25 de novembro de 2018

Aquele abraço na paisagem verde escura.

Ele disse que estava com frio e quis se cobrir com minha canga. Estava tremendo e eu sabia que a tremedeira não era de frio e sim de nervosismo mesmo, por estar do meu lado. Ele queria e eu também, obviamente. Estávamos ali até tarde conversando e era o nosso último dia naquele lugar e até então não havia rolado uma oportunidade de estarmos tão próximos como naquele instante. Olhávamos uma paisagem verde no escuro, em silêncio. Como estávamos num meio de uma mata, onde não tinha nenhuma iluminação, conseguíamos  enxergar muito bem aquele fantástico campo, cheio de matos, árvores distantes e ouvir os seus sons da noite. O vento balançando as folhagens, zumbido de insetos, o relinchar de um cavalo que não sabíamos de onde vinha, e outros sons mais distantes difíceis de definir. Ficamos bem coladinhos, ele com frio e eu com um pouco de calor, por ter aquele corpo perto de mim. A vontade dos dois era notável, mas parecia que a timidez ia se fazer presente por um tempo. Fiquei a esperar a atitude dele, queria que ele me roubasse um beijo e não que eu fosse a ladra. Um pouco depois de frio, silêncio e admiração da paisagem, ele finalmente me beijou. E não parava de me beijar. Foi um primeiro beijo estranho. Eu fiquei um pouco sem graça, não queria mais beijá-lo e me saí um pouco. Ele notou o meu desconforto e eu decidi que já era realmente tarde para ficar mais tempo ali e queria ir dormir. Ele estava sentado e eu já estava de pé para ir embora e nos abraçamos para a despedida. Aquele abraço valeu por muito, e naquele momento eu senti um conforto enorme. Aquele abraço me trouxe um bem estar e um aconchego surpreendentes. Poderíamos nos demorar por horas e horas envoltos em nossos braços, que não íamos nem nos preocuparmos com nada ao redor. Ele abraçando a minha cintura e eu abraçando a cabeça dele em meu peito, por alguns minutos no silêncio daquela última noite. Minutos aqueles que se eternizaram. 

11 de outubro de 2018

Um dia em jejum.

Eu nunca fui de me interessar por política, e mesmo no início dessas eleições eu não me envolvi nisso. Tanto que não li nada sobre, não pesquisei, nem nada. Uma escolha minha. Não é o caso que eu não me preocupo com o presente e o futuro do país. Na realidade, pra mim preocupação é gasto desnecessário de energia, por que a gente geralmente não consegue fazer algo produtivo e benéfico quando se está preocupad@. Isso não é desleixo, é ter consciência de gastar a energia em momentos realmente necessários e que sirvam para algum propósito. Mas o que eu digo é que sim, eu me importo! Me importo com o planeta, com a natureza, com os animais, com as pessoas. Me importo com o rumo com que as coisas estão tomando. E por isso decidi ter um dia de experiência para me manter em lucidez a todo esse tormento e tentar levar essa lucidez para as pessoas ao meu redor.

Então, depois das votações de Domingo, do resultado que gerou tormento e tempestade a todo mundo, eu me senti extremamente ansiosa. Não acreditei que 46% dos votos válidos fossem para o candidato que está pregando ódio e violência no país. É bem decepcionante, frustrante, triste ver tudo isso, mas eu vejo que ele só despertou aquele ódio que já estava latente nesses 46%. É interessante a gente se examinar, por que muita coisa dentro da gente pode estar latente também, só esperando por um interruptor pra acionar.
Acredito que essas eleições estão mexendo com muita gente e comigo não foi diferente. Fiquei ansiosa, me sentindo mal, inquieta, não conseguindo fazer o que eu deveria fazer. Minha mente estava rajásica, que é um dos estágios sutis da matéria em que a mente opera de maneira que está sempre em busca de atividade, ação. Então, a mente em raja tem equilíbrio e desequilíbrio, e quando em desequilíbrio ela desperta explosão, raiva, descontentamento. E eu não queria mais me sentir assim, então já na terça-feira, dia 9, fui dormir com a intenção de me afastar por um dia das redes sociais. Quando acordei no dia do jejum, dia 10, senti uma necessidade de não comer, ter a experiência de ficar em jejum de comida e aí, depois me foi despertado também a necessidade de ficar em silêncio.
Essas práticas me ajudaram muitíssimo a me manter firme, calma, em serenidade e hoje, depois de retornar do jejum, sinto uma maior limpeza, não só no meu organismo, mas na minha mente, no meu modo de falar. 
Vou contar em resumo um pouco como foi o meu dia.

Acordei um pouco tarde, umas 10h da manhã. Já não liguei a internet do celular, como costumeiramente faço e assim mantive. Tomei água morna com limão, que é o que eu tenho feito praticamente todos os dias antes de me alimentar. Fiz uma leve prática de yoga em jejum e pensei em ir para cozinha depois para fazer meu café da manhã, mas já era mais de 11h e me veio a ideia de jejuar o alimento. Eu nunca tinha feito uma prática dessas, já pensava muitas vezes, mas não tinha colocado em prática ainda. Então eu fui ler um pouco sobre isso na internet e decidi que assim seria o meu dia. Fiz uma ligação para o meu pai e após desligar o telefone com ele tive a sensação de que eu precisaria fazer um jejum do silêncio também. Então comecei o dia assim: me abstendo de celular e de redes sociais (sem me abster da internet), me abstendo de alimento e de fala. Passei o início da tarde lendo e estudando coisas que me preenchiam. Fiz umas meditações curtas e outras longas, em savasana. Senti meu corpo flutuar, senti como se a minha consciência estive acima do meu corpo e depois não senti mais o meu corpo. Tive a percepção do meu corpo apenas como uma casinha que estou habitando temporariamente e que a minha consciência é muito maior do que eu imaginava. Não tenho exatamente como descrever essa sensação, pois ela foi muito única para aquele momento. Pensei em fazer jejum de alimento por 24h, mas às 17h da tarde entrei em letargia e apatia e vi que, naquele momento, o meu corpo precisava de comida. O que eu li sobre jejuar é que quando você decide quebrar o jejum, deve comer pouco, comidas leves e de forma devagar. Optei por uma banana e foi praticamente a banana mais gostosa que já comi. Apreciei o sabor e cada mordida que eu dava. Percebi que em jejum, nossos sentidos se aguçam mais e pra mim o que eu mais senti foi o paladar e a audição. Após comer a banana, eu já me senti um pouco melhor em relação a letargia e decidi que ia tomar uma sopa leve, uma hora depois. Optei por cozinhar a sopa com legumes e feijão e não adicionei sal para temperá-la. Coloquei apenas azeite e cúrcuma e para a minha surpresa, aquela sopa estava saborosíssima! Senti o gosto e o sabor de cada legume, o caldo, tudo com uma percepção bem diferente do que eu já havia sentido. A sopa me deu um ânimo maior e  uma vontade de meditar. Deitei novamente em savasana e ao terminar a prática, senti como se tivesse deitado por horas e horas, por levantar muito mais renovada. Voltei a estudar e assim fiquei até às 22h30 da  noite. 
O que me ajudou na prática do silêncio foi ter o entendimento do que é a fala. Reli essa semana uma frase do Buda de que aprecio muito, que é: Fale apenas quando o que for dito for mais bonito do que o silêncio. Quando não estamos bem, falamos coisas desnecessárias, as quais nos arrependemos depois. Xingamos, falamos mal dos outros, tratamos mal, com indiferença e o resultado não é nada salutar. Então um dia em silêncio me trouxe um pouco mais sobre esses e outros ensinamentos que venho aprendendo. Eu senti que precisaria ficar mais tempo em silêncio, mas decidi quebrar esse jejum para voltar a falar com as pessoas, até porque como eu decidi na hora, não cheguei avisar a ninguém sobre minha prática. Interessante foi que, quando estou em casa e as cachorrinhas daqui latem e fazem muito barulho, eu me irrito com facilidade e grito com elas para pararem. Mas desta vez eu não me irritei com nada, com qualquer outro barulho. Eu simplesmente observei como por dentro eu estava reagindo e estava tudo certo até então. 

Contabilizei meus jejuns e vi que passei: 
- Aproximadamente 18h sem alimento;
- 21h em silêncio;
- 22h30 sem redes sociais e sem comunicação. 

Para mim foi uma experiência enriquecedora, que eu gostaria de passar mais tempo, hehe. Tudo isso me trouxe mais calma, maior serenidade, mais paz interior, mais paciência, mais lucidez e o melhor, limpeza do organismo e da mente. O dia foi bastante produtivo, meditei, estudei, li emails antigos que estavam acumulados, fiz prática de yoga, meditação, reiki à distância, coisas que gosto bastante e que às vezes deixo de lado por conta da utilização das redes sociais e dos afazeres domésticos. Tirei mesmo o dia só para mim! E até vi que as nenéns (gatas e cachorrinhas) aqui de casa estavam me apoiando, pois ficaram o tempo todo do meu lado. <3 
Pretendo fazer novamente esses jejuns outras vezes, porém de uma forma mais organizada, com comunicação prévia, um estudo maior sobre jejum de alimentos, com cautela e sabedoria, sempre.

19 de julho de 2018

O silêncio da Mata.

Natureza e calmaria. Árvores, som do vento, dos pássaros, sons de pequenos passos. Conexões bonitas e profundas. Impermanentes.
Pessoas simples, sorrisos simples. Pessoas amáveis, abertas, acolhedoras.
Conforto e aconchego de estar em casa, mesmo a quilômetros de distância.
Abandono de barreiras mentais, entrega ao momento, ao momento presente. Se entregar e se integrar às coisas ao redor: pessoas, natureza, práticas, sentimentos.
Olhares amorosos, sem julgamentos, o ouvir e o falar. Se despir sem medo.

[Uma sintonia intensa. Uma conexão íntima pelo silêncio. Aquele silêncio confortante, que de nenhuma maneira é embaraçoso. O silêncio que nos fez presente, o silêncio contemplativo, do momento, das paisagens e das companhias. Um pôr do sol inigualável; um céu extraordinariamente estrelado de uma noite clara; incontáveis sorrisos que transmitiam sinceridade e pureza; abraços demorados, apertados e sem espaços vazios, que exalavam afeto e carinho].

Momentos para se guardar. Momentos em que se percebe que há completude. Ter tudo o que se precisa dentro de si para a própria felicidade. Não há solidão. Há solitude e integração. A mesma busca, os mesmos anseios. A qualidade humana simplesmente em união.

Fevereiro 2018.

15 de outubro de 2017

Pela tua janela.

Passei na ida pela tua janela
Não te vi
Passei na volta pela tua janela
Também não te vi
Provavelmente não vou te ver mais
E da próxima vez que eu passar
Pela tua janela
Eu não vou olhar
Não vou
E só vou olhar
Quando tu não estiver mais aqui
Em mim

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