaba assim, em crises de ciúme.
Bianca optou por ficar na sala mesmo, vendo TV, esperando o tempo passar, espiando os vizinhos do prédio da frente na varanda. Era a sua diversão para uma manhã calma sem a irmã para atrapalhar.
Enquanto isso, Maysa prestava muita atenção na sua aula com o professor mais gato da faculdade. Quando ele a fitava, ela jogava um olhar sensual e este nem percebia. Tonta! No término da aula, foi tirar dúvidas e jogou praticamente na cara do professor seus belos seios e desta vez ele notou. E como. Arregalou os olhos, mas se deteve à tentação. Ela sempre teve esse poder de sedução, sabia como usar, mas usava nas pessoas erradas.
Mergulhada em tédio, Bianca foi procurar algum livro na estante para ler. A maioria era livro de Direito. Seus livros de Literatura perderam espaço para tantos livros de códigos e leis. Achou seus clássicos em uma porta da estante. Escolheu o que escritor que ela mais adorava: José de Alencar. Lia Iracema pela décima vez e não enjoava de jeito nenhum. Sentou-se no chão da varanda e mergulhou em sua leitura.
Terminou as aulas e Maysa foi almoçar rapidamente para não se atrasar no estágio, que era muito perto dali. Ela tinha que chegar dez minutos antes para seu chefe ver que ela tinha pontualidade. Ele era carrasco e não admitia atraso de estagiários.
Bianca preparou seu almoço e comeu lendo seu livro. Era tão viciada em leitura que às vezes se alimentava dela. Mas estava muito magra e precisava se alimentar. Às três e meia da tarde, sua amiga da faculdade chegou para fazer um trabalho, que elas acabaram não fazendo. Procuraram filmes e foram assistir. Prepararam várias comidas e a amiga de Bianca havia trazido cachaça.
Maysa estava louca no escritório de tanto digitar relatórios. Não era bem o que ela queria na sua área, mas era o que tinha disponível para ela, apesar de estar no último período. Não tinha nem chegado à metade e já estava se cansando.
No apartamento, o sofá estava fora do lugar, havia copos em cima da mesa de jantar, pipoca no chão, almofadas e bebidas no chão, a parede com manchas pretas. As belas orquídeas não tinham sido regadas e estavam muchas. Bianca levou sua amiga até a porta e se jogou no chão, atrás do sofá. Sua tarde tinha ótima. Conversas, filme, pipoca, cachaça. Tudo resumido em diversão.
Maysa estava aliviada porque estava voltando para casa. Sua tarde no trabalho tinha sido estressante e nada melhor do que chegar em casa e descansar. Ao abrir a porta do apartamento, viu o caos que estava a sala que ela tanto gostava. Entrou com muita fúria e gritou por Bianca e esta nem ouviu. Procurou por Bianca e a achou jogada no chão, bêbada em plena terça-feira à tarde.

3ª Parte: Bianca Fala.

Maysa chegou na pior hora. Eu havia dormido e me esqueci totalmente de arrumar, sabendo que minha irmã se visse aquilo surtaria. Meu dia tinha sido um tédio e fiquei procurando o que fazer, já que eu não iria para a faculdade. Liguei para minha amiga e ela trouxe álcool, nada melhor para uma tarde de tédio. A sala perfeita que minha irmã criou estava um caos. Tudo praticamente fora do lugar. Embebedei-me muito e acabei dormindo e não ajeitei nada. Puta que pariu! Por que eu me esqueci de uma coisa dessas? Maysa chegou louca da vida e me carregou do chão, me colocou no sofá com grosseria e jogou água na minha cara. Acordei sem saber onde eu estava e quando olhei para a cara de Maysa me assustei.

- O QUE PORRA É ESSA AQUI, BIANCA!? – Eu percebi que ela estava irada. – Eu não acredito que você fez isso COM A MINHA SALA. PUTA QUE PARIU BIANCA. Você acha que pode fazer o que quiser quando eu não estou em casa, acha que pode bagunçar tudo, SUJAR tudo e deixar por isso mesmo? Você acha que pode trazer qualquer um pra minha casa?

Quando eu ouvi a expressão “minha casa”, fui eu que fiquei irada dessa vez e respondi quase sobriamente:

- Como é? Tua casa? Você tá louca, Maysinha? – Falei o nome dela ironicamente. – Só porque você rege essa casa sozinha, não quer dizer que ela é só sua. Eu chamo quem eu quiser para cá, você não é dona dessa MERDA aqui! Mamãe deixou esse apartamento em nosso nome, e não significa que é só seu.
- Ah, quer apelar para mamãe, é? Se ela soubesse como você é aqui, Bianca, ela não colocaria seu nome de jeito nenhum. E ela deve ta vendo como você se comporta aqui: não vai para a faculdade, fica VAGABUNDANDO o dia inteiro em casa, bebe em dia de semana, trás amiguinha pra cá, bagunça tudo e nem arruma NADA!

- Dá para falar direito comigo? Eu não sou nenhuma das suas coleguinhas fúteis lá da sua faculdade não, ouviu? E não, eu não estou apelando para mamãe não, só quis dizer que ela deixou isso para gente.

- Que é claro, é mais meu do que seu. Eu pago tudo desse apartamento, além de contas, a feira do mês...

- Você faz questão de passar na cara, né? Faz questão de fingir ser a certa.

- Claro! E você não faz por menos. Fica em casa, enquanto eu estou no trabalho. Eu estou fazendo Direito! Eu vou conseguir me sustentar e você não, não dá a mínima para isso, nem procura o que fazer. Fica dependendo do dinheiro de papai para poder ir pra as suas festinhas de merda.

- Eu faço o que eu quiser com o meu dinheiro. Você não tem o seu e faz o que quer? Pronto. Não interessa a você com o que eu gasto, oras.

Eu já estava de saco cheio dessa discussão idiota, mas não podia parar de falar.

- Faz né? Enquanto eu fico com pouco dinheiro para me divertir e gasto noventa por cento em pagamentos, você nem sequer se oferece para ajudar nas contas, porque ganha pouco e é mesada.

- Pois é, Maysa, eu não posso fazer nada quanto a isso.

- Ah, pode sim! Acha que vai viver sempre na boa vida, à custa dos outros? Acha que vai ficar vagabundeando o dia inteiro, em vez de estar trabalhando? Puta que pariu, viu! Acostumou-se, fudeu!

- Quem mandou ser a mais velha? É isso aí, menina. Trabalha e coloca porra de comida em casa. É pra isso que você serve. Por que você acha que eu ainda estou morando aqui? É pela vida boa mesmo. – Falei assim de propósito, para provocá-la.

- COMO É, BIANCA? – Ela ficou mais furiosa ainda. Consegui o que eu queria. – Se eu pudesse, eu enxotava você aqui dessa casa hoje mesmo, sua nojenta!

- Mas não pode né? Que peninha! E nojenta, eu? Não, infelizmente sou sua irmã, mas felizmente eu não sou igual a você. Mesquinha, ignorante, boçal, irritante, imbecil, idiota e egoísta!

E depois da última palavra que soltei, só senti uma tapa forte em meu rosto. Caí no chão com a força que ela teve. Os vizinhos do prédio da frente estavam assistindo a “novela” que era aquilo. Eu nem acreditei que ela fez aquilo. Senti meu rosto arder e imaginei estar bastante vermelho. Fechei a porta e a cortina da varanda, para ninguém mais ver e ouvir. Levantei-me com a mão no rosto e ela sorrindo.

- Você é muito otária, Maysa, otária. É isso o que você é. Não sabe discutir com palavras e já parte para briga. Engraçado, né? Você faz Direito, “um curso altamente significativo” e nem argumentar sabe. Quero ver como vai ser se você for advogada e sair às tapas com os promotores, juízes e o escambal! Uma advogada que não sabe argumentar. Vai ter que aprender, hein? Último ano na faculdade e ainda não sabe? Pelamordedeus, onde esse país vai parar com advogados formados em faculdade privada?

Ela ficou calada o tempo todo enquanto eu bombardeei tudo na cara dela. Estive me guardando muito tempo e hoje parecia o dia certo pra jogar tudo na cara dela também. Ela não dizia que pagava tudo e tal e que praticamente era a dona da casa? Pois bem, joguei tudo na cara dela mesmo, pra ver como ela ficaria. E ela ficou sem reação, sem saber o que dizer.

- Está vendo, eu tenho razão. E como foi fácil calar essa sua boca, que só sai porcaria. Falei a verdade e você se calou.

- Você é muito hipócrita mesmo. Fala de mim, mas é pior ainda. Me diz o que você aprende naquele curso, qual é mesmo o nome? Letras. Poxa, ela vai ser professora! Se não for boa, queridinha, vai viver trabalhando, corrigindo provas, de domingo a domingo, ganhando um salário mínimo. E sinto muito, eu sei argumentar bem melhor que você. Pra você que não sabe, participei de uma audiência e fui a melhor.

- E eu quero lá saber se você foi a melhor ou pior. Mas para você é importante, né? Sempre quer estar em primeiro lugar em tudo, achando que com isso tem muita competência.

- E tenho, bastante! Coisa que você não tem e se tem não exerce.

Essa discussão toda foi eu em pé e ela sentada no sofá, como se fosse uma lady. Antes eu estava sentada na cadeira, mas depois da tapa, não quis mais me sentar pelo dela. Tive que ficar o mais longe possível. E era grito de um lado e grito de outro. Tudo isso por uma sala desarrumada que em um minuto ficaria do jeito que estava antes. Maysa gosta muito de colocar as pessoas para trás, esfregar na cara mesmo. Além disso, as discussões dela são as piores. É cada merda que ela fala e eu, idiota, ainda respondo.

- Então vai testar sua competência em outro canto, vai. Que eu já estou por aqui de ouvi essa sua voz irritante.

- Não, eu não irei sair daqui enquanto esta merda não estiver arrumada. O que você usou meu, hein? – Ficou procurando pelo chão, pela mesa, pelo sofá, só pra falar mais alguma coisa. – Ah, meu filme, né? Eu vou querer outro, deve estar arranhado. Minha pipoca preferida. Eu quero outra igual amanhã na MINHA DISPENSA! Deixa-me ver mais o que... Sim, quero essa parede alva como a neve. O sofá no lugar, esses copos lavados e...

- Se exigir demais, não vai ter nada, viu?

- Quero só ver. – E foi para o seu quarto.

E assim acabou a nossa briga. Tudo, tudo por causa de uma simples bagunça. Mas deu muita vontade de esmurrar, chutar, amassar a fuça dela. Eu estava calma por fora, nem tanto, mas tava, porém por dentro eu parecia uma bomba-relógio, a ponto de explodir a qualquer momento e voar em cima dela. Mas eu não podia fazer isso, não podia me baixar ao nível dela. Eu sei que era isso que ela queria. Estava cansada de palavras e queria brigar com o físico. Mas eu iria perder, ela é bem mais forte que eu. Só que com palavras, eu ganho. Eu sempre ganho. Ela pode falar o que quiser do meu curso, pode me falar mal à vontade, mas ela nunca vai consegui me calar, nem com uma tapa, com um murro... Com nada!
Mas eu arrumei tudo, como ela pediu, por que ela nunca mandou em mim. Coloquei o sofá e as almofadas nos lugares certos, guardei o DVD dela no cantinho certo e nem estava arranhado. Limpei o chão e a parede, tirei os copos da mesa, lavei e guardei. E finalmente abri a cortina. Ainda tinha um vizinho ou outro olhando para o apartamento. Eu mostrei meu dedo e logo se foi embora. A sala estava como antes, limpa e arrumada. Mais a história não iria acabar por aí. Eu peguei todos os livros dela de Direito que estava na estante, fui até o lixo e joguei. O zelador passaria naquela noite, para levar todo o lixo lá pra baixo. Ela estava tomando banho quando eu fiz isso e só ia notar quando saísse para estudar. Eu, claro, fui embora para casa da minha amiga que foi lá mais cedo. Nem imagino o que aconteceu quando ela descobriu. Se eu estivesse lá, era capaz de ela me jogar pela varanda. A gente tem que prezar a vida quando se tem uma irmã louca dentro de casa.

12 de maio de 2010

Sem título.

Creio que essa semana não vai vir nenhuma história. Às vezes, a empolgação e a inspiração dura um ou dois dias. Tenho três contos pendentes e mais algumas idéias para outros. Eu começo a escrever e paro pra pensar o que vai acontecer no próximo parágrafo e acabo "enferrujando". Mas também é a falta de tempo que eu tenho nesse computador. De manhã está livre, mas eu estou dormindo. À tarde, minha irmã trabalha e a noite é disputa por mim e pela minha irmã mais nova. Ou seja, eu tenho que dividir o horário da noite com ela, e às vezes isso é impossível. Lembrei que meu irmão tinha um notebook velho que um dia ele me emprestou para usar a internet. Uma porcaria! Mas, se tiver Microsoft Word, ou Wordpad, ou até Bloco de Notas, para mim está ótimo! Assim poderei escrever a qualquer hora do dia e sem distrações, até por que quando eu estou escrevendo e conectada à internet, eu desvio minha atenção. Então pedi o notebook a ele ontem, mas como sempre, ele disse que ia me dá "amanhã". E eu conheço esse "amanhã". Todo dia é a mesma coisa: "Amanhã eu te dou". Ok, só se passou um dia e então eu não estou tão preocupada assim, mas às vezes, esse seu "amanhã" parece não chegar nunca. Mas eu tenho fé que ele vai me emprestar.
Outro motivo por não haver histórias essa semana (por enquanto. acho que não vou aguentar e vou escrever qualquer besteirinha) é que no Domingo tem o concurso que vou fazer. Já está muito próximo e eu preciso resolver umas provinhas (uma eu resolvi hoje). O tempo é pouco, mas acho que eu consigo. Não, eu consigo!

11 de maio de 2010

Navio Amigo.

Conheci Pedro quando eu tinha sete anos. Nós fomos criados juntos e vivíamos um colado ao outro. Sempre. As lembranças que tenho dele não são poucas. Foi muito engraçado quando eu me mudei para a rua dele. Lá só tinha garotos e nenhuma garota. Incrível isso, né? Eu não queria me mudar de jeito nenhum, tinha minhas amigas na antiga rua. Sabe como é, criança não gosta de ser contrariada. Mas as circunstâncias e o destino me levaram para rua de Pedro. Chorei muito, mas foi inevitável. Chorei mais ainda ao saber que naquela rua só tinha garotos. Eu não gostava de garotos. Eu estava na época em que garotos e garotas eram “inimigos”. Eles, com seus joguinhos e nós com nossas bonecas. Eu tinha jurado que não falaria com nenhum garoto daquela rua. Todos pareciam bastante bobos e estúpidos. É, eu pensava assim deles aos sete anos. Quando eu ia para escola (a minha sorte foi que não mudei de escola), eu via os outros garotos indo também. Alguns com seus pais, de carro, outros mais velhos já iam de ônibus e alguns de condução, junto comigo. Sempre reclamei à mamãe que não gostava de ir de condução. Eu era a única que ia para outra escola, ou seja, ninguém da minha escola ia comigo. E tinha muitos garotos mais velhos que eu e às vezes, eles brincavam comigo e eu não gostava nem um pouco disso. Pedro era um deles. Ele tinha nove anos. Para mim, ele era bem mais velho que isso. Parecia ter uns treze anos pela altura que ele tinha. Pedro e seus amiguinhos brincavam com todos da condução. O motorista perdia a paciência com esses garotos, às vezes. Passaram duas semanas até que, muitos dos garotos da minha rua pegaram gripe, brincando na rua quando estava chovendo. Mas Pedro não. Nesse dia, sua mãe não o deixou sair de casa. E foi no outro dia que o conheci. Tinha poucas crianças na condução e eu me sentei no meu lugar predileto, lá na frente e ao lado da janela. Eu nunca conseguia aquele lugar e nesse dia tive a sorte. Era ali que Pedro sentava com os amigos. Engraçado é que as crianças costumam sentar atrás para bagunçar, mas eles faziam diferente. Pedro sentou ao meu lado. Nesse dia, ele estava muito quieto. Provavelmente por que seus amigos não estavam lá. Eu fiz cara feia quando ele sentou. Não queria que ele brincasse comigo de novo. Mas ele não fez nada disso. Ele falou comigo. Disse ‘Olá’. Eu não sabia se respondia ou não, mas mamãe me ensinou a ser educada. Eu disse ‘Olá’ de volta, bem tímida. Eu não era acostumada a conversar com garotos, muito menos com um sentado ao meu lado. Mas aí conversamos. Parecíamos adultinhos conversando.

- Porque você se mudou para lá? Aquela rua só tem meninos.
- Não sei. Mamãe não gostava da nossa antiga rua. E ela teve alguns desentendimentos com alguns vizinhos.
- Aaaah. – Disse admirado. – Mas e o seu pai, aceitou logo assim?

Mas eu não respondi nada. Meu pai tinha abandonado minha mãe quando eu nasci. Eu me sentia triste por pensar que ele a abandonou por causa da minha existência. Ele ficou olhando estranho para mim, sem entender por que eu me calei. Então, percebendo minha tristeza, ele mudou de conversa e logo descobri que ele não era muito mais velho que eu, como eu havia pensado antes. Então eu fiquei feliz em saber que não era tão criança assim. Os outros garotos da rua, ele me disse, só tinham cara de mais velhos. Tinha até garotos de cinco anos que andavam com eles. O mais velho da turma tinha dez. Fiquei impressionada e aliviada. Geralmente quando você é mais novo, todos te excluem ou nas brincadeiras dizem que você é café-com-leite. E então partimos cada um para a sua escola. Contei a novidade às minhas amigas e elas não gostaram nem um pouco. Diziam que os garotos se aproximavam de nós para saber os nossos segredos, o que nós pensávamos deles e tal. Mas eu não pensava assim, não de Pedro, pelo menos. Eu era criança, mas eu sabia como eram essas coisas. Não liguei para o que elas disseram, afinal, Pedro era o primeiro amigo que eu havia feito na rua.
A aula terminou e a condução chegou. Pedro não estava lá, mas ainda íamos passar na escola dele. Eu aproveitei novamente para sentar no meu lugar predileto. Ele chegou com mais algumas crianças e novamente sentou ao meu lado. Eu percebi que, a partir daquele dia, nasceria uma grande amizade. Ele me chamou para ir brincar com ele e os outros garotos na rua. Eles combinavam às quatro horas da tarde. Na verdade, as suas mães haviam combinado isso, para dar tempo de eles fazerem o dever de casa. Como eu era nova naquela rua, as mães não haviam combinado isso com a minha, mas Pedro disse que falaria com a mãe dele para ir à minha casa. A sua mãe era muito educada e a minha logo simpatizou por ela.
Quando deram quatro horas da tarde, eu já havia feito todas as minhas tarefas e minha mãe ficou bastante orgulhosa de mim. Corri para a casa de Pedro, que era praticamente na frente da minha e o chamei. Ele estava terminando a tarefa e a sua mãe me convidou para entrar. Esperei pouco tempo e logo ele veio. Chamou-me para ir até seu quarto para me mostrar seus brinquedos e jogos. De cara, achei o quarto dele um máximo. Ele tinha vários postes de super-heróis colocados na parede. Tinha um vídeo game e eu achei a coisa mais legal do mundo. Ele me mostrou sua coleção de carros e bonecos e eu até gostei. E então seu melhor amigo chegou e nós fomos para rua. Pedro nos apresentou e o nome dele era Dudu. Na rua conheci os outros garotos. Acho que alguns não foram com a minha cara, incluvise Dudu. Mas não estava nem aí para eles, eu queria mesmo era brincar. Éramos dez brincando de esconde-esconde. Nenhum café-com-leite, nenhum com vantagem alguma. Eu adorei aquilo. Na minha vez de contar, achei todos eles e eles me admiraram por causa disso. Ninguém tinha conseguido isso e eu me senti a tal. Uma garota no meio de nove garotos. Eu parecia a capitã do grupo. Às seis e meia, todos voltaram para casa e Pedro me chamou para jantar na sua. Era o primeiro dia de nossa amizade e ele já estava sendo muito legal comigo, mas respondi que não podia, pois pensei que mamãe não gostaria daquilo e ela jantaria sozinha. Disse que iria outro dia.
Nos outros dias após esse, nos encontrávamos sempre às quatro horas da tarde. Às vezes era ele que ia até minha casa, eu me atrasava um pouco. Era sempre assim, de segunda à sexta. Nos fins de semana, muitos garotos iam visitar suas famílias ou iam passear. Eu sempre ia à casa da minha vovó no sábado à tarde. Ela fazia um lanche da tarde maravilhoso. Aos domingos, mamãe me levava à praia, ou ao parque ou às compras. Eu adorava!
Eu não gostava quando chegava a segunda-feira por causa da escola, mas passei a gostar. Agora eu conhecia praticamente todos da condução, por causa de Pedro. Eu me sentava com os garotos da rua e Pedro guardava para mim o meu lugar predileto.
Após alguns dias, o pessoal da minha rua e da de trás marcou uma excursão a uma cachoeira em uma cidade não muito longe. Seria no sábado pela manhã e todos os garotos iriam. Pedi muito a mamãe e ela finalmente deixou. O guia explicou tudo a ela e falou que iam mais três guias juntos com nós e que não teria perigo nenhum.
No ônibus, Pedro sentou ao meu lado e deixou que eu ficasse na janela, admirando a paisagem. Dudu ficou um pouco chateado porque Pedro não tinha sentando ao seu lado. Mas eu era uma garota e não podia ficar sozinha. A excursão foi um máximo. Tiramos muitas fotos e conhecemos toda a história daquele lugar. Depois de tudo, o guia nos deixou tomar banho e isso foi mais legal ainda. Eu estava com vergonha e acabei mergulhando de roupa. Um garoto da rua de trás, que eu não conheci, pulou de uma pedra muito alta. Isso acabou com a nossa alegria, pois o guia mandou todos se recolherem, antes que acontecesse algo.
Só de me lembrar desse dia, me dá tanta saudade. Ainda tenho uma fotografia guardada. Eu e Pedro no ônibus, sorrindo. Acho que foi a única que me restou.

Crescemos e já não íamos mais de condução e sim de ônibus. Mas um ano letivo começou e eu me mudei para a escola de Pedro, pois na minha não tinha ensino médio. Agora eu era primeiro ano e ele terceiro. Já fazia oito anos que eu conhecia Pedro e nossa amizade não tinha mudado em nada. Pedro já era muito inteligente quando eu o conheci e agora era mais ainda. Ele queria ser engenheiro e estava estudando muito para isso. Eu achava tão fofo quando ele se oferecia para me ajudar nas matérias exatas. Ele era fera nisso, principalmente em Física, que eu detestava e ele não entendia o porquê. Em vez de nos reunirmos para brincar de esconde-esconde, nos reuníamos para estudar. Apesar de estudarmos em classes diferentes, isso não alterava em nada. O que eu estava aprendendo agora, Pedro estava revisando e então era ótimo para ele. Até Dudu se juntava com a gente para estudar, mas ele só ia para conversar e acabava atrapalhando. Uma vez eu comentei com Pedro que achava Dudu um gatinho e ele ficou meio com ciúmes. Disse que Dudu era mulherengo e que só pegava garotas mais velhas que ele. Mas eu sabia que esse seu ciúme era de irmão e o que ele queria era me proteger. Nossas mães achavam que, quando nós estivéssemos grandes, iríamos namorar. Acho que as pessoas não acreditam em amizade entre homem e mulher, mesmo quando se é criança. Eu nunca demonstrei que queria algo mais que a amizade de Pedro e nem ele fez isso. Crescemos como irmãos e permanecemos irmãos.
Na escola, muitas garotas queriam namorar Pedro. Ele era muito carinhoso e tinha um sorriso perfeito. As garotas tinham raiva de mim por que eu andava com ele. Eu conheci uma garota na minha sala que me revelou ser apaixonada por Pedro há dois anos e nunca teve coragem de chegar perto dele. Ela só me revelou isso depois que eu confirmei que era uma irmã para ele. Todos achavam que tínhamos um caso. Uma bobagem. Ela se chamava Alícia e era branca como a neve. Era muito linda por sinal. Ela me disse que muitos garotos olhavam para ela, menos Pedro. Ela se sentia invisível quando passar ao lado dele. Eu disse a ela que Pedro era muito desligado em relação a garotas e que esse ano ele não estava pensando muito nisso, pois o seu foco era o estudo. Ela ficou meio triste, mas eu prometi que falaria com ele.
Nesse dia, quando voltávamos de ônibus, eu disse a ele:

- Pedro, eu não sabia que você era tão popular entre as meninas.
- Deixe disso, Fernanda, elas nunca olham para mim.
- Mas você é cego mesmo, hein? Tem uma menina linda na minha sala, que acredito ser afim de você. Conhece Alícia?
- Alícia? Ela nunca olhou para mim. Ano passado, fui falar com ela, mas ela fugiu e até hoje eu não entendo.
- Acho que eu já entendi por que.
- Agora você lê a mente das pessoas, é?
- Não, Pedro, eu acho que ela realmente gosta de você e fugiu por que estava com medo.
- Medo de quê? Vocês garotas são tão malucas.
- Ah, você sabe, tem a timidez e tal. Quando a gente gosta de alguém, a gente não tem coragem para falar e quando esse alguém vem falar, a gente fica sem graça e tem medo de pagar mico, de falar besteiras.
- Sei. Você está gostando de quem, Fê? Você é minha melhor amiga e não me falou nada? Não acredito que seja o Dudu?
- Infelizmente é. Ah, Pedro, a gente não escolhe, né?
- Você vai de que horas lá pra casa? O “Dudu” vai pra lá hoje também. Quem sabe não... – Ele falou o nome Dudu com ironia.
- Acho que de quatro horas, pode ser? Tenho umas coisas para arrumar lá em casa.
- Pode sim.

Descemos do ônibus. Ele foi para a sua casa e eu para minha. Engraçado, eu marquei às quatro horas com ele, como antigamente. Cheguei uns vinte minutos mais cedo e ele estava dormindo. Um preguiçoso. Enquanto ele se ajeitava, Dudu tocou a campainha e eu mesma fui atender. Dudu estava com o cabelo todo bagunçado e eu achei isso muito engraçado. Provavelmente ele também estava dormindo e não se olhou no espelho. Mas continuava um gatinho. Nós ficamos conversando por um tempinho e Pedro chegou, com a cara de cínico que só ele fazia.
- O que vocês estavam conversando, hein?
- Ah, eu tava falando para ele que vocês são dois preguiçosos. Em vez de adiantar os estudos, ficam dormindo.
- Pois é. Fernanda é doida. Acha que eu vou ficar adiantando, enquanto eu tenho um amigo mestre que me ensina tudo.
- Você está mal acostumando, hein Dudu?
- Quem tem um amigo como você, Pedro, não precisa ter mais nada.
- Para de me encher, Eduardo.
- Nossa, eu nunca vi ninguém chamar Dudu de Eduardo. – Eu disse.
- Ele só fala assim quando é algo sério, mas eu sei que ele quer tirar onda com a minha cara.
- Vamos deixar de enrolação, EDUARDO? Cadê aquele livro que te pedi?
- Toma.

Nesse dia, nós estudamos até umas nove horas da noite. Tínhamos muita coisa e estávamos atrasados. Eu e Dudu jantamos por lá mesmo. Quando foi a hora de ir embora, Dudu foi comigo até em casa, coisa que não precisava, já que a casa de Pedro era a uns 10 metros da minha. Mas ele fez questão. Ficamos conversando um pouco no portão, e quando eu disse que precisava entrar, ele me deu um beijo. Não um beijo na bochecha, mas um beijo na boca. Eu fiquei sem saber o que fazer, eu nunca tinha beijado. Mas logo aprendi o que fazer e foi maravilhoso. Ele foi embora e eu entrei feliz da vida e corri pro telefone para ligar para Pedro. Eu não iria voltar a casa dele só para falar isso.

- Pedro, você não vai acreditar?
- Não vou mesmo. Mas pode falar. – Pedro sempre tinha esse senso de humor meio irônico.
- Dudu me beijou... Na boca!
- Ele teve coragem? Não acredito!
- Ei, como assim?
- Ah, ele falou para mim que estava gostando de você e eu disse a ele que você também tava.
- Não acredito que você falou! – Falei indignada e com um pouco de raiva. - Mas ei, eu estou com um pouco de medo. Você não disse que ele era...
- É. Eu disse. Mas eu acredito que está mesmo gostando de você. Ele não é de mentir para mim.
- Mas... Você me apóia? Se eu quiser mesmo ficar com ele?
- Oh Fê, é claro que eu apóio você. Você sabe que eu sempre estarei do seu lado. Só que é meio estranho para mim meus melhores amigos de infância, juntos!
- É também estranho para mim. A gente brigava tanto quando brincava na rua... É até engraçado isso.
- Olha, eu vou ter que desligar. Mamãe quer usar o telefone.
- Está certo, a gente se fala amanhã.

Minha mãe notou minha felicidade quando eu cheguei em casa. Fiquei até com medo que ela tivesse visto. Ela não viu, mas perguntou por que eu estava tão feliz e acabei contando a ela. Ela disse que o primeiro beijo a gente nunca esquece. E fui dormir bastante feliz nesse dia.

Eu comecei a namorar Dudu uma semana depois. A gente ficou e ele me pediu em namoro. Ele foi muito fofo e eu nunca iria recusar um pedido desses. Pedro também começou a namorar, só que um mês depois que eu e Dudu estávamos juntos. E adivinha com quem ele estava namorando? Com Alícia, claro. Depois daquele dia que Dudu tomou a iniciativa comigo, ele decidiu falar com Alícia e dessa vez ela não fugiu. Fiquei muito amiga de Alícia depois que ela começou a namorar Pedro. Eu adorava quando saímos juntos. Íamos ao cinema, à praia, ao teatro e a vários lugares. Juntos. O melhor de tudo era que Alícia e Dudu não sentiam ciúmes de mim e de Pedro.
Percebi com o tempo que eu era mais amiga de Pedro do que Dudu, apesar de eles se conhecerem antes. Quando eu e Dudu começamos a namorar, ele mal ligava para Pedro, mas eu sempre queria a presença dele. Às vezes eu achava que Pedro era meu irmão de sangue mesmo, por que havia um laço muito forte entre nós. Após um ano, Dudu teve que se mudar, mas não para muito longe, e sim para o bairro do lado. Eu fiquei um pouco triste porque não o veria todos os dias, mas me consolei, pois eu ainda veria Pedro. Apesar de estar apaixonada por Dudu, eu amava muito Pedro. Dudu poderia ir morar muito longe de mim, mas eu ficaria mais triste se fosse Pedro no lugar dele. Eu não poderia ficar longe dele. Das suas conversas, dos seus conselhos, suas risadas, sua alegria.
Namorei um ano e meio com Dudu e fui eu que acabei com ele. Ele tinha ficado estranho depois que tirou minha virgindade. Visitava-me pouco e eu não agüentava mais isso. Já Pedro, namorou quase três anos com Alícia. Quando eu terminei com Dudu, mal saia com Pedro, pois Alícia sempre estava junto e eu não gostava de segurar vela, mas eu sempre estudava com ele e ia sempre à sua casa. Sair era o de menos.

Quando eu fiz dezoito anos, eu e Pedro estávamos solteiros. Resolvemos sair para comemorar em uma boate. Seria uma noite dupla de estréia. Era a primeira vez que eu entrava numa boate e a primeira vez que eu ia beber. Eu nunca tive coragem de beber um gole sequer de álcool e dessa vez ele insistiu e eu aceitei. Tomei meu primeiro porre e logo fiquei bêbada. Tão bêbada que beijei dez caras naquela noite. Pedro ficou impressionado. Claro, eu nunca tinha mostrado esse meu lado louco para ele. Ele só havia beijado uma garota. Ele me carregou e me levou até sua casa, para minha mãe não me ver naquele estado. Nós chegamos meio cedo e eu iria para casa às cinco da manhã, quando voltasse ao meu estado sóbrio. Ele foi muito fofo e me deixou dormir em sua cama no seu quarto e foi dormir no sofá. Eu acordei quando o sol nasceu e fui para casa, sem acordá-lo. Eu deveria chamá-lo para o seu quarto, mas ele estava dormindo tão tranquilamente que fiquei com receio de acordá-lo.
Depois dessa noite, decidimos marcar sempre de sair assim, mas ele pediu que eu não fizesse isso mais. Ele tinha me dito que alguns caras se aproveitaram de mim e ele não podia impedir, com medo que rolasse alguma briga. E então toda a sexta-feira iríamos a boates. Tenho muitas saudades dessas noites.

Pedro se formou aos vinte e quatro anos e eu aos vinte e dois. Meu curso tinha três anos e o dele seis. Ele, é claro, passou de primeira no vestibular. Eu não passei na primeira vez, mas sim no ano seguinte. Ele me ajudou em tudo, mesmo ocupado com seu curso. O bom de tudo isso foi que nos formamos juntos. Uma incrível ironia do destino. Nós conseguimos um emprego e decidimos que depois de um ano, íamos morar juntos. E por um ano, juntamos dinheiro e deixamos a nossa rua. Eu senti muita falta de morar ali. As lembranças da infância e da adolescência ficariam ali.
Decidimos comprar um apartamento perto do trabalho. O trabalho de Pedro não era tão perto, mas ele tinha carro e isso facilitava. Quando saia mais cedo, ele me levava. Eu sempre dizia que não precisava e que podia ir a pé (era a dois quarteirões), mas ele insistia, com aquele seu cuidado.
Nossos vizinhos pensavam que éramos casados. Eu não os culpo. Éramos dois adultos morando juntos.

Um dia, Pedro encontrou sua antiga namorada e minha antiga amiga Alícia. Eles já estavam crescidos, maturos e voltaram a namorar. Alícia ficou surpresa, não só por eu ainda manter contato com Pedro, mas por que eu estava morando com ele. Um ano e meio depois, Pedro e Alícia ficaram noivos e depois de oito meses, se casaram. Ele me deixou o apartamento, não fazendo questão alguma de dividir nada. Os primeiros dias sem Pedro no apartamento foram terríveis. Eu sentia muita falta dele. Moramos três anos juntos e éramos amigos há dezoito anos. Eu até fiquei impressionada com esse número tão grande. Era quase uma vida e tínhamos uma vida em forma de amizade.

Eu também casei pouco tempo depois dele, e fui morar em outra cidade, por causa do trabalho do meu marido. Não era tão longe, mas eram cinco horas de viagem da minha antiga cidade. Pedi demissão do meu trabalho e meu marido, Charlie, arranjou um ótimo trabalho para mim e eu ganhava muito mais.
Quando fui me despedi de Pedro, não pude agüentar. Chorei muito e ele também. Nossas vidas estavam tomando rumos diferentes. Ele disse que me visitaria e eu também o visitaria, até porque mamãe não ia querer que eu deixasse de vê-la também.

Um ano se passou e minhas visitas à mamãe e a Pedro foram diminuindo. Eu não podia viajar por causa do trabalho e Pedro também, mas ele me ligava todo final de semana. Mamãe me visitava sempre que podia.

Fiquei casado com Charlie por três anos e me separei dele, ainda grávida. Ele havia me traído com sua colega de trabalho e eu descobri que isso acontecia há muitos meses. Não sabia o que fazer e voltei a minha antiga cidade para morar com mamãe. Logo quando cheguei, liguei para Pedro e contei o ocorrido. Ele ficou muito triste por mim e foi me visitar. Eu disse que ele seria o padrinho do meu filho e que o nome dele seria Pedro. Ele gostou muito do convite e me agradeceu pela homenagem. Ele e Alícia ainda não tinham filhos e um afilhado seria bem-vindo para os dois. Alícia também veio me ver. Estava muito diferente e tinha pintado o cabelo de preto (ela sempre foi galega).

Apesar de tudo pelo que eu passei, eu estava feliz de estar de volta a minha rua, que hoje tinha mais garotas do que garotos. Meu filho nasceu, lindo e saudável. Charlie queria a guarda, mas ganhei na justiça. Ele não havia gostado do nome que eu dei ao nosso filho. Charlie sempre teve um ciúme de Pedro e achava que ele tinha sido meu caso de adolescência.

A minha amizade com Pedro durou vinte e três anos. Até hoje sinto muitas saudades dele. Ele contraiu uma doença muito grave e faleceu logo depois de um ano. Fiquei muito abalada com a morte dele e por muito tempo não consegui sair de casa. Pedro era a minha alegria. Não conseguia parar de chorar. Todas as noites eu chorava por ele e rezava, pedindo que ele voltasse. Eu estava quase ficando louca. Um dia Alícia foi me visitar e me entregou um envelope que havia encontrado juntos com as coisas dele. Tinham duas cartas, e a primeira aparentava ser muito antiga. Pelo ano, eu percebi que tinha sido o ano em que nos conhecemos, há vinte e três anos. As duas cartas eram endereçadas a mim e eu não entendi por que ele não havia me entregado. Na primeira carta, Pedro dizia em letras tortas:

“Fernanda, você é a primeira garota que é minha amiga. Você é muito legal e eu gosto de você e quero ser seu amigo para sempre”.

A segunda carta era mais recente e ele dizia:

“Eu não sei por que eu nunca te entreguei essa carta, Fê. Eu tive muita vergonha e não tive coragem de jogar fora. Eu disse que queria ser seu amigo para sempre, né? Engraçado, eu escrevi isso com tanta convicção e até hoje somos amigos. Sou feliz em te ter na minha vida. Você é a irmã que eu nunca tive. Eu tenho certeza que a nossa amizade ainda vai durar uns cinqüenta anos, pode escrever. Eu só quero que você saiba que qualquer coisa que precisar, sabe que seu super irmão Pedro vai estar sempre ao seu lado. Eu nunca vou me esquecer de você. Eu te amo, Fê!”

Chorei muito ao ler essas palavras. Ele havia escrito a segunda carta antes de contrair a doença. Queria tanto que fosse verdade o que ele disse, que a nossa amizade duraria uns cinqüenta anos, mas não chegou à metade. Hoje tenho trinta e cinco anos e ainda sinto falta do sorriso de Pedro. Eu nunca me esquecerei dele. Nunca.