17 de janeiro de 2010

Medo.

Não, não sou uma boa escritora. Nunca me interessei em escrever e hoje estou aqui. Na verdade, esse nunca é meio vago. Tudo para mim é meio vago, mas enfim. Quando eu era criança, gostava muito de escrever. Sempre que os professores passavam 'redações', do tipo: "Como foram suas férias?", eu me empolgava e contava tudo o que eu tinha feito. Ou quando eles pediam para escrever uma historinha sobre determinado tema ou qualquer um, eu escrevia. E nao demorava muito para pensar.

Lembro-me bem, ou não, do dia em que eu escrevi uma historinha, que minha professora gostou muitíssimo. Não sei se a história que eu escrevi era sobre o apagão ou a menina que adorava dormir no banheiro, mas sei que ela gostou. Gostou tanto que decidiu ler para todos os alunos. E eu? O que fazer? Bem, eu sempre tive vergonha das coisas que eu escrevia, tanto como historinhas e cartas, e dessa vez, minha historinha seria contada a todos os que estavam presentes. Nao poderia ficar ali, enquanto minha professora lia para a turma e depois revelar a autora. Desci as escadas quando ela começou a ler e fui ao banheiro. E fiquei lá, durante um bom tempo, me olhando no espelho, esperando o tempo passar. Imaginei que ela tivesse terminado e voltei. Subi as escadas e quando entro na sala, todos batem palma e se viram pra mim. Sério, naquele momento, nao sei dizer o que eu senti. Só sei que entrei na sala, com a cabeça abaixada, para não ter que olhar pra ninguém e me sentei. É só o que eu lembro.

Acho que esse meu medo sempre foi presente em minha vida. Nunca gostei de apresentar trabalho, do tipo seminário. Nunca quis ser a primeira, muito menos a última, pela ansiedade. Quando chegava minha vez, o nervosismo corria por todo meu corpo, meu coração acelerava e mesmo se eu estivesse com a fala na mão, eu gaguejava enquanto lia. Às vezes, também, quando a fala era decorada (sempre fui de decorar, e não aprender e expressar para os outros o que eu aprendi), eu me perdia, tentava lembrar, e mais uma vez, gaguejava. Mas hoje, não preciso mas disso, por enquanto. Minha irmã diz que eu tenho que saber me expressar, saber falar as coisas, pois quando eu entrar na faculdade, tudo vai ser diferente, eu não vou poder ter esse medo de apresentar trabalho, esse tipo de coisa. Fico imaginando: o que será de mim quando esse dia chegar? Não sei. Acho que eu vou ter que respirar profundamente e encarar.

É, encarar. Coisa que eu não costumo usar para o meu dia-a-dia. Parece que estou cercada de medo. Perdi minha coragem. É, eu fui corajosa um dia. Minhas irmãs sempre disseram que eu era corajosa. Eu era o homem da casa, quando meus pai e irmão não estavam, e era sempre assim...Eu as acompanhava até a área de serviço e esperava por elas, pois o quintal é escuro e você não vê nada além de sombras. E elas apagavam a luz da área de serviço e saiam correndo e eu ia caminhando, tranquilamente. Também não gosto de ficar sozinha em casa, principalmente à noite. Sempre escuto barulhos estranhos e minha imaginação fértil trabalha sozinha e cria algo aterrorizante. Quando isso acontece, tento me distrair ao máximo, ocultar meu medo. Mas, às vezes, é difícil. Penso que tem alguém me vendo, vendo que estou com medo, vendo que eu estou tentando encarar meu medo, e essa pessoa sabe que eu finjindo não ter medo. Faço ligações, pra pelo menos ouvir a voz de alguém, pra me acalmar. Mas não dura mais que dez minutos. Chamo Lana, minha cadelinha, pra ficar em minha companhia. Mas ela teima em querer sair do quarto. Ou eu faço carinho, ou ela sai. E então, sigo tentando driblar meu medo.

E o que eu não gosto é de dormir à noite, no meu quarto, sozinha, pois tudo fica um breu e minha imaginação fértil trabalha sozinha novamente. E odeio ter que fechar a janela e a cortina. Sempre penso que quando eu vou fazer isso, alguma coisa irá surgir da escuridão do meu quintal. Fecho sem olhar e rápido, muito rápido. E então, volto ao computador para ocupar meu tempo. Tempo. Olho sempre para o relógio, esperando que eu tempo passe e amanheça, para eu finalmente ter coragem de dormir. Fico aqui, até cinco horas da manhã, esperando o sol aparecer, pois assim, me sentirei segura e poderei dormir tranquila, sem nenhum medo.





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3 comentários:

  1. Os medos podem ser a chave para fazer as coisas certas.
    E este medo de falar em público, deixa a faculdade chegar que este medo some rapidinho, hehehe

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  2. Um dia conheci este medo,mas um dia eu o enfrentei,segurei ele pelo braço,olhei em seus olhos,pude perceber que ele tinha mais medo de mim do que eu dele.O medo deste medo é que um dia eu o enfrentasse,que um dia eu abrisse meu coração para outros sentimentos.Foi quando este medo viu que em mim,havia um lugar onde ele não podia penetrar,ele podia vim na escuridão,no barulho que o vento fazia na janela.Mas não podia me dominar eu sou livre.

    Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.

    Clarice Lispector

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  3. Eu só durmo no escuro. Eu levo coisas pra ler quando vou apresentar seminários ou quaisquer trabalhos e não consigo olhar pro papel, eu fico trêmula e meu coração dispara. Mas isso melhorou bastante.

    Gostei do seu relato, me parece muito pessoal e intimo.

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